"A primeira circum-navegação foi a maior gesta naval espanhola"

O capitão-de-mar-e-guerra Ignacio Paz é o comandante do navio-escola Juan Sebastián de Elcano, em honra do navegador espanhol que concluiu a primeira volta ao mundo iniciada por Fernão de Magalhães em 1519.

O Juan Sebastián de Elcano (JSE) é um veleiro com quatro mastros onde os futuros oficiais da Armada Espanhola realizam as suas viagens de instrução ao longo de meio ano. O navio-escola, com mais de 90 anos, voltou a atracar esta semana na capital portuguesa e está aberto ao público até segunda-feira. Ignacio Paz, 53 anos e natural da Galiza, ingressou na Escola Naval Militar em 1986 e especializou-se em armas submarinas. Antigo ajudante-de-campo do Rei e dizendo ser "cada dia mais" um admirador confesso de Lisboa, recebeu sexta-feira o DN.

O que é a Armada Espanhola hoje? Tem falta de efetivos e de meios?

A Armada espanhola na atualidade está bem dimensionada. Temos o pessoal suficiente para dotar e trabalhar nos meios de que dispomos. E os meios navais são muito modernos. Espanha tem uma indústria naval muito forte, com construções de última geração tanto em fragatas como em submarinos, draga-minas... creio que é uma Armada que não é grande, mas está adequadamente dimensionada para a Espanha, a sua costa e as suas responsabilidades internacionais, tendo pessoal em quantidade, qualidade e qualificações adequadas. Dito isto, gostaríamos de melhorar, ter mais meios e pessoal, mas estamos num momento muito bom.

Em termos de pessoal, há muitos candidatos para todas as categorias?

As vagas que se oferecem para oficiais, suboficiais, marinheiros e infantaria de marinha [fuzileiros] são todas preenchidas. E há um número importante de candidatos para as várias categorias. Há uma resposta importante para integrar as Forças Armadas em geral, mas na Armada em particular. Não sei dizer quantos são os candidatos para oficiais, mas uns cinco a oito para cada vaga.

O Reino de Espanha tem uma longa tradição marítima. Ainda se mantém?

Sim, sim. Espanha é eminentemente marítima, tem uma tradição marítima composta por quatro marinhas: a Marinha mercante, a Marinha de pesca, a Marinha de recreio e a Marinha de guerra. Espanha continua a ser um país voltado para o mar, porque sabe que o mar lhe deu muito e pode continuar a dar, é uma fonte de ligação e esta ligação é uma fonte de inclusão. A ambição marítima e naval está sempre presente.

Este navio-escola tem o nome do navegador Juan Sebastián de Elcano. O que é que ele representa na mitologia espanhola?

A primeira circum-navegação foi uma das maiores, senão a maior gesta naval espanhola. Atrever-me-ia a dizer que supera a Espanha, foi uma gesta universal, global. Essa expedição confirmou há 500 anos que a terra era redonda, ajudou a dimensionar de forma correta a Terra, colocou em contacto o que era abarcável por mar (o que significava que os oceanos estavam interligados) e uniu todos os povos que a expedição Magalhães/ Elcano foi visitando. Podemos dizer que foi a primeira globalização da História... há 500 anos o mundo globalizou-se pela primeira vez, porque se puseram em contacto todos os países em redor do mundo e essa foi uma mudança extraordinária em muitas artes e ciências, não só na navegação ou na cartografia, na astrologia, na cosmografia, mas também na medicina, gastronomia ou botânica... absolutamente em tudo. Por isso cremos que é obrigatório celebrar como merece este V Centenário e fazê-lo, se possível, com a maior participação de outros países, em especial com aqueles que a expedição visitou pela primeira vez ou revisitou e aqueles que deram elementos para a expedição de Magalhães e Elcano. E quantos mais se quiserem juntar melhor, porque é algo universal. Elcano é o navegador que completou a expedição e que circum-navegou o mundo pela primeira vez, pelo que nós, com muito orgulho, levamos neste navio-escola há mais de 90 anos o nome desse marinheiro espanhol, basco de Getaria, de que tão orgulhosos nos sentimos.

Tirando Fernão de Magalhães e Juan Sebastián Elcano, que outros grandes navegadores da história destaca?

A pergunta é fácil, porque dentro de meia hora [quinta-feira] irei participar numa homenagem com a Marinha portuguesa ao navegador português Vasco da Gama. Vasco da Gama é um navegador português e universal que, com as suas gestas, o seu saber e conhecimento no mar foi o grande descobridor e um extraordinário navegador. Magalhães e Elcano foram navegadores que mostraram conhecimentos do mar e na arte de navegar, como coragem, destreza, valentia, compromisso... foi uma façanha de superação diária. Como navegadores e, no nosso âmbito, como militares de prestígio de que Espanha e a Armada Espanhola se orgulham, em épocas mais recentes podemos falar de muitos: Blas de Lezo, que acabamos de homenagear de forma muito sentida e merecida em Cartagena das Índias, D. Casto Mendes Nuñes, que homenageamos sempre que navegamos pelo Caribe recordando as suas batalhas navais, o almirante Cervera e tantos outros.

Portugal e Espanha estão a celebrar o V Centenário das Descobertas. [Quinta-feira] participou numa conferência sobre o tema na Academia de Marinha. Já se sabe onde é que o navio-escola português Sagres e o Elcano vão estar juntos durante a viagem de circum-navegação que fazem em 2020?

Ainda não. Haverá etapas que vão fazer juntos, provavelmente no Pacífico. O Elcano, nos próximos três anos, fará viagens de treino planeadas para estar 500 anos mais tarde nos países que a expedição de Magalhães e Elcano visitou entre 1519 e 1521. Por exemplo, em novembro de 2019 o navio estará no Rio de Janeiro, na baía de Guanabara. Em novembro de 2020 estará no Estreito de Magalhães, que foi atravessado pela primeira vez a 1 de novembro de 1520, Dia de Todos os Santos... por isso o primeiro nome que lhe foi dado foi Estreito de Todos os Santos. E assim sucessivamente no Pacífico e no Índico. O JSE dará uma volta ao mundo, desde agosto de 2020 a agosto de 2021. Será de 12 meses, a mais longa de todas. Do que ouvi [na Academia de Marinha] sobre a Sagres, não sei se pretende fazer uma volta ao mundo ou parte, mas será em sentido contrário. Não em direção a poente mas a levante. A ideia é que partilhem escalas e algum percurso, provavelmente na zona do Pacífico.

Quantas voltas ao mundo deu este navio-escola?

O JSE já deu 10 voltas ao mundo, seis em direção a poente e quatro a levante. A última foi em 2002 e 2003.

O Elcano realiza uma cerimónia de juramento de bandeira a bordo nos portos onde atraca, como sucede este domingo em Lisboa. Porquê?

O JSE procura organizar e oferecer um juramente de bandeira em todos os portos que visitamos. O objetivo é simples: oferecer a oportunidade a espanhóis, compatriotas residentes fora do território nacional, que expressem o seu compromisso com Espanha através do beijo à bandeira espanhola. Neste caso, à bandeira do navio-escola JSE, à sua bandeira de combate. É um gesto... não é por ele que o compromisso de cada um vai ser maior ou melhor, mas é uma forma de exteriorizar, de dizer 'aqui estou e mostrar de forma decidida e voluntária querer, respeitar e se necessário defender o meu país, a minha Pátria'. Temos a sorte de no navio-escola JSE podermos oferecer esta cerimónia a esses compatriotas a viver fora de Espanha, alguns há muitos anos, e que assim podem refrescar o seu vínculo com o seu país.

Há sempre muitos espanhóis nessas cerimónias?

Aqui em Lisboa vai ser provavelmente o juramento de bandeira mais multitudinário da história do navio, vamos ter mais de 130... normalmente as juras são de 30, 40, 50 espanhóis e, nos últimos portos, foi de cerca de 100. Aqui em Lisboa seguramente vão ser mais de 100.

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