"Salazar não tinha a mais pequena intenção de largar o poder"

Entrevista a Filipe Ribeiro de Meneses, autor de Salazar - Biografia Política, sobre a queda no Forte de Santo António do Estoril a 3 de agosto de 1968, faz agora 50 anos. O historiador é professor na Maynooth University (Universidade Nacional da Irlanda) em Dublim.

Queda da cadeira ou queda pura e simples? Parece um pormenor, mas qual é para si, como biógrafo de Salazar, a hipótese mais provável do que aconteceu a 3 de agosto de 1968 no Forte de Santo António do Estoril?

Não vejo razão para duvidar da versão da queda da cadeira, nem me parece especialmente relevante. Paulo Otero, que recolheu vários testemunhos, sugere que talvez tenha havido mais do que uma única queda. O que interessa, porém, é que esta data marca o princípio do fim da carreira política de Salazar.

Salazar nunca terá perdido a consciência e por isso tardou o socorro?

Julgo que sim: houve naturalmente alguma consternação depois da queda, mas só alguns dias mais tarde foi Salazar visto pelo seu médico, e isso em função de uma consulta previamente marcada - e o Dr. Eduardo Coelho nada notou de anormal.

Demorou semanas até a intervenção cirúrgica decisiva. Nesse intervalo, os restantes governantes, nomeadamente o Presidente da República Américo Tomás, estavam a par da gravidade do sucedido com o Presidente do Conselho?

Não, porque nem ele o estava. Durante este período tomaram posse vários novos ministros e, um mês depois da queda, a 3 de setembro, reuniu-se o Conselho de Ministros. Segundo Franco Nogueira, Salazar estava claramente afetado nessa reunião, durante a qual pouco falou. Esta deterioração é aliás bem visível no diário de Salazar - a escrita deteriorou-se muito nestes dias de setembro. Mas ninguém ousou sugerir que o ditador precisava de cuidados médicos.

Salazar, com alguns momentos de menor lucidez a seguir ao acidente, tinha noção de que teria de entregar a governação?

Não estou a par de que tenha tido momentos de menor lucidez no mês que se seguiu à queda; sofria sim de dores de cabeça, que se foram agravando até D. Maria, contra as instruções de Salazar, ter chamado o médico. O porquê dessas instruções é um mistério - mas entendo que se leia nelas o temor do fim.

De quem é a escolha de Marcelo Caetano como sucessor? Desagradou a Salazar?

A escolha foi do Presidente da República, o Almirante Américo Tomás. Só a ele, de acordo com a Constituição de 1933, cabia tomar essa decisão; fê-lo depois de ouvir o Conselho de Estado e dezenas de outras personalidades. Não sabemos o que dela pensou Salazar, ou até que ponto dela foi informado (e quando) e a compreendeu; de qualquer forma tinha uma excelente opinião de Caetano, várias vezes apontado como seu sucessor natural e, por isso mesmo, mantido à distância por Salazar. Lembra Diogo Freitas do Amaral nas suas Memórias Políticas que quando Caetano se demitiu do cargo de Reitor da Universidade de Lisboa, já na década de 60, Salazar pediu-lhe que não se afastasse definitivamente da vida pública.

A célebre entrevista ao L'Aurore, em que Salazar supostamente ainda acreditava governar, seria possível sem autorização de Marcelo Caetano?

Sabemos apenas que D. Maria a autorizou. A notícia de que Salazar estava diminuído fortalecia Caetano politicamente, mas seguramente havia outras maneiras de fazer passar essa mensagem sem desacreditar todo o regime, que foi o resultado dessa entrevista e de uma reportagem da Time, em dezembro de 1969.

Salazar morre em julho de 1970. Além de D. Maria, quem eram os seus próximos?

Durante a sua doença Salazar foi visitado regularmente pelo seu médico, o Dr. Eduardo Coelho e por Maria da Conceição de Melo Rita, melhor conhecida por "Micas". Infelizmente os testemunhos dos dois sobre o estado de saúde de Salazar não coincidem. Também Américo Tomás o visitou várias vezes.

Um exercício de especulação: imagina Salazar, se se tivesse mantido saudável, a um dia passar o poder a um sucessor? Tinha dado sinais de querer um herdeiro político?

Salazar teve muitíssimas chances ao longo da sua carreira de tornar claro quem seria o seu sucessor. Sempre recusou fazê-lo, escudando-se com a Constituição: se ele servia única e exclusivamente por indicação do Chefe de Estado, como poderia nomear um sucessor? Um passo que poderia ter tomado, claro, era tornar-se ele próprio Presidente da República, escolhendo em seguida um novo Presidente do Conselho. Nunca o fez. E quando criou o cargo de Ministro da Presidência - cargo ocupado por, entre outros, Marcelo Caetano - sufocou o detentor dessa pasta com trabalho administrativo, privando-o de qualquer iniciativa política. Salazar não tinha a mais pequena intenção de largar o poder.

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