Os cocktails saíam com velocidade e os turistas, curiosos, agarravam-se ao telemóvel para registar a primeira música que ecoava no Largo do Carmo, numa quarta-feira e ainda a duas horas do normal horário de jantar. O barulho não parou, contagiou, cresceu e levou Catarina Martins, munida de apoiantes, até ao Chiado e depois ao Largo da Boa-Hora, zona física da bilhética do São Carlos. O palco, cénico ou não, de uma antiga atriz fez a eurodeputada pegar no megafone e destacar uma palavra. “Convicção”, pediu, tanto para o voto, como para a vida. “Convicção nesta primeira volta. Nesta primeira volta e em todas as voltas que o mundo der”, disse após 45 minutos de convívio dançado, ao som de bombos rotinados. Aqueceu o passo ao ritmo da música e do slogan escolhido num almoço por um militante. “Catarina, a presidente de toda a gente”, podia ouvir-se. No caminho, foi cumprimentar um polícia municipal que ajudava a condicionar o trânsito, cumprimentou curiosos que trabalhavam nas lojas e que lhe sorriam, dirigiu-se a imigrantes, alguns em estabelecimentos que não têm hora de fecho afixada na porta. “Há quem nos queira dividir. Acredito num país em que a maioria é respeitada e não numa política que só responde às elites do privilégio. Estou pela maioria do povo que constrói este país e que tem muito mais em comum do que qualquer ódio que se queira apregoar. Alguém acredita que uma democracia forte não tem forças de segurança que sejam democráticas e fortes? Alguém acredita que uma democracia forte será forte se não respeitar todas as pessoas que trabalham no país independentemente do sítio onde nasceram?”, questionou a meio da descida no Chiado, expressando “o gosto por poder ter na campanha gente que vem das forças de segurança, pessoas que nasceram em Portugal e pessoas que vieram para Portugal ajudar a construir”..O Bloco que se associa a Catarina Martins não é o mesmo de há seis meses. Veem-se a espaços o Keffiyeh, o lenço da esperança de independência palestiniana, mas Gaza passou a estar mais subalterna nos discursos e agora é “o salário, a Saúde e uma lei que proteja os trabalhadores”, insistiu, a marcarem uma campanha que se insurge com o “extremismo da direita”. Por isso também, o PS, o voto útil e António José Seguro não entram nas conversas. Porque a convicção é de um posicionamento próprio.“António José Seguro tem uma carreira de construção de pontes à direita, coisa que fez questão de sublinhar em toda a candidatura presidencial. Não foi por acidente da história que António José Seguro até chegou a discutir um governo com Pedro Passos Coelho, apesar de todos os cortes que eram aplicados. Um dos ofícios centrais do principal magistrado do país é defender a Constituição. António José Seguro fez parte do consenso que atacou a Constituição em assuntos tão centrais como o salário e a pensão. Não faz parte do campo da esquerda, por isso não faz nenhum sentido que Catarina Martins pudesse desistir a favor de António José Seguro”, destacou ao DN Fabian Figueiredo, agora o representante parlamentar do Bloco de Esquerda, salientando a “felicidade” do partido por ter havido vontade da antiga coordenadora para assumir a corrida a Belém, convicto de que “milhares de pessoas do Bloco” e “muitas outras votarão pela primeira vez em Catarina Martins.”.Francisco Louçã foi destacada presença - desceu, entre os jovens, as ruas lisboetas, mas quis sempre que o foco estivesse na candidata. José Gusmão, Luís Fazenda e Joana Mortágua, ex-deputadas, acompanharam a arruada. José Manuel Pureza, o novo coordenador, reside em Coimbra e não marcou presença na comitiva, tal como Mariana Mortágua, a antiga líder do partido, que está a representar, justamente, a eurodeputada na Aliança Europeia de Esquerda, numa iniciativa de cidadania que propõe a suspensão total do acordo associativo entre a UE e Israel. Gaza, portanto, continua nas preocupações centrais do partido - deixou é o palco principal nas Presidenciais..Nas quatro ruas onde andou, no Carmo e Chiado, mostrou conhecer em profundidade a baixa lisboeta, espreitou e acenou a cada janela, habituada às campanhas e centrada em agarrar quem hoje pensa que o Bloco de Esquerda está condenado a um papel mais reduzido na sociedade. A Catarina Martins de 2015, que negociou a Geringonça, um acordo histórico entre partidos que não venceram legislativas para, juntos, fazerem um caminho à esquerda, é 11 anos depois a única mulher na corrida a Belém. Lembrou que “as mulheres têm sido mais desfavorecidas”, mas privilegiou a “união” e as “verdadeiras preocupações coletivas.” Ruma agora a Norte e, nascida no Porto, não espera mais concentração de votos regionais. “Sou do Porto, é verdade, mas conheço muito bem Lisboa e sou de todo o país. Sou a candidata que mais vezes reuniu com serviços públicos de todo o país. Vou a todo o lado e não vou protegida. Não vou em bolha. Tenho muito orgulho de conhecer este país e de me sentir confortável em todos os sítios de Portugal”, respondeu ao DN, identificando-se como uma cidadã comum..A Saúde e a “sabotagem”Foi essa imagem também que quis deixar quando, na manhã de quarta-feira, disse não querer visitar doentes ou condicionar os serviços médicos do Hospital Fernando da Fonseca. A Saúde não saiu de cena e a antiga atriz não largou o tema, reunindo com Carlos Sá, da administração do antigo Amadora-Sintra. Depois de uma hora de conversa, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda revelou as preocupações que lhe foram transmitidas. “Este hospital tem uma administração demissionária. E foi decisão do Governo que assim fosse e ainda não encontrou uma nova administração. Todos os dias os hospitais precisam de melhores condições para trabalhar, para atrair médicos e enfermeiros, mas há aqui problemas que também o Governo cria, fazendo com que os hospitais estejam em suspenso, o que é uma irresponsabilidade”, afirmou, rejeitando a ideia de Luís Montenegro de ser um “problema de perceções” o que se vive na Saúde e emergência médica, mas antes sim um “desrespeito pelas populações e profissionais de Saúde, que estão exaustos”. “A administração deste hospital sente o que muitas sentem, ou seja, que os investimentos que são prometidos não acontecem, que os problemas que não é só uma administração que pode resolver não são resolvidos”, referiu. Por isso mesmo, usou, com intenção, a palavra “sabotagem”, lamentando as motivações do primeiro-ministro. Ao invés, Catarina Martins vincou que “o acesso ao Sistema Nacional de Saúde é um direito, é uma questão democrática.” .A toada foi a mesma no repto para que a pessoa que venha a ocupar Belém não se limite a reunir à quinta-feira com o líder de Governo. “É preciso ter a coragem de chamar enfermeiros, médicos, a um debate nacional, para toda a gente ter acesso ao Serviço Nacional de Saúde”, declarou, quase em simultâneo às palavras de Jorge Pinto, do Livre, a vincar a defesa do SNS, mas em Faro. E quando Catarina Martins ouviu o DN a perguntar se o pacto que Seguro sugere na Saúde é curto, teve pronta resposta. “Um pacto nada diz. São precisas soluções concretas e é por isso que é também tão importante que na primeira volta se vote de acordo com a convicção. Porque se tiver força a ideia de que o Serviço Nacional de Saúde pode e deve ter equipas dedicadas em vez de viver de tarefeiros, sabemos a exigência que estamos a colocar em toda a democracia para resolver os problemas. É preciso ser concreto, evitar ambiguidades e procurar não fazer exatamente o que o Governo quer”, disse, aproveitando, na conclusão da reação, para atacar Cotrim de Figueiredo, que pediu ao primeiro-ministro o voto do PSD.No dia 18, Catarina Martins testará o seu perfil individual e se soma mais do que o próprio partido. Em 2024, nas Europeias, o partido elegeu-a com mais de 4%. Só que o Bloco que em 2015 tinha 19 deputados e mais de 10% de votação, passou a 125 mil votos e aos 1,99% nas Legislativas de maio de 2025. Resultados que, no entanto, não parecem desanimar a campanha - a comitiva terminou o dia aos pulos. Catarina foi abaixo, foi acima, quis dançar e esteve leve, ao som da música tocada e cantada por jovens empenhados nas causas do partido, demonstrando que, para já, está imune ao peso que outros querem colocar nesta campanha para o renascimento do Bloco. “Não escondo o que trago, mas estas eleições não são sobre partidos, mas sobre um país em que as pessoas trabalham horas demais por um salário curto, e essas pessoas precisam de ter esperança e comunidades solidárias”, disse, sem perspetivar futuros políticos, embora lembre: “Nunca deixei de lutar por salários e pela liberdade por inteiro. E isso vou continuar a fazer.”.Presidenciais: Catarina Martins responde com voto por "convicção" ao apelo de Seguro ao voto útil.Catarina Martins: "Eu e António José Seguro representamos campos políticos diferentes".Catarina Martins ouviu administração do hospital Fernando da Fonseca e criticou "sabotagem" de Montenegro