Rio: "Só se eu fosse hipócrita é que dizia que a culpa é toda minha"

Líder do PSD assume quota de responsabilidade pelo resultado nas eleições europeias, mas diz que PS ganhou por "poucochinho". Sobre a crise no sistema político, refere que não está assim tão distante do Presidente da República

O presidente do PSD, Rui Rio, assumiu esta quinta-feira uma "quota de responsabilidade grande", mas "repartida", nos resultados do partido nas europeias, e contrapôs que a vitória do PS "não é uma grande vitória", mas "por poucochinho".

No final de uma audiência de cerca de uma hora com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente do PSD, Rui Rio foi questionado sobre notícias do Público e do Expresso, segundo as quais na reunião de terça-feira à noite com as distritais, o líder do PSD não assumiu responsabilidades próprias pelo resultado das europeias, justificando o resultado com as críticas internas, a campanha agressiva do cabeça de lista, Paulo Rangel, e a comunicação social.

"É evidente que sou líder do partido e, se o partido vai a eleições e tem um dado resultado, bom ou mau, eu tenho uma quota de responsabilidade grande, só se eu tivesse perdido o juízo é que não dizia uma coisa destas", afirmou Rio.

No entanto, o líder do PSD acrescentou: "Só se eu fosse hipócrita é que dizia que a culpa é toda minha, fica bem dizer, mas não é, é repartida e a minha também lá está".

Questionado se se arrepende de ter escolhido Paulo Rangel para cabeça de lista do partido, o líder do PSD negou categoricamente. "Não, de forma nenhuma", disse.

Sobre a reunião das distritais, o presidente do PSD frisou tratar-se de um encontro fechado, cujas conclusões não foram tornadas públicas, dizendo que o que foi noticiado "é metade verdade, metade mentira".

PS teve uma "vitória por poucochinho"

Sobre os resultados do PSD, que não chegou ao 22% (o pior do partido em eleições de âmbito nacional), Rio admitiu que "não foram bons", mas apontou o foco para os do PS.

O presidente do PSD considera que se "gerou uma dinâmica "à volta do resultado do PS", apontando que os socialistas não subiram muito em relação às eleições de há cinco anos.

"Não quero dizer com isto que o resultado foi bom para o PSD, não foi. Mas uma coisa é não ser bom para o PSD, outra é fazer da vitória do PS uma grande vitória. Não foi, 33% não é uma grande vitória, é também uma vitória por poucochinho", disse.

"Agora, naturalmente, o líder do PSD que não teve um bom resultado, não está na melhor condição para dizer isto, mas uma vez que me está a fazer pergunta...", acrescentou.

O líder social-democrata desdramatizou as consequências dos resultados europeus do PSD para outubro, defendendo que as legislativas são eleições com "outras características".

Rio diz que a sua visão sobre crise política "não é assim tão distante" da do PR

Rui Rio afirmou ainda que a sua visão sobre a crise do sistema político "não é assim tão distante" do diagnóstico feito pelo Presidente da República.

No final da audiência com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no Palácio de Belém, Rui Rio admitiu que o recente alerta do chefe de Estado para "uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos" foi abordado na reunião.

"Falámos sobre isso, aquilo que é a nossa leitura não é assim tão distante daquilo que é a leitura do Presidente da República", afirmou.

"Se nós dissermos que há uma crise na direita, ponto final, essa não é a minha leitura, mas também não é exatamente aquilo que ouvi o Presidente dizer", acrescentou.

Existe "uma crise do regime" sobre "todos os partidos, da esquerda à direita"

Para Rio, o que existe "é uma crise no sistema político" e, ainda mais vasta, no regime.

"Então se há uma crise no regime, há seguramente na direita como há na esquerda, como há também na justiça", apontou.

Rio considerou que a crise do regime incide sobre o sistema político e, logo, sobre "todos os partidos, da esquerda à direita".

O líder do PSD foi a Belém acompanhado do secretário-geral, José Silvano, do líder parlamentar Fernando Negrão e dos vice-presidentes David Justino e Elina Fraga.

"Aquilo que mais nos preocupa é a situação em que se encontram os serviços públicos. Desde que este Governo entrou em funções, os serviços públicos tiveram uma degradação brutal", acusou, apontando como exemplos o Serviço Nacional de Saúde, os atrasos na atribuição de reformas pela Segurança Social ou a degradação nos transportes.

Rui Rio acusou o PS de tomar "medidas desgarradas" que, mesmo quando são "boas ideias" -- como a dos passes sociais -- depois são "mal executadas e revertem em pior qualidade de vida para as pessoas".

"Temos problemas claros no presente, e temos problemas no futuro, por força da inação do presente e das políticas que estão a ser seguidas", alertou, apontando sinais "preocupantes" também na balança de pagamentos, com as importações a crescerem mais do que as exportações.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, começou na quarta-feira a receber os partidos com assento parlamentar, no quadro dos seus "contactos regulares" com as forças políticas.

O primeiro partido a ser recebido pelo chefe de Estado no Palácio de Belém foi o CDS-PP, na quarta-feira. Esta quinta-feira, além do PSD, serão recebidos o PCP e o PAN, enquanto na sexta-feira realizam-se os encontros com o BE e o PS.

Na noite das eleições europeias, em 26 de maio, o chefe de Estado referiu-se a estas audiências, afirmando que pretendia "ouvir os partidos políticos sobre a situação, política, económica e social portuguesa, e ouvi-los também sobre as perspetivas de uma ainda longa pré-campanha eleitoral e de uma campanha eleitoral que só se realizará em setembro" para as legislativas de 6 outubro.

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