PSD pergunta se Centeno já não é o ministro das Finanças

Em causa está a injeção de 850 milhões de euros no Novo Banco. Os deputados questionaram como foi possível o primeiro-ministro, António Costa, não saber desta transferência, depois de ter prometido que esta não aconteceria antes de conhecida a auditoria.
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O PSD perguntou esta quarta-feira ao PS se, para o partido, Mário Centeno já não é o ministro das Finanças e "os portugueses ainda não o sabem", tendo os socialistas pedido justificações aos sociais-democratas pela "resolução desastrosa" do BES.

No debate de atualidade que decorreu esta quarta-feira no parlamento sobre "questões financeiras e Novo Banco" -- agendado hoje mesmo uma vez que PSD, BE e CDS-PP tinham declarações políticas sobre o tema -- a intervenção do deputado PS João Paulo Correia motivou um pedido de esclarecimento por parte do deputado do PSD Duarte Pacheco.

"Fez aqui uma intervenção muito interessante sobre a história, claramente crítica dos seus colegas que integraram a comissão de inquérito, mas a pergunta que tenho que colocar é muito simples: o senhor omitiu por completo a transferência dos 850 milhões de euros e o nome do doutor Mário Centeno. Será que, para o PS, o senhor ministro das Finanças já não o é de facto e os portugueses ainda não o sabem", questionou.

Na réplica, o socialista João Paulo Correia escusou-se a fazer qualquer comentário sobre Mário Centeno e manifestou apenas a esperança de que Duarte Pacheco "aproveitasse para responder à questão colocada".

"O PSD devia estar aqui a explicar porque é prometeu um banco bom e um banco mau e afinal o Novo Banco transformou-se, revelou-se num banco com graves prejuízos para o estado e para os contribuintes. Os senhores é que têm de dar essa explicação ao país", condenou.

Na intervenção, o socialista começou por reiterar a oposição ao aumento de remunerações e prémios dos gestores do Novo Banco, considerando que em vez de se "debater a espuma dos dias, era importante debater as razões deste empréstimo".

Para João Paulo Correia, quem devia dar explicações seria PSD e CDS-PP que disseram, então, que o "Novo Banco ia ser um banco bom", criticando "uma resolução desastrosa e às prestações", que considerou ser mais uma "pesada herança" deixada pelo Governo de direita.

Pelo Governo, quem esteve no debate não foi Mário Centeno, mas sim o secretário de Estado Adjunto e das Finanças, Ricardo Mourinho Félix, que começou por responder às bancadas da direita que a "história do BES é uma história antiga e não começou em 2014".

"O Governo dessa altura demorou três anos para fazer uma resolução. Esteve à espera dos banhos de 2014 para fazer a intervenção. Uma intervenção e uma resolução incompetentes, sem qualquer auditoria, que criou um banco mau e um banco péssimo", acusou.

Respondendo ao PSD e ao CDS, o governante questionou que se defendem mesmo que se "devia ter incumprido o contrato" em relação ao Novo Banco.

"Os senhores só defendem isso porque sabem que isso não aconteceria e porque sabem que o que estão a defender é inconsequente", acusou.

Já o PCP e o PEV, de acordo com o secretário de Estado, "discordam de qualquer injeção de capital público em instituições privadas, haja ou não haja auditorias".

"É uma posição de princípio. É uma posição coerente. Não concordo, mas respeito a coerência", disse, avisando que, nesse caso, "todos os prejuízos que viessem a existir seriam públicos".

O deputado comunista Duarte Alves assinalou uma "discrepância de critérios" por parte do Governo uma vez que há "burocracias, dificuldades, colocadas aos microempresários para poderem sobreviver" e "facilidades e benesses para o Novo Banco, pagos por todos os portugueses".

"Reafirmamos o que colocámos no Orçamento de 2020: que não seja entregue nem mais um cêntimo ao Novo Banco sem que se inicie o processo de recuperação do controlo público do banco, colocando-o ao serviço da economia e do país", defendeu o PCP.

Pelo PAN, André Silva considerou que a transferência para o Novo Banco, via Fundo de Resolução, demonstrou "uma conduta irresponsável e imoral" do Governo e de Centeno, apontando ainda ao PSD porque "seria bom" que o partido "explicasse a sua incoerência".

"Porque é que no orçamento inviabilizou a existência de uma auditoria prévia para as transferências superiores a 850 milhões de euros e agora vem dizer, pela voz de Rui Rio, que esta auditoria é necessária para que houvesse 'um rigoroso escrutínio' às razões que determinam estas transferências", desafiou.

Deputados do PSD, BE e CDS-PP mantêm dúvidas sobre falha na informação

PSD, BE e CDS-PP reiteraram esta quarta-feira dúvidas sobre como foi possível o primeiro-ministro não saber de uma injeção de 850 milhões de euros no Novo Banco, depois de ter prometido que esta não aconteceria antes de conhecida a auditoria.

No final de um debate de atualidade no parlamento pedido pelos três partidos, o vice-presidente da bancada do PSD Afonso Oliveira confessou mesmo "uma dúvida existencial" neste processo.

"Fica aqui a dúvida existencial, não compreendemos mesmo como foi possível. Tantas vezes que os senhores dizem que o assunto foi debatido no Governo, não compreendo como não houve conhecimento do primeiro-ministro", afirmou, dirigindo-se ao secretário de Estado Adjunto e das Finanças que representou o Governo no debate.

Na resposta, Ricardo Mourinho Félix apontou que a auditoria necessária para que se realizasse a transferência para o fundo da resolução era a "que está definida nos mecanismos de verificação".

"Não se confunda, ninguém deu 3,9 mil milhões de euros ao Novo Banco, o Estado empresta ao fundo de resolução, que injeta no Novo Banco e receberá ao longo do tempo contribuições do setor bancário para pagar empréstimos ao Estado com uma taxa de juro fixada em 2%, que já levou ao recebimento de juros por parte do Estado de 500 milhões de euros ao longo do tempo", salientou o governante.

A bota que o ministro não conseguiu descalçar, segundo o BE

Pelo BE, a deputada Mariana Mortágua insistiu que o parlamento continua sem uma resposta, por que razão foi feita uma injeção no Novo Banco sem a conclusão da auditoria.

"O senhor primeiro-ministro, que é chefe deste Governo, comprometeu-se na Assembleia da República duas vezes a ter na mão a auditoria antes de realizar a transferência e a auditoria a que se referia era uma auditoria específica determinada por lei, foi esta que o primeiro-ministro disse que queria conhecer", salientou.

"A injeção foi feita e a e auditoria não estava pronta, essa é a bota que nem o senhor ministro, hoje de manhã, nem o senhor secretário de Estado conseguiram descalçar", acrescentou.

Mariana Mortágua anunciou ainda que o BE irá entregar um diploma no parlamento para impedir não só o pagamento de bónus no Novo Banco, mas também a acumulação do direito a que esse pagamento seja feito no futuro, lembrando que este banco "sobrevive com dinheiro público".

Também a deputada do CDS-PP Cecília Meireles salientou que o partido compreende que os contratos assumidos pelo Estado "são para cumprir", mas defendeu que foi António Costa no parlamento "que disse que não ia cumprir o contrato até haver auditoria" e lançou um desafio a Mourinho Félix.

"Só tem duas alternativas: ou nos explica como o primeiro-ministro anda aqui a dizer coisas que ele sabe que não são possíveis, ou vai ali a São Bento e põe o lugar à disposição, já não volta para o Terreiro do Paço", disse, referindo-se à localização do Ministério das Finanças em Lisboa.

Num debate em que por várias vezes se regressou à resolução do Banco Espírito Santo (BES), em 2014, o deputado do PS Fernando Anastácio recuou ainda mais no tempo e afirmou que foi o ex-líder do CDS-PP Paulo Portas "quem pediu para que no consórcio dos submarinos estivesse o BES".

Na resposta, Cecília Meireles disse que essa informação era "mentira", dizendo que o BES entrou no processo de aquisição dos submarinos em 1998, quando o Governo era do PS.

Centeno admite falha de comunicação

O Expresso noticiou na quinta-feira que o Fundo de Resolução recebeu mais um empréstimo público no valor de 850 milhões de euros destinado à recapitalização do Novo Banco, horas depois de António Costa ter garantido no debate quinzena que não haveria mais ajudas até que os resultados da auditoria que está a ser feita ao Novo Banco fossem conhecidos.

No dia seguinte, o primeiro-ministro explicou que não foi informado pelo Ministério das Finanças do pagamento de 850 milhões de euros, tendo pedido desculpa ao Bloco de Esquerda pela informação errada transmitida no parlamento.