Assalto a Tancos. Só há um militar suspeito de cumplicidade

O Ministério Público (MP) está na fase final da investigação ao roubo do material de guerra de Tancos. Já há um total de 10 arguidos envolvidos quer no assalto, quer na encenação da entrega das armas.

Apenas um militar está sob forte suspeita de ter colaborado com os assaltantes dos paióis de Tancos. O militar prestava serviço na base militar na altura do furto - junho de 2017 - e terá sido corrompido para dar informações sobre a movimentação das rondas e o sobre o material que se encontrava nos armazéns.

De acordo com fontes próximas da investigação este militar poderá ser o próximo suspeito a ser constituído arguido. Neste momento, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) é titular dos dois inquéritos relacionados com o este assalto, um do furto propriamente dito, outro da encenação à recuperação de parte do material - o único que já fez detidos, entre os quais o ex-diretor da Polícia Judiciária Militar (PJM), em prisão preventiva.

Ao todo já há nos dois processos 10 arguidos, o último dos quais, conforme o DN noticiou este sábado, o suspeito de ter indicado aos assaltantes o material que deveriam utilizar para arrombar os cadeados dos paióis, conhecido no meio criminal por "Fechaduras", precisamente por ser um especialista nesta matéria.

O envolvimento de militares neste furto tem sido um dos pontos do processo mais questionados. A cumplicidade interna era inevitável para a concretização do crime, não se sabendo, no entanto, a que nível e até que posição da hierarquia. As fontes do DN não quiseram indicar a patente deste militar, confirmando apenas que é sobre ele que recaem as "mais fortes suspeitas" de ter colaborado com os assaltantes.

Exército já castigou três militares

Recorde-se que, em agosto de 2017 (cerca de dois meses depois do furto), o comandante do Regimento de Engenharia nº1 (estrutura responsável pelos paióis de Tancos), instaurou processos disciplinares a dois militares e em setembro a um terceiro (um capitão).

De acordo com o relatório oficial do ministério da Defesa "Tancos: Factos e Documentos", num dos casos, de um praça, "ficou provado que apesar de saber que não tinham sido realizadas quaisquer rondas pelos Soldados da Guarda de Polícia aos Paióis Nacionais de Tancos (PNT), incitou" estes militares "a prestarem falsas declarações, no sentido de que as tinham realizado, no âmbito do processo de inquérito à PJM, detalhando horas e parelhas de militares de alegadas rondas". A pena para este praça foi a probição de sair do quartel durante seis dias.

Noutro processo, contra um sargento que era comandante da Guarda de Polícia aos PNT, ficou provado que "não constituiu qualquer patrulha, nem ordenou a execução de qualquer ronda conforme determinação das diretivas existentes". Provou-se também, de acordo com o mesmo documento do governo, que este sargento "embora estando ciente de que nenhuma patrulha tinha sido constituída, colocou informação falsa no relatório que elaborou, ao reportar rondas apeadas com horas e respetiva constituição".

Em resultado desta atitude "não foi determinada a realização de rondas aos PNT, pelo que não foi dado cumprimento à Norma de Execução Permanente (NEP) e Diretiva, e foram prestadas falsas declarações no Relatório da Guarda da Polícia aos PNT". Este militar ficou proibido de sair do quartel durante 15 dias.

O terceiro processo disciplinar envolveu um oficial (capitão) que era o oficial de dia à data do assalto. Sobre este militar "ficou provado que não executou nem mandou executar nenhuma ronda ao perímetro exterior dos PNT, não dando assim cumprimento à Diretiva existente". A este oficial foi aplicada a pena de "Repreensão Agravada".

Segundo o Código de Justiça Militar, a "Repreensão Agravada" consiste numa "declaração feita ao infrator" na presença "de outros oficiais ou sargentos, respetivamente de posto superior ou igual, mas, neste caso, mais antigos, da unidade, estabelecimento ou órgão a que o infrator pertencer ou em que estiver apresentado".

As fontes do DN recusaram dizer se algum destes militares é o suspeito de ter sido cúmplice direito dos assaltantes.

O material de guerra foi roubado a na noite de 28 para 29 de junho de 2017. Os suspeitos terão entrado pela vedação degradada e entrado nos paióis. Granadas, explosivos, munições e e lança foguetes estão entre o material. A maior parte foi recuperada.

O Ministério Público tem suspeitas de envolvimento de uma organização criminosa ligada ao tráfico de armas e a atividades terroristas.

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