O fogo que tem perseguido António Costa

Os incêndios têm-lhe seguido a peugada política. Desde que foi ministro da Administração Interna até agora teve de lidar com as tragédias de 2005 e a do ano passado. Para a história fica uma frase sua sobre as 116 mortes de 2017: "Sei que viverei com este peso na consciência até ao último dia da minha vida"

Graça Henriques
Domingo em Monchique, António Costa disse que o apoio às populações afetadas é a prioridade© LUIS FORRA/LUSA

As tragédias dos incêndios estão gravadas no curriculum de António Costa, como o ferro em brasa deixa marcas na pele. Na biografia política do primeiro-ministro, os fogos estão sempre lá. A bater recordes, pelas piores razões: em 2005 era António Costa ministro da Administração Interna e arderam mais de 339 mil hectares e morreram 15 pessoas, entre elas 10 bombeiros. No ano passado, Portugal viveu a maior tragédia de sempre com a morte de 116 pessoas nos incêndios de Pedrógão e nos de outubro. Este ano, o fogo tem poupado vidas, mas não hectares de terras e bens e o incêndio que devastou a serra de Monchique já é considerado o maior da Europa com cerca de 27 mil hectares de área ardida.

O governo saiu chamuscado da tragédia do ano passado, mas não se queimou por completo. Costa recusou demitir-se (disse mesmo que se os acontecimentos se repetissem também não batia com a porta), segurou a ministra da Administração Interna até que uma intervenção pública do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tornou insustentável a sua presença no governo - Constança Urbano de Sousa saiu do executivo realmente queimada, foi a sacrificada política pela perda de mais de 100 vidas humanas.

António Costa e a então ministra da Administração Interna em Pedrógão © Carlos Manuel Martins/Global Imagens

Com a devastação de Monchique pelas chamas, a oposição mostra que está atenta, vigilante. Ainda esta segunda-feira, o vice-presidente do PSD, David Justino, acusou o governo de falta de recato, humildade e de grande precipitação.

"Uma das coisas mais duras desta função é a da habitualidade do convívio com a morte. No dia em que deixar de me emocionar com os fogos e com as tragédias humanas que estão associadas a esta função, devo deixá-la. Se estiver vacinado para a dor não vale a pena", dizia o então responsável pela Administração Interna à Sábado, em 2006. A declaração sentimental de um governante que viria, enquanto primeiro-ministro, a ser acusado precisamente de falta de sensibilidade, por ter tardado em pedir desculpa ao país pelas mortes de 2017 e também quando no passado 8 de agosto disse que "Monchique é a exceção que confirma a regra do sucesso".

A oposição e comentadores políticos caíram-lhe em cima e o gabinete de Costa viu-se obrigado a emitir um comunicado onde apontava que as palavras do chefe do Governo tinham sido "descontextualizadas e deturpadas". "O primeiro-ministro não só não procurou desdramatizar ou desvalorizar a gravidade da situação em Monchique como disse, pelo contrário, que a situação era alarmante e ia agravar-se", dizia a nota.

Realismo ou frieza? Costa afirmou na visita ao Algarve que o incêndio não ficaria de imediato dominado, que se iria agravar e ainda se virou para o outro lado do Atlântico: "Na Califórnia dizem que o incêndio só será dominado em setembro."

O primeiro-ministro cumprimenta bombeiros que combateram fogo de Monchique© LUÍS FORRA/LUSA

Recusando quaisquer comparações com os acontecimentos do ano passado, António Costa afirmou que havia "a registar de positivo que felizmente não houve nenhuma situação de perda de vida". A esse nível, não há de facto comparações possíveis - o ano passado morreram 66 pessoas em Pedrógão e 50 nos fogos de outubro.

O "irritante otimista", como o Presidente da República lhe chamou em tempos, não arrisca, contudo, afirmar que o pior já passou: "Dizer que as pessoas podem estar descansadas é uma irresponsabilidade. Dizer que devem estar inquietas é uma desnecessidade. As pessoas têm de estar conscientes. Primeiro, porque com as alterações climáticas o risco de incêndio é hoje maior do que há décadas", disse na entrevista deste sábado ao Expresso.

Os ministros também choram?

"Sou alérgico a políticos que correm para as câmaras de televisão a chorar e a rasgar as vestes perante uma tragédia." Palavras de António Costa em 2005 quando o país ardia de lés-a-lés. Constança Urbano de Sousa, a sua ministra da Administração Interna aquando dos fogos de Pedrógão e de outubro, ficou na mente dos portugueses precisamente por aparecer nas televisões e nos jornais com uma postura derrotada e constantemente em lágrimas. Recusando, no entanto, demitir-se quando políticos e opinião pública pediam a sua cabeça porque queriam que alguém fosse responsabilizado (e sacrificado) pela tragédia.

Costa teimou em mantê-la, ela teimou em ficar. Até outubro, quando o pinhal interior se transformou num inferno e morreram mais 50 pessoas a somar às 66 de Pedrógão. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa tomou as rédeas da situação - ele que esteve sempre no terreno a abraçar quem perdeu a família, os amigos, as casas, os animais - e proferiu a declaração mais dura do seu mandato, pedindo indiretamente "humildade cívica" ao primeiro-ministro. "É a melhor, se não a única forma de verdadeiramente pedir desculpa às vítimas de junho e de outubro - e de facto é justificável que se peça desculpa."

Marcelo esteve sempre próximo das vítimas dos incêndios© Maria João Gala / Global Imagens

Um dia depois, a 18 de outubro, o governo que nesse dia anunciou a demissão da ministra, voltou a estar de baixo de fogo no Parlamento. "Não vou fazer jogos de palavras, se quer ouvir-me pedir desculpas, eu peço desculpas", respondeu Costa ao deputado do PSD, Hugo Soares. "No meu vocabulário reservo a palavra desculpa para a minha vida privada, enquanto primeiro-ministro uso a palavra responsabilidade e sempre disse que assumiria todas as que viessem a ser demonstradas", disse.

Costa cedeu, o homem e o primeiro-ministro: "Sei que viverei com este peso na consciência até ao último dia da minha vida."

No incêndio de Pedrógão morreran 66 pessoas no ano passado© Adelino Meireles / Global Imagens

Com as mortes resultantes dos incêndios a serem notícia mundial e a atravessar uma das maiores crises de sempre, o governo fez saber que ficou chocado e surpreendido com o discurso do Presidente. E Marcelo, dias depois, deu-lhe a resposta - "chocado ficou o país". E mais: "Em relação ao que se passou há uma semana, há duas maneiras de encarar a realidade: uma maneira é o "diz que diz" especulativo de quem ficou mais chocado, se foi A com o discurso de B, se B com o discurso de A; depois, há uma segunda maneira de compreender que chocado ficou o país com a tragédia vivida, com os milhares de pessoas atingidas - país esse que, naturalmente, esperou uma palavra para as vítimas e que espera com urgência reparação, reconstrução e olhar para o país atingido".

Prevenir é a palavra de ordem

Nas visitas que tem feito pelo território para se inteirar de como estava a ser levada a cabo a limpeza das terras, a tónica do primeiro-ministro acentuou sempre a necessidade de diminuir os riscos, embora depois da tragédia tenha proferido declarações em que se mostrava convencido que o país estava mais preparado para o combate aos fogos. Palavra de ordem: prevenção, prevenção, prevenção.

Foi também assim quando tinha a pasta da Administração Interna. "Os incêndios de verão previnem-se no inverno." E quis sempre passar a mensagem de que isso só seria possível com o empenho de todos, não apenas dos responsáveis dos poderes central e local. "Ou este é um esforço que envolve toda a sociedade, cada um dos proprietários, ou então é um esforço que não pode ser assegurado só pelos presidentes de junta de freguesia, pelos presidentes de câmara, pelos ministros ou pelo primeiro-ministro. Tem de ser um esforço do conjunto da sociedade", disse em fevereiro numa deslocação a Tondela.

Mas a tragédia de 2017 trouxe, para o primeiro-ministro, "uma condição única", o relatório da Comissão Técnica Independente que definiu uma estratégia "que tem vindo a ser executada ao longo deste ano" e que passa nomeadamente pela reforma da floresta e um novo sistema de prevenção e combate dos incêndios.

Quando era ministro da Administração Interna e foi o bombeiro de serviço para apagar os fogos no terreno e na política, Costa diz uma frase premonitória à Sábado: "Cada dia é um novo dia de angústia. A angústia mantém-se sempre. E será assim certamente até 15 de outubro." Doze anos depois, num preciso 15 de outubro, morreriam dezenas de portugueses pela ação do fogo. Como é que um "irritante otimista" poderia adivinhar?