"Não há democracia sem combate à corrupção e entidades estruturantes como as Forças Armadas"

Presidente da República coloca Forças Armadas como "entidade estruturante" da democracia. Professores protestaram às margem das comemorações no Largo do Município

"Não há verdadeira democracia sem democratas", "sem condições económicas e sociais que lhe confiram legitimidade", "sem permanente combate às desigualdades à pobreza e à corrupção" e ​"sem atenção a entidades estruturantes como as Forças Armadas", disse hoje o Presidente da República.

Falando no Largo do Município, em Lisboa, nas comemorações do 5 de Outubro 1910 (Implantação da República), Marcelo Rebelo de Sousa disse - num discurso sem nenhuma referência explícita ao caso de Tancos - que "não há democracia sem Europa" e essa Europa deve ser a "do emprego", da "abertura", do "multiculturalismo", de uma "visão de médio e longo prazo".

"A Europa terá de demonstrar que quer um futuro muito diferente do de há 100 anos", disse - recordando o período do fim da I Guerra Mundial, a partir do qual ascenderiam com grande força no continente europeu forças xenófobas e racistas e regimes ditatoriais ou totalitários.

Recordando que já no último 25 de Abril fez alertas contra "tentações radicais, egoístas, chauvinistas e xenófobas", o Presidente da República pediu para Portugal "uma democracia cada vez mais forte". "Todos os dias se constrói ou destrói a democracia" e é preciso que "pelo voto" e "pela prática de cada dia", os políticos e os portugueses em geral ("nós, todos nós") se empenhem nisso.

Marcelo começou a sua intervenção dizendo que o 5 de Outubro e aquilo que representa é algo que "aprende com as lições do passado" e "não se resigna às omissões". .

Depois foi elencando, escolhendo datas de dez em dez anos desde 1918 até aos dias de hoje, factos históricos, nacionais e internacionais, que ou demonstraram as fragilidades da democracia ou, pelo contrário, mostraram como as ditaduras não são eternas. Salazar, por exemplo, foi retratado pelo Presidente da República como alguém que liderou um "regime anti democrata, anti parlamentar, anti liberal e anti partidário". E referindo-se a 1968 - quando começou a transição no Estado Novo de Salazar para Marcelo Caetano - acrescentou que "os regimes de poder pessoal são incompatíveis com a renovação dos mandatos", sendo que "logo ali se descortinava o fim do fim da ditadura". "Ou seja, por contraposição, o sentido de que a democracia é tudo menos o culto e a convicção da perenidade do poder pessoal", diria.

À margem das comemorações oficiais do dia da Implantação da República, meia centena de professores mobilizados pela Fenprof - com a presença do próprio líder do sindicato, Mário Nogueira - mais de meia centena de professores concentraram-se, em mais uma ação de exigência de contagem total do seu tempo de carreira congelado.

Os manifestantes juntaram-se atrás do pelourinho central da praça, depois das 'baias' de segurança, e começaram a gritar palavras de ordem mal terminaram os discursos do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

"O tempo é para contar, não é para apagar", ouviu-se.

Os professores fizeram-se acompanhar de cartazes com a mensagem "A República respeita os professores, o Governo não".

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