"Não vivemos num mar de rosas." Mas Costa só teve rosas para mostrar

O secretário-geral do PS foi fazer o elogio da sua própria governação aos deputados do partido. Faltaram críticas à oposição de direita, a esquerda esteve ausente do discurso e os problemas foram admitidos, mas nunca enunciados.

António Costa contou esta terça-feira, nas jornadas parlamentares do PS, em Viseu, que foi nesta cidade que percebeu em 2015 que ia perder as eleições legislativas. Porque aquilo que os socialistas propunham era um mundo tão perfeito que não havia quem acreditasse.

"Eu percebi que ia perder as eleições aqui numa drogaria de uma rua no centro de Viseu, quando falei com a senhora da drogaria, que me explicou que estava de acordo com tudo aquilo que nós dizíamos. Achava que era justo o que dizíamos, achava que era tão sério que ia cumprir aquilo que tinha prometido, e esse ia ser o problema porque, cumprindo o que íamos cumprir, nós não íamos ser capazes de consolidar as contas públicas e íamos voltar a colocar o país em risco", relatou António Costa.

Daqui o secretário-geral socialista partiu para o elogio rasgadíssimo em causa própria, da sua governação. "Nós prometemos e nós cumprimos", afirmou Costa. "Podem agora desvalorizar aquilo que fizemos, como se na altura achassem que era fácil."

Não sobrou tempo para mais: nem para agradecer aos parceiros parlamentares o apoio ao longo da legislatura (depois de Carlos César ter passado o encontro de dois dias a zurzir na geringonça, sobretudo no BE), nem para atacar a oposição atual de sociais-democratas e centristas. E as críticas feitas ao PSD foram feitas no tempo verbal passado, dirigidas a Passos Coelho, quando o seu antecessor "andava de iPad na mão" a tentar mostrar que "o Diabo vinha aí".

António Costa levou à letra o mote das jornadas socialistas, de balanço da legislatura, admitindo que que ainda há muitos problemas no país: "Quando dizem que há muitos problemas no país - claro que há. Não temos a inconsciência de achar que vivemos num mar de rosas", apontou. Mas a partir desta confissão só teve rosas para mostrar aos deputados.

Esta afirmação sustentou a defesa do documento que apresentou para as legislativas de 2015, a Agenda para a Década, para defender que esse trabalho vai a meio. "Foi por sabermos que a resolução dos problemas requer uma solução a longo prazo", que estabeleceram essa agenda para dez anos. "Por isso", aquilo que hoje se passa em vários setores, são "problemas" que não surpreendem os socialistas.

Já na parte final, o próprio Costa faria a síntese de uma intervenção de 34 minutos, mantendo o registo do auto-elogio. "Não nos limitámos a gerir presente, estivemos sempre também a preparar o futuro. Por isso um Estado que assegura que Portugal é 3º país mais seguro do mundo; um Estado em que as pendências judiciais se reduzem em 35%; um Estado que devolve a confiança e cria condições económicas para voltarmos a ter um saldo migratório positivo; um Estado que é um dos quatro países do mundo com políticas mais amigas da família; um Estado que investe na requalificação dos seus jovens e dos seus adultos; que aumenta significativamente o investimento em investigação e desenvolvimento; um Estado que dá prioridade no combate às alterações climáticas; e um Estado que assegura maior sustentabilidade no futuro à sua segurança social; não é um Estado que esteja a olhar só para os dias que correm, é um Estado focado no futuro de Portugal e dos portugueses."

Com as eleições no horizonte, António Costa lá disse que os socialistas têm "o dever democrático" de serem "humildes" e "nunca ignorar que há muitos problemas que continuam a necessitar" do PS. "Temos de ter o sentido de responsabilidade de perceber que o voto de confiança das europeias não foi um cheque em branco, mas foi a pesada responsabilidade de conseguirmos ainda fazer agora mais e melhor do que fizemos no passado."

Depois deste brevíssimo assomo de humildade, Costa voltou a deixar uma certeza elogiosa: "É precisamente porque há mais e melhor para fazer que nós estamos cá, porque temos orgulho no que fizemos, mas muita determinação, muita ambição, muita vontade de dar continuidade e estabilidade para podermos cumprir os objetivos de uma agenda com que nos apresentámos para a década." Sobraram aplausos de contentamento.

Exclusivos