PSD: listas aprovadas com 74%. "Razoavelmente pacífico", diz Rio

Listas para deputados aprovadas com votação de braço no ar. O ex-líder parlamentar, Hugo Soares, ficou de fora e deixou avisos para o futuro. Presidente do partido recusa que tenha havido "saneamentos selvagens".

A história serviu a Rui Rio, esta quarta-feira de madrugada, para o presidente do PSD defender que o processo de aprovação das listas de candidatos a deputados do partido até foi "razoavelmente pacífico", recusando que tenha havido "saneamentos selvagens". E a história também serviu a Rio para defender que as sondagens valem o que valem porque o que conta é o dia das eleições.

Falando aos jornalistas, no final da reunião do Conselho Nacional do PSD, que decorreu em Guimarães, entre as 22.00 de terça-feira e as 3.00 de hoje, o presidente do PSD disse já ter visto processos de aprovação de listas "muito mais turbulentos" dentro do partido. E Rio saudou a aprovação das listas.

"É um bom resultado. Já vi muitos processos destes ao longo da minha vida política: em 1983, em 1985, foram processos muito mais turbulentos que este. Os únicos que não foram é quando o PSD está no poder e o presidente do PSD é primeiro-ministro", justificou-se. "Para quando o PSD está na oposição, até foi razoavelmente pacífico", atirou.

"É um bom resultado. Já vi muitos processos destes ao longo da minha vida política: em 1983, em 1985, foram processos muito mais turbulentos que este. Os únicos que não foram é quando o PSD está no poder."

Este processo "razoavelmente pacífico" traduziu-se em 80 votos a favor, 18 contra e dez abstenções do Conselho Nacional do PSD, numa votação feita de braço no ar, para as listas de candidatos de deputados à Assembleia da República, e uma intervenção muito crítica, "olhos nos olhos", de Hugo Soares.

O antigo líder parlamentar, excluído das listas sociais-democratas com o veto assumido de Rui Rio, posicionou-se para o futuro, afirmando que este afastamento "é uma medalha de futuro".

Direção contabilizou abstenções a favor

Do total dos votos expressos (108), 74% dos conselheiros votaram favoravelmente, de braço no ar, numa votação feita globalmente das listas para os 22 círculos eleitorais. Em 2015, sob o mandato de Pedro Passos Coelho, as referidas listas foram aprovadas por unanimidade.

A direção contabilizou a aprovação das listas na casa dos 82%, invocando os estatutos do partido, segundo os quais as abstenções não contam para a contagem da maioria dos votos.

"É uma vitória para o PSD termos conseguido fazer um equilíbrio onde as pessoas se reveem: não há saneamentos selvagens, não são privilegiados os amigos. Há o equilíbrio possível e esse equilíbrio é sempre muito difícil quando se trata de pessoas", afirmou.

Rui Rio não reagiu a Hugo Soares

Rui Rio recusou responder à intervenção feita na reunião pelo ex-líder parlamentar Hugo Soares, que o acusou de não gostar do PSD. "Não tive reação nenhuma, só falei no ponto do programa, quando foi das listas não falei, se não respondi lá dentro, não ia responder cá fora", disse.

"Saiu uma sondagem a dois meses e tal das eleições em 2015 em que PSD e CDS tinham os piores resultados de sempre e depois ganharam as eleições"

Questionado sobre uma sondagem da TVI que dá 20% ao PSD e 35% ao PS, o líder social-democrata voltou à história - agora bem mais próxima - para desvalorizar estes estudos de opinião. "Saiu uma sondagem a dois meses e tal das eleições em 2015 em que PSD e CDS tinham os piores resultados de sempre e depois ganharam as eleições", apontou.

Além das listas, o Conselho Nacional do PSD aprovou, com 17 abstenções, o programa eleitoral do partido às legislativas de 6 de outubro.

Nas listas aprovadas esta madrugada dos 89 deputados eleitos pelo PSD em 2015, 49 estão fora das listas para as legislativas, o que corresponde a 55% do total, nas contas da agência Lusa.

"É uma medalha que carrego"

O nome retirado das listas que mais polémica gerou foi o do ex-líder parlamentar Hugo Soares, o "único nome vetado" pela direção nacional, decisão confirmada pelo secretário-geral do partido, José Silvano, antes do início do Conselho Nacional.

"É uma medalha que carrego com orgulho e de futuro", afirmou à saída o ainda deputado. Hugo Soares abandonou a reunião antes do final dos trabalhos por não ter direito de voto.

Segundo uma das fontes do partido, citada pela Lusa, no seu discurso na reunião, o deputado começou por acusar Rui Rio de "não gostar" do partido por este não "respeitar a militância nem as estruturas do partido e as suas escolhas".

Hugo Soares afirmou ter sabido pela comunicação social que tinha sido excluído das listas por veto (Hugo Sares foi a indicação da concelhia de Braga para a lista do distrito à Assembleia da Republica).

A Rui Rio terá pedido que "a raiva" que tem ao PSD a coloque "contra o PS" porque, disse, "a fazer jus às suas palavras perde sondagens, mas ganha eleições". O discurso do deputado terminou com a afirmação que "também está" no combate ao PS.

José Manuel Bolieiro é o novo 'vice'

Da ordem de trabalhos constava ainda a eleição do vice-presidente do partido, tendo sido retificada a eleição de José Manuel Bolieiro como novo 'vice' do partido.

Numa discussão que se prolongou até cerca das 3.00 de quarta-feira, os conselheiros acabaram por aprovar as propostas da Direção Nacional, ainda que com críticas.

Além de Hugo Soares, o histórico social-democrata e ex-deputado Jorge Neto criticou a forma como as referidas listas foram elaboradas, considerando que houve "uma limpeza" e não uma "verdadeira renovação" de candidatos a deputados.

Jorge Neto pôs mesmo em causa "a qualidade" do grupo parlamentar que resultar das eleições de 6 de outubro, temendo que a forma como foram elaboradas as listas, com recurso "a amiguismos e fidelidade a certas pessoas" em vez de guiadas pela meritocracia, venha a ter reflexos nos resultados eleitorais.

Já o ex-líder do PSD Luís Filipe Menezes defendeu que o atual patamar do partido "não foi construído" pelo presidente Rui Rio, responsabilizando quem fez "o discurso do diabo" sobre a governação socialista.

Com o discurso do diabo, sondagens eram piores

Na tarde de ontem, o seu filho, Luís Menezes, tinha criticado os "critérios estalinistas" da direção de Rio, mas o antigo presidente da Câmara de Gaia saiu em defesa do líder. "Não foi o dr. Rui Rio quem construiu este patamar negativo, íngreme, de que partimos para começar esta corrida", afirmou Menezes, em declarações aos jornalistas à saída do Conselho Nacional do PSD, depois de ter pedido dentro da reunião "um resultado honroso" para as legislativas de 6 de outubro.

Sem nunca referir o nome do anterior líder do PSD, Pedro Passos Coelho, Menezes defendeu que os resultados do partido seriam ainda mais baixos do que as sondagens apontam "se o PSD tivesse continuado com o discurso do diabo".

"Quem lhe diz que se tivéssemos continuado com o discurso de tentar adivinhar a desgraça decorrente da governação socialista não teríamos tido nas europeias ainda um pior resultado?", questionou.

Luís Filipe Menezes defendeu que "o povo nunca gosta de alguém que preveja a desgraça", dizendo ter aconselhado Rui Rio a "pensar positivo" até às eleições de 06 de outubro e destacar a "história de reformismo que o PS nunca teve".

Demissão depende do resultado do... PS

Questionado se Rio se deve demitir, caso se confirmem os valores apontados para o partido nas sondagens, o antigo líder social-democrata considerou que tal não deve depender exclusivamente do resultado do PSD, dizendo ser "muito diferente" o PS ter 35% ou valores acima dos 40%.

"O pior ou o melhor tem a ver com as circunstâncias de que se parte. Nunca nenhum líder do partido enfrentou um PS forte e no poder, com apenas umas dezenas de autarquias rurais do seu lado", frisou.

Sobre as críticas a Rio na elaboração das listas de candidatos a deputados, Menezes admitiu que podia ter feito algo diferente, mas concordou que "às vezes" a lealdade pode ser mais importante do que a competência. "Temos que unir quem está do nosso lado, não se pode unir quem anda a fazer-nos diariamente a vida negra e a fazer com que a nossa posição seja o mais frágil possível", afirmou.

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