Portas: "É aterrador a mera ideia de que não haja acordo sobre o Brexit"

A segurança da Europa está em risco se a União Europeia e o Reino Unido não se entenderem sobre o Brexit, disse o ex-lider centrista. "Aterrador" foi mesmo o termo usado por Portas na noite de sábado, no jantar-debate na Escola de Quadros do CDS.

Na plateia os 102 alunos da Escola de Quadros e a cinco dias de se saber se há acordo entre a União Europeia e o Reino Unido para o Brexit. Paulo Portas, que participou no jantar-debate, usou o termo "aterrador" ao colocar a hipótese de não haver entendimento. E a primeira razão que invocou foi a da segurança da Europa.

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros lembrou que na Europa só há duas potências nucleares, a França e o Reino Unido e com a saída deste último aumenta a fragilidade europeia no que diz respeito à defesa. Numa sequência de gráficos, mostrou a disparidade de investimento na Defesa feita pelos Estados Unidos (610 biliões de dólares) e o exíguo investimento europeu, ultrapassado por países como a China, Rússia, Arábia Saudita e Índia.

"Se há coisa de que os americanos nunca abdicarão é da prevalência do dólar e do seu armamento, só assim são uma potencia no mundo", assegurou Portas. Bastaria a questão da segurança, sublinhou, "para haver acordo" entre a UE e o Reino Unido, defendeu. "É um bocadinho aterrador a mera ideia de que não haja acordo sobre o Brexit".

"E, ao contrário do que pensam os fundamentalistas de um lado e do outro, o continente precisa do Reino Unido e o Reino Unido precisa do continente", advogou

À chegada ao jantar no hotel de Peniche onde decorre a Escola de Quadros, Portas tinha prometido não falar da semana de "alto risco" e "stressante" para a Europa. Uma semana de eleições na Baviera, Alemanha, termina o prazo para o envio dos orçamentos dos países do euro e o fim do prazo oficial para as negociações do Brexit. Mas Portas acabou mesmo a falar porque os alunos assim o obrigaram na hora das perguntas.

Antes tinha preferido dar uma aula sobre os grandes problemas com que a Europa se confronta, entre os quais o dos fluxos migratórios. Elogiou a política de acolhimento da Alemanha e da chanceler Merkel, que em 2015, acolheu 700 mil refugiados, "sem medir todas a consequências", quando há sete ou oito países da UE, todos a Leste, que não chegaram a receber mais de 200. "Uma vergonha para a Europa", frisou.

"E, ao contrário do que pensam os fundamentalistas de um lado e do outro, o continente precisa do Reino Unido e o Reino Unido precisa do continente"

Em pleno inverno demográfico, em que o envelhecimento da população é uma realidade, "a Europa não deve inclinar-se para a imigração zero". São duas as opções, na sua opinião, "ou escolher a imigração que quer ou então acabará por ser escolhido pela imigração que quer e não quer".

Portas considerou que por ser "politicamente incorreto" a Europa não assume que o que está em causa nos problemas da imigração é a questão do "islão". Por isso, sublinhou, "a Europa não é uma pizza de valores. Os imigrantes devem aceitar os valores europeus. Na Europa há direitos adquiridos, não se escondem as mulheres, não se perseguem pessoas pela sua orientação...". E acrescentou: "Há coisas que caracterizam a Europa e isso tem de ser aceite e se não é aceite é melhor não virem".

Sem uma única palavra sobre política nacional, o que é a sua prática desde que saiu do governo, Paulo Portas manteve o registo nos grandes problemas da Europa na era da economia digital, ou 4.0, perante os Estados Unidos e a China. Num écran voltou a dar os exemplos capazes de provar que os europeus perderam muita competitividade perante os dois gigantes, as bandeiras das grandes empresas da tal economia digital eram todas dos EUA e da China: Google, Uber, Facebook, Airbnb, Aplle, Amazon, Skipe e Netflix.

"A Europa não é uma pizza de valores. Os imigrantes devem aceitar os valores europeus"

"Isto preocupa-me bastante", disse. "A Europa fala com grande arrogância moral sobre o modelo humano, mas investe muito menos em pesquisa e investigação que os americanos. O setor americano investe muito mais em investigação comparado com o europeu", acrescentou.

"Os EUA estão mais preparados para a competição com a China, porque a sua economia é muito mais flexível do que a europeia. Os americanos investem muito mais em pesquisa e investimento. Americanos são mais flexíveis, mais financiamento, menos dependentes da banca, e lideram a evolução tecnológica".

Sobre as redes sociais - que começaram por colonizar o jornalismo clássico, a domesticar os partidos políticos e transformar as instituições - deixou um apelo aos jovens que o ouviram: "usem as redes sociais, mas não deixem de proteger a vossa independência, para pensar pela vossa cabeça".

A líder do CDS encerra este domingo a Escola de Quadros, em véspera da entrega do Orçamento do Estado para 2019 no Parlamento. Assunção Cristas deve trazer a Peniche muitas das propostas que já foi defendendo para o país no próximo ano.

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