Premium José Silvano: "Rio não faz milagres. Em guerrilha interna, PSD não pode ter resultado positivo"

Na primeira entrevista depois do caso polémico das presenças, José Silvano garante que não ia manchar o seu nome por supostos 138 euros de ajudas de custo. Admite que o seu caso faz parte da "guerrilha interna" que também tenta "manchar o caráter" de Rui Rio. E adverte que é preciso união ou o PSD corre o risco de deixar de ser um partido de poder.

Depois da polémica sobre a marcação de duas presenças indevidas em plenário, José Silvano diz que é tempo de o Parlamento refletir se um líder partidário poderá ser deputado. Afirma que o PSD anda envolto em guerras internas que só prejudicam o partido. Mas garante que, se a oposição interna a Rui Rio parar, o PSD ainda pode ganhar as próximas eleições legislativas.

Por que motivo não admitiu quando saiu a notícia sobre o seu caso que partilhava a sua password com colegas de bancada?
A pergunta que me foi feita era se eu tinha pedido a alguém para me marcar uma presença no plenário da AR. A resposta era simples: não! Foi através dessa pergunta que fiquei a saber que havia um registo de presença em dois plenários onde eu não tinha estado. Quando temos a consciência limpa não agimos com calculismo, nem preparamos respostas para justificar os atos do dia-a-dia. Ou seja, no imediato, nem me lembrei do que podia ter sucedido: alguém ter acedido ao meu computador e, dessa forma, ter também registado a minha presença, para lá da consulta que foi efetivamente fazer.

E, quando rejeitou em conferência de imprensa que tivesse pedido para registarem a sua presença no plenário e apelou a uma investigação da PGR, não calculava que pudesse ter sido um desses deputados a fazê-lo?
Não se esqueça de um ponto fundamental. Eu não recebi nem um euro por ter sido dado como presente nessas duas reuniões, porque já tinha participado em reuniões parlamentares que me conferiam o direito a receber a respetiva ajuda de custo referente a esses dois dias. Mais: a minha colega deputada também tinha estado nessas reuniões, pelo que também sabia que eu nada ganharia com o registo que fez. Ainda mais: num dos dias ela entrou mais vezes com a minha password, o que mais prova que a intenção era de consulta e não de marcar presença, que é registada apenas da primeira vez.

Mas não respondeu à pergunta...
Mesmo que fosse um destes deputados a marcar inadvertidamente, ou melhor, indiretamente, a presença - como veio a constatar-se -, era preciso que ficasse claro que a intenção não era registar-me e que eu não tinha pedido esse registo. Ficou demonstrado, com as declarações da minha colega deputada Emília Cerqueira, que assim foi.

Compreende que a deputada Emília Cerqueira tenha demorado tanto tempo a assumir que o registou "inadvertidamente"?
Para lá dela ter estado ausente no início da polémica e o facto de ninguém ter agido com maldade, nem de forma articulada, fez com que não lhe tivesse passado pela cabeça que, com um simples ato de trabalho, estaria a criar um enorme escândalo mediático. A dada altura, e com a minha conferência de imprensa, o assunto tinha de ser clarificado, por mais penoso que pudesse ser do ponto de vista da exposição pessoal. É humano! Pelo menos, para quem não estiver de má-fé.

Há uma prática de partilha de passwords na bancada do PSD? As restantes bancadas vieram dizer que não têm essa prática, mesmo para partilhar documentos.
Se dizem, é porque é verdade.

Já sob polémica, porque decidiu assinar a presença na comissão de Transparência e ir embora? Não aumentou o potencial de críticas internas e externas?
Sobre esta questão pronunciou-se o próprio presidente da Assembleia da República, afirmando que era uma prática normal e permitida. Alias, é assim desde sempre. Ele próprio foi líder partidário. Acha que os líderes e os dirigentes partidários que têm funções executivas estão no plenário com grande assiduidade? Serei eu diferente? Chegou talvez a hora de o Parlamento refletir se um líder partidário pode ser deputado, já que é óbvio que tem dois full-times. Não olhem apenas para mim.

Esta denúncia do seu caso partiu da sua bancada? E se sim, com que intuito?
Tudo indica que este ato tem a marca de um colega meu de bancada, para efeitos de guerrilha interna. Mas estamos apenas no domínio da leitura política do sucedido. Faltam as provas inequívocas.

Este caso não o fragiliza do ponto de vista político perante o partido? Não admitiu apresentar a demissão do cargo de secretário-geral? Pôs o cargo à disposição do líder?
Não fragiliza, porque quem não deve não teme e eu tenho a minha consciência tranquila. A prazo, quando o silêncio permitir uma reflexão mais serena, até pode ser ao contrário. Podem perceber o exagero e a injustiça que me foi feita. Em mais de 30 anos de vida pública nunca a minha palavra, a minha honra ou a minha idoneidade foram postas em causa, mesmo em cargos de decisão relevantes. Não era por uns supostos 138 euros de ajudas de custo que iria sujar o meu nome. Assumi, por exemplo, este cargo de secretário-geral sem qualquer remuneração ou benefício.

"Chegou talvez a hora do Parlamento refletir se, por exemplo, um líder partidário pode ser deputado, já que, é óbvio que tem dois full-times. Não olhem apenas para mim"

Há uma "guerrilha" instalada no grupo parlamentar para derrubar Rui Rio?
É público e notório que o presidente do partido tem sido alvo de uma campanha interna para tentar manchar o seu carácter e impedir a sua afirmação perante os portugueses.

E quem são os rostos dessa guerrilha?
Não vou apontar nomes, mas basta andar pelos corredores da Assembleia, ler alguns jornais ou navegar pelas redes sociais para identificar quem são. Um pequeno grupo que nunca aceitou a eleição democrática de Rui Rio. Uma coisa pouco social-democrática. Mas é o que temos.

Há preocupação entre membros da direção com o que dizem ser um "ataque concertado" internamente contra Rui Rio. Partilha dessa preocupação?
Aquilo que nos preocupa é perceber o estado em que o partido se encontra e a falta de responsabilidade perante os militantes e os eleitores. Com esta estratégia, o partido está a descredibilizar-se de dia para dia e corre sérios riscos de deixar de ser um partido de poder. Por outro lado - e penso que é esse o principal objetivo desses ataques -, a guerrilha permanente na comunicação social não permite que se faça uma oposição séria ao governo para nos apresentarmos ao eleitorado como uma alternativa credível e de confiança. Temos um líder com uma marca muito forte, respeitado, corajoso e com uma estratégia muito bem definida, que, pelos vistos, incomoda alguns grupos instalados. O país sabe que na Câmara do Porto foi igual. Quando se mexe com interesses, nunca se é pacífico.

Quem no partido está dificultar a liderança do partido? Um conjunto de deputados que já sabem que não vão ficar nas listas às legislativas?
Essa conclusão é sua. Mas, no caso do Parlamento, terá de ser sempre um dado a considerar. Há sempre quem se mova apenas por lugares.

Vozes como Miguel Relvas e Miguel Morgado dizem que a aproximação do PSD ao PS e ao governo deu o centro a António Costa. É preciso que Rui Rio faça agora uma oposição mais musculada para se distinguir?
Não me parece que sejam bons exemplos a seguir. Porque ideologicamente estão muito longe do líder do partido e desta direção política, que assumiu a social-democracia, afirmando que o PSD não é de esquerda ou de direita, mas um partido ao centro. Estes dois militantes têm um posicionamento bastante à direita, defendendo ideias liberais e, portanto, não são exemplo para compreender a estratégia seguida. A questão da aproximação ao PS e ao governo tem sido uma falácia repetida exaustivamente para tentar fragilizar o presidente do partido, que defende uma oposição consciente e construtiva e nunca trauliteira. O Dr. Rui Rio defende que há reformas estruturais que têm de ser feitas com os outros partidos, à esquerda e à direita, tendo sempre como objetivo colocar em primeiro lugar o interesse do país. Olhar para os outros como inimigo não é, seguramente, o caminho que defende o interesse de Portugal.

Rui Rio aparece quase como um homem só, já que poucos rostos da direção PSD têm vindo a defender as posições do partido. É estratégia do líder centrar tudo nele?
Obviamente que não. Temos visto com alguma regularidade os dirigentes do partido a participar em ações públicas e também na comunicação social. No entanto, é natural que um líder com o perfil de Rui Rio, com convicções muito fortes, acabe por se destacar mais. Mas, já agora: acha que a comunicação social está disponível para, com regularidade, dar voz a outros que não o líder?

Mas isso não provoca desgaste na imagem de Rui Rio?
Claro. Por isso é que fazemos um esforço para haver ainda mais intervenção dos outros dirigentes. Como eu estou aqui a fazer.

O Conselho Estratégico Nacional tem coordenadores e porta-vozes, mais de duas mil pessoas envolvidas no trabalho das propostas setoriais, mas raramente aparecem em público em nome do partido. Porquê?
A criação do Conselho Estratégico Nacional foi inédita em Portugal. E pode dar um grande contributo para alterar o modo de funcionamento dos partidos. Neste momento, envolve mais de duas mil pessoas e exige algum tempo para se organizar. No entanto, já foram produzidos e apresentados vários documentos para áreas estratégicas, como a saúde, o ensino superior, a união económica e monetária, a natalidade, entre outros. Muitos dos seus coordenadores e porta-vozes não aparecem mais em público porque, infelizmente, a agenda mediática tem sempre uma preferência por assuntos mais efémeros e polémicos.

"É público e notório que o atual Presidente do partido tem sido alvo de uma campanha interna para tentar manchar o seu caráter e impedir a sua afirmação perante os portugueses"

Já resolveu os casos dos candidatos do PSD que gastaram mais do que deviam nas últimas eleições autárquicas? Como?
A Secretaria-Geral teve o cuidado de tratar esta matéria internamente e julgo que nada mudou para que a nossa postura se altere. Deixe-me esclarecer que um dos casos conhecidos - o primeiro [Marco Baptista, da Covilhã] - foi noticiado pelo jornal i, que dele teve conhecimento através da consulta da distribuição de processos judiciais disponível publicamente no site Citius. Foi a comissão política da concelhia local que nos avisou. Em face desse facto, e por ser inédito - só isso surpreende -, decidimos explicar o que estávamos a desenvolver. Um partido que almeja a governar o país tem de saber governar a sua própria casa e cumprir com o pagamento das suas dívidas. A maioria das candidaturas cumpriu, pelo que a nossa atuação direcionava-se apenas para os poucos casos clamorosos na violação dos orçamentos de campanha e outras irregularidades. Não é por acaso que o partido tem um passivo de 14 milhões de euros e o que quisemos e queremos fazer é chamar à responsabilidade aqueles que gastaram para lá do autorizado em nome do partido, pondo em causa o bom nome do PSD.

As sondagens são muito desfavoráveis ao PSD e apontam para a possibilidade de um péssimo resultado nas legislativas. Rui Rio vai ser capaz de conseguir resultado semelhante ao do PSD em 2015?
As sondagens contam pouco, para não dizer muito pouco. Mas é evidente que, se a guerrilha interna não parar, o PSD nunca poderá ter um resultado positivo. Isso nada tem que ver com o líder. Ele não faz milagres. Mas, se as pessoas começarem a portar-se com sentido da responsabilidade, é verdade o que Rui Rio tem dito. Ou seja, que o PSD poderá disputar, taco a taco, com o Partido Socialista as eleições legislativas de 2019. Pessoalmente, concordo com esta opinião, é aquilo que sinto quando estou na rua, com as pessoas, face ao prestígio e à respeitabilidade que o presidente do PSD tem junto dos portugueses. Não confunda o pequeno mundo da política com o país, nem a opinião pública com a publicada.

A sondagem publicada ontem pelo Expresso dá o PSD a 15 pontos do PS. Não é muito preocupante para o partido?
Mesmo esta sondagem ainda situa o PSD nos 27%, que é praticamente o mesmo de quando Passos Coelho deixou a liderança do partido. O que, apesar de ser mau, deixa muitas expectativas, porque, numa altura de tanta turbulência e tanta contestação interna, ter 27% é sinal de que o PSD facilmente pode subir rapidamente acima dos 30%. O que é incentivador. Se as lutas internas acabarem, o PSD pode ainda ganhar as eleições legislativas.

Mas, se o PS conseguir maioria absoluta, o líder do PSD terá de sair como pedem os críticos?
Desconfio que esses pedirão a saída do líder, mesmo que ele ganhe com maioria absoluta. Quase que tenho absoluta certeza.

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