Marcelo "preventivo" e "pedagógico"

Cada partido tirou da mensagem de Ano Novo do Presidente da República o que mais lhe conveio, como de costume. Mas quem olha de fora diz que o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa "foi preventivo" e "pedagógico" em ano de eleições e de potencial conflito político e social.

A mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa é "muito rica, com recados e apelos" disparados para vários lados, diz José Ribeiro e Castro, que destaca ainda a "afirmação de valores" que deve pautar a vida nacional. O antigo líder do CDS considera também que o apelo ao voto dos portugueses em véspera de atos eleitorais é muito importante.

"Como tenho defendido, há um problema sério com o afastamento dos cidadãos em relação à política, e a reforma do sistema podia ser uma chicotada psicológica para mudar as coisas. O Presidente não falou nisso, mas dada a empatia que tem com os cidadãos, talvez o seu apelo seja mais ouvido do que quando foi feito por outros presidentes", diz Ribeiro e Castro. "Foi um discurso pedagógico", resume.

Ribeiro e Castro salienta também a nota que Marcelo quis deixar sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, que considerou "enfraquecer" a Europa. Neste ponto, o antigo líder centrista diz esperar que não venha a acontecer e que os britânicos ainda revertam esta decisão. "Não tenho dúvida de que no Presidente da República baila o mesmo sentimento, mas não o pode dizer."

"Dada a empatia que tem com os cidadãos, talvez o seu apelo [para que votem] seja mais ouvido do que quando foi feito por outros presidentes."

O politólogo António Costa Pinto afirma que a principal mensagem de Ano Novo de Marcelo foi a de apelo à classe política, em ano de eleições, para que os seus comportamentos sejam mais transparentes e que se evitem promessas eleitorais que não se podem cumprir. "Assinalando que o contrário dá uma maior descrença da classe política e leva ao crescimento dos partidos populistas."

Mas admite que "este tipo de mensagem só pode ser feita" pelo inquilino de Belém, porque "não governa nem vai fazer campanha eleitoral". Na sua opinião, o discurso de Marcelo foi sobretudo "preventivo", na medida em que os dilemas dos portugueses em 2019 serão o de se confrontarem com os mesmos partidos, apesar das dúvidas do que acontecerá à direita do espetro político.

"Este tipo de mensagem só pode ser feita pelo Presidente porque não governa nem vai fazer campanha eleitoral."

O apelo à participação eleitoral dos portugueses é também considerado importante por António Costa Pinto, já que "sem grandes elementos de polarização a participação tende a não ser muito grande". E as cautelas sobre a conflitualidade social justificam-se, diz o politólogo, pois as greves e os protestos têm agora até o apoio da direita e esse "efeito de tenaz" pode potenciá-las durante este ano.

Governo e partidos sintonizados com Marcelo

E como sempre, os partidos tiraram do discurso do Presidente o melhor corte para o seu fato. O governo apressou-se a dizer que se revia nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, que entre recados nunca fez uma crítica expressa a nenhum partido ou ao executivo. "Temos assistido, efetivamente, a esse caminho para o populismo e, às vezes, para situações ou de xenofobia ou de impulsos de extrema-direita e de radicalismos perigosos nalgumas das nossas democracias, até na própria Europa", disse ontem o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques.

Isto porque o Presidente da República apelou ao voto nos três atos eleitorais de 2019 e considerou fundamental que haja bom senso nessas campanhas, advertindo que radicalismos, arrogâncias e promessas impossíveis destroem a democracia.

O líder parlamentar do PS e presidente do partido até se manifestou muito agradado com a mensagem de Marcelo. No Facebook, Carlos César escreveu que a comunicação seguiu na linha da recente mensagem de Natal do primeiro-ministro. "Embora sem o encargo mais difícil de governar, Marcelo Rebelo de Sousa, na sua alocução, corroborou as dominantes do discurso de António Costa que combinam o sentido de responsabilidade com o inconformismo que deve pautar uma governação exigente."

No PSD também houve sintonia com o Chefe do Estado. André Coelho Lima, vogal da comissão política do partido, enfatizou as palavras de Marcelo sobre a "tolerância" na ação política, sobretudo em ano eleitoral. O que disse legitimar a estratégia e a postura política de Rui Rio de estar disponível para dialogar com o governo, mesmo que sujeito a fortes críticas internas.

"Embora sem o encargo mais difícil de governar, Marcelo Rebelo de Sousa, na sua alocução, corroborou as dominantes do discurso de António Costa que combinam o sentido de responsabilidade com o inconformismo que deve pautar uma governação exigente."

"O PSD tem resistido e vai resistir a dizer mal de tudo, a prometer tudo e mais alguma coisa e a entrar no discurso fácil e populista." O dirigente social-democrata fazia apelo à frase de Marcelo sobre o modo como os partidos se devem comportar: "Debatam tudo, com liberdade, mas não criem feridas desnecessárias e complicadas de sarar."

André Coelho Lima frisou esse apelo à "tolerância política", que disse ir ao encontro do discurso do líder do PSD. "É muito a marca de Rui Rio, que até se tem exposto a algumas críticas", disse na sede nacional do partido. Lembrando também o apelo do Presidente ao voto dos portugueses. "O PSD tem sabido ser oposição séria e responsável e é a postura que os portugueses esperam de um partido da oposição", garantiu.

"O PSD tem sabido ser oposição séria e responsável e é a postura que os portugueses esperam de um partido da oposição."

A mesma linha foi seguida pelos centristas. "O Presidente da República apela, com razão, a 'escolhas exigentes' nestes ciclos eleitorais, e o CDS tem provas dadas pela positiva", comentou o cabeça-de-lista do CDS às europeias, Nuno Melo.

Os comunistas centraram-se no apelo de Marcelo por maior justiça social. "O senhor Presidente da República referiu a questão da justiça social. Nós queremos dizer que não pode haver justiça social se não houver uma melhor distribuição da riqueza, melhores salários e reformas", sustentou Dias Coelho, membro da comissão política do PCP. Este dirigente garantiu que o seu partido teve, ao longo de 2018, "um papel decisivo na reposição e na conquista de diretos".

Já o Bloco de Esquerda, também um dos partidos que apoiam o governo no Parlamento, centrou-se nos avisos de Marcelo para os perigos da extrema-direita, embora demarcando-se das soluções avançadas pelo Presidente. "O Presidente da República chamou a atenção para a necessidade de um combate largo contra a extrema-direita, que pretende destruir o regime democrático. Fazer esse combate largo fundado no Estado de direito, no pluralismo político e na cidadania é um ponto importantíssimo nos dias de hoje - afinal de contas é o espelho dos bolsonaros [uma referência ao novo presidente do Brasil] que se verte sobre esse mundo de conflitos", salientou Luís Fazenda, um dia antes de Marcelo se encontrar com o novo presidente brasileiro.

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