O Presidente da República, António José Seguro, sintetizou esta terça-feira (19 de maio) a realidade vivida em Gaza como um quotidiano em que o “modo de vida” é “fugir das bombas”, o “objetivo de vida” é “sobreviver com a família” e a “emoção de vida” é o “desespero”, durante a cerimónia de entrega do Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa, na Assembleia da República.Na cerimónia, António José Seguro destacou a crueldade vivida por famílias encurraladas em Gaza e as mortes de jornalistas em contexto de conflito, ao distinguir Rami Abou Jamous, repórter de guerra palestiniano, e Bragi Guðbrandsson, islandês defensor dos direitos da criança.No discurso, Seguro lembrou “o sonho de Walid, filho do jornalista Rami Abou Jamous, de que um dia impere a Justiça”. O Presidente referiu que o pai, “ao mesmo tempo que narra a crueldade a que a sua família, e muitas outras, encurraladas em Gaza, estão a ser sujeitas, cria um imaginário protetor para o seu filho de três anos”, citando uma passagem do diário do jornalista: “Desde o início da guerra, eu fiz-lhe acreditar que mísseis e bombas eram apenas fogo de artifício. Mas, ao aproximar-se dos quatro anos, ele começa a entender que esse ‘fogo de artifício’ pode ser perigoso e que os helicópteros não estão lá para lançar ajuda humanitária. Por isso, ele quis chamar a polícia: aqueles helicópteros não estavam a usar o fogo de artifício de forma correta, era para destruir casas. Walid está aos poucos a sair do mundo imaginário que criei para ele, para poupá-lo da realidade mortal que estamos vivendo”.Para o Presidente, “a realidade mortal de que fala Rami Abou Jamous” pode ser sintetizada assim: “Modo de vida: fugir das bombas; Objetivo de vida: sobreviver com a família; Estilo de vida: cada dia é um sobressalto; Emoção de vida: desespero; Espírito de vida: injustiça; Testemunho de vida: mortes; Partilha de vida: ser ouvido, gritar à consciência da humanidade”.António José Seguro salientou ainda o papel de Rami Abou Jamous como correspondente de guerra, distinguido pelo “contributo excecional na divulgação de relatos em primeira mão sobre a vida em zonas de conflito” e por evidenciar “as difíceis condições enfrentadas pelos jornalistas, nomeadamente em Gaza”.O chefe de Estado lembrou que “os jornalistas são também alvos dessa barbárie”.“Em Gaza e no Líbano, em particular”, acrescentou. Citando o Comité para a Proteção de Jornalistas, afirmou que, “no ano passado, dos 129 jornalistas que perderam a vida em todo o mundo enquanto exerciam o seu trabalho, quase metade foram mortos em Gaza”.Ainda recorrendo a dados da mesma organização, Seguro lembrou que “as Forças de Defesa de Israel foi a entidade governamental que matou mais jornalistas desde que o Comité começou a documentar os casos em 1992”. Já este ano, referiu, “16 dos 27 jornalistas mortos foram vítimas de ataques israelitas”, segundo a organização não-governamental Campanha Emblema de Imprensa, tendo a maioria das mortes ocorrido “no Médio Oriente, sobretudo no Líbano e em Gaza”.No início da intervenção, o chefe de Estado admitiu discursar com “um prazer dorido”, perante “a contradição brutal dos tempos que correm”: de um lado, “países e líderes políticos apostados na tragédia, a propagar o desprezo pelos direitos humanos”; do outro, “vozes que se agigantam e estremecem a indiferença”.O chefe de Estado valorizou ainda o papel dos jornalistas que, apesar de serem também alvos da violência, “não baixam a voz”. Estes profissionais, afirmou, procuram “relatar uma realidade distorcida pelas armas e pela propaganda”, através da “notícia da barbárie, da tragédia humana”, devolvendo à sociedade “o incómodo” e inquietando “a nossa humanidade”.Referindo-se em particular a Gaza, ao Líbano, à Ucrânia e ao Sudão, referiu que a assinatura de um tratado de paz "não significa o fim da guerra”, porque “os traumas continuam, em particular nas crianças”.Na mesma intervenção, o Presidente destacou o papel de Bragi Guðbrandsson, “reconhecido defensor dos direitos da criança e pioneiro do modelo Barnahus (Casa das Crianças)”, cujo trabalho tem contribuído para reforçar a proteção da infância e a resposta a casos de violência e abuso sexual.O Presidente citou Guðbrandsson, lembrando que as crianças "devem crescer no seio de suas famílias” e que, em momentos de crise, “as famílias devem receber apoio das autoridades públicas”, considerando que o acolhimento “uma exceção, uma solução temporária – o mais breve possível”.Para António José Seguro, a atribuição do Prémio Norte-Sul distingue “as vozes que cuidam dos mais frágeis e se insurgem contra a violência”, num tempo em que a guerra, a indiferença e a violação dos direitos humanos continuam a desafiar a comunidade internacional.