Toma esta segunda-feira (9) posse como Presidente da República António José Seguro, praticamente 50 anos após António Ramalho Eanes o ter feito pela primeira vez em democracia. Logo depois de ter ganhado as eleições, o próximo chefe de Estado garantiu duas coisas: largou a vida académica, como professor, e já não tem nenhuma ligação empresarial. Num exercício de antevisão, o DN conversou com três antigos alunos - que só deixaram de o ser no ano letivo passado - do sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa para perceber como se comportava na sala de aula o futuro mais alto magistrado da nação. No final, mostraram as expectativas que têm, baseadas na experiência letiva, sobre o próximo inquilino do Palácio de Belém.Salvador Varges, Sofia Pina Alves e Tomás Mourinha estudam Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP). Estão no último ano do curso e foram alunos de António José Seguro no segundo ano da licenciatura, nas discicplinas de Administração e Políticas Públicas e Governo Local e Desenvolvimento do Território. Todos admitem a sua convicção partidária sem qualquer hesitação e demonstram uma clarividência sobre como António José Seguro poderá desempenhar a função de Presidente da República, baseada na experiência da sala de aula. “Era uma pessoa bastante ligada aos alunos, era uma pessoa bastante empática, estava sempre ao corrente dos nossos problemas”, admite Tomás Mourinha, que, aos 21 anos, é o único, entre os três alunos, que admite ter uma ligação ao PS. Além disso, continua, António José Seguro era “muito próximo” dos alunos e gostava de ouvir muitas das opiniões partilhadas em sala de aula.Quando Seguro deixou de ser professor destes três jovens, cumprindo o ciclo natural das aulas, ainda não tinha formalizado a candidatura a Belém, e, curiosamente, nem todos os alunos conheciam o seu percurso político - como secretário-geral do PS ou como ministro adjunto do primeiro-ministro durante o XIV Governo Constitucional (1999-2002), liderado por António Guterres.No entanto, para Tomás Mourinha, desde muito cedo, ainda como criança, era tudo evidente, tanto sobre política como sobre António José Seguro, porque, explica, tinha acompanhado “o seu percurso até chegar à altura das eleições internas [no PS] com António Costa”. Além disso, o estudante de Ciência Política assegura: “o bichinho da política nasceu inato em mim.”. Tomás Mourinha nasceu no seio de uma família ligada ao PS, porém, embora discutissem “orçamentos do Estado” à mesa, as discussões não eram “muito críticas”. Ainda assim, fala num meio social em que cresceu e que potenciou todo o interesse por política e que, eventualmente, culminou, por agora, nesta licenciatura, que o levou a “aprofundar mais os conhecimentos sobre como funciona o Estado por dentro, como é que funcionam as políticas públicas”.Sobre António José Seguro, explica como na sala de aula não foi apanhado de surpresa, porque “já conhecia o seu passado”, mesmo que não soubesse “em detalhe” quais é que tinham sido os cargos na própria governação. “Mas conhecia-o muito bem e sempre notei que era uma pessoa bastante empática, o que realmente veio a notar-se. Aquilo que António José Seguro transparecia na televisão era o que era na realidade: uma pessoa empática e bastante astuta.”Em relação ao futuro, apesar de saber o que quer, Tomás Mourinha deixa-o em aberto, até porque “só o futuro dirá”. Em princípio, irei seguir a área de relações internacionais e estarei com mais foco na área da segurança e defesa”, projeta.Sofia Pina Alves, 20 anos, fala abertamente da sua convicção partidária, ligada ao PSD, que não tem qualquer tradição familiar. A mãe é de esquerda, garante, o que até gera discussões, no melhor sentido que a palavra pode ter, lá em casa. À lista de elogios dirigidos a António José Seguro, a estudante acrescenta o facto de o futuro Presidente ser “muito acessível”, na mesma medida em que “era muito exigente”. Sofia Pina Alves recorre ao adjetivo “exigente” várias vezes para descrever António José Seguro, mas nunca o usa como uma crítica negativa.“Era muito exigente. E foi isso também que nós sentimos nos trabalhos que tivemos, nos testes. Por mais proximidade que tivesse connosco, por mais empatia que tivesse por nós, sempre foi muito exigente e sempre puxou muito por nós”, lembra, acrescentando que “havia muito espaço na aula para falarmos, apesar de todos nós sermos de ideologias e partidos diferentes. Mas isso nunca foi colocado em causa na sala de aula. Sempre foi muito aberto ao debate. Cada um podia ter as ideologias e as percepções que queria, sendo que tinham de ser muito bem fundamentadas. Era com isso que ele implicava bastante connosco”, remata.. Sobre o percurso político de António José Seguro, Sofia Pina Alves admite que, no início das aulas, não sabia muito sobre ele. “Erro meu, se calhar crasso”, diz a estudante, sorridente. De qualquer forma, rapidamente tomou conhecimento do passado político do professor. “Também perguntei aos meus pais, que quando ele era líder do PS também tinham mais percepção sobre o assunto. A partir do momento em que percebi quem era, comecei também a entender mais o que é que se pensava por dentro do PS”, explica..Sobre o seu futuro profissional, Sofia Pina Alves vê a licenciatura em Ciência Política como a primeira, porque acredita que vai tirar mais. Para já, vê o curso como sendo “muito amplo” e como algo que “ensina muito sobre o próprio funcionamento da política em Portugal e no mundo”. “Acho que é muito importante para nós, para a sociedade, para o civismo de cada um”, considera.A resposta de Sofia Pina Alves encerra uma preocupação, que diz não ser muito óbvia para a maioria das pessoas: “nós vamos a um café da nossa rua e as pessoas não fazem ideia de quem é o primeiro-ministro. Na nossa bolha, estamos muito informados e é importante também, com esta informação que temos, conseguirmos espalhar esta informação e conseguirmos divulgá-la, porque são os princípios da sociedade em que nós vivemos”, conclui.Salvador Varges, 20 anos, assumidamente ligado ao CDS, garante que não só conhecia o percurso político de António José Seguro quando se tornou seu aluno como tem uma “uma opinião muito própria” sobre o facto do ISCSP integrar professores que têm experiência política.“Temos outros professores que também têm ou tiveram uma história política e, sinceramente, para um curso como o nosso, acho que isso só complementa”, explica.Questionado sobre se tem alguma crítica negativa a fazer às aulas dadas pelo futuro Presidente, Salvador Varges faz uma análise cuidada, com a preocupação de dar todas as perspetivas.“A partir do momento em que lidamos com seres humanos, há sempre ações que são boas e outras menos boas, mas honestamente, o panorama geral das aulas do professor António José Segura é francamente positivo”, afirma.Em relação às “duas cadeiras” que António José Seguro lecionou - Administração e Políticas Públicas e Governo Local e Desenvolvimento do Território - Salvador Varges vê a segunda como sendo “muito mais prática, ou seja, que envolve mais um conhecimento da realidade política e da administração intermédia do país”. Em relação à primeira, descreve-a como sendo “mais teórica, um bocadinho mais densa, sobre como é que funciona a Administração Pública em Portugal”. . De qualquer forma, o estudante de Ciência Política garante que “nada melhor do que ter como professor alguém que já esteve no Governo, a falar sobre Administração Pública, porque tem conhecimento de causa. E, acima de tudo, o professor António José Seguro - e notava-se isto nas aulas que ele dava - ao contrário, se calhar, de alguns políticos que andam por aí, sempre que fazíamos uma pergunta que ele não sabia responder, ou porque não estava informado, ou porque nunca tinha tido contacto com a questão em si, dizia: ‘não se preocupe, eu vou pesquisar e volto na próxima aula com uma resposta.’”Salvador Varges esclarece que começou desde muito novo a interessar-se por política, por volta dos 13 ou 14 anos. “Fruto e consequência - isto parece um bocado fora da caixa - do divórcio dos meus pai”, explica, sem qualquer hesitação em relatar uma situação tão íntima como comum em muitas famílias.“Havia muita discussão política à mesa, muito pouco enviesada, ou seja, sempre tive alguma socialização ligada à política. Não tenho políticos na família, não tenho nada ligado à política, apenas pessoas que têm, lá está, algum grau académico superior. A minha mãe tem doutoramento, o meu pai tem a licenciatura e o mestrado. E sempre foi um interesse da minha família”, explica, enquanto relata “um choque de visões, do mundo, da vida e da sociedade”, que o despertou.É assim que Salvador Varges explica que, “num cenário, hoje em dia, profundamente marcado por extremismos políticos, por guerras, por discussões e sociedades altamente divididas, é extremamente interessante, para o bom e para o mal, percebermos como é que tudo isto acontece, e aqui nós temos uma vantagem de contactar com várias áreas disciplinares que nos permitem ter essa percepção de mundo e de realidade. A academia também é isso, fomentar o espírito crítico relativamente àquilo que nos é apresentado”, conclui, com uma lucidez de quem sabe o que quer.. “Todas as capacidades para ser um bom Presidente”Questionados - quase num exercício de futurologia - sobre o que esperam que António José Seguro seja como chefe de Estado, os seus três antigos alunos não vacilaram em descrevê-lo como moderado, exigente, próximo e muito ligado ao papel institucional que vai desempenhar. Há quase um consenso nos adjetivos utilizados.Tomás Mourinha garante que António José Seguro “tem todas as capacidades para ser um bom Presidente da República”, tendo em conta a “pessoa empática” que é, e espera que a “capacidade de diálogo com os diversos partidos seja construtiva”, mas reserva também alguma esperança de que “António José Seguro se resguarde mais, em comparação com Marcelo Rebelo de Sousa”. “Espero que esteja presente com um papel crucial na definição de mudanças, pactos, reformas, e sempre com um papel institucional coeso e forte”, conclui.Projetando um pouco a imagem que tem de António José Seguro como professor, Sofia Pina Alves diz que vamos ter um Presidente “exigente a ouvir as pessoas”, que, por seu turno, deverão “argumentar bem todas as suas posições”. Será “exigente” na “procura de respostas”.Num exercício semelhante, Salvador Varges recorre a duas palavras: “acessível e moderado. Para mim são as duas melhores palavras que definem o professor António José Seguro.” “Creio que ele vai ser promotor de pontes e vai ser alguém que vai aparecer como um farol da moderação num contexto de um Parlamento altamente dividido”, vaticina o estudante, rematando com mais uma ideia sobre o Presidente eleito: “Acima de tudo, responsável, próximo, moderado e com objetivos muito bem definidos.” .Tomada de posse de Seguro terá programa de dois dias com passagens por Arganil, Guimarães e Porto.Seguro abre Jardins do Palácio de Belém na segunda-feira, dia de tomada de posse