Marcelo: "Portugal não pode fingir que não existiu pandemia"

O Presidente da República aproveitou o 10 de junho para dizer que "este é o exato momento para acordarmos". É preciso aproveitar a pandemia como uma "oportunidade única", recusando no futuro "soluções de ontem".

"Portugal não pode fingir que não existiu e existe pandemia, como não pode fingir que não existiu e existe brutal crise económica e financeira."

E também não pode "esperar que as soluções de ontem sejam as soluções de amanhã".

Assim, "este 10 de Junho de 2020 é o exato momento para acordarmos todo para essa realidade": a de que se está perante uma "oportunidade única" para "pensar diferente".

Estas foram as principais mensagens do Presidente da República deixou, esta manhã, nos Jerónimos, ao discursar nas cerimónias de celebração do Dia de Portugal, Camões e das Comunidades - o último 10 de Junho deste seu mandato presidencial.

"Temos nos meses e anos próximos uma oportunidade única para mudar o que é preciso mudar."

Há cem anos, com a pneumónica, "desperdiçamos uma oportunidade única para fazer uma democracia moderna" - mas agora "não cometeremos o mesmo erro", pelo que é preciso "pensar diferente". "Não perderemos a oportunidade singular de começar de novo", é preciso "não perder o instante irrepetível", impõe-se "converter o medo em esperança" e sobretudo "pensar diferente".

"Soluções de amanhã"

Para Marcelo, "não podemos entender que nada ou quase nada se passou, como não podemos admitir que algo de grave ou muito grave ocorreu e esperar que as soluções de ontem sejam as soluções de amanhã, como não podemos concordar com a inevitabilidade da mudança e nada fazer por ela."

Ou, sob a forma de interrrogação: "Percebemos mesmo que a pandemia foi global, exacerbou egoísmos, intolerâncias dos outros e do diferente" ou "pensamos - como outros que se recusaram a agir em tempo devido - que tudo foi um exagero mediático"?

Não mais "regressar ao habitual"

O Presidente criticou também que se pense que "é já chegada a hora de fazer cálculos pessoais ou de grupo, de preferir o acessório àquilo que durante meses considerámos essencial, de fazer de conta que o essencial já está adquirido, já passou, já cansou, já é um mero álibi para apagar a liberdade e controlar a democracia".

É que "temos nos meses e anos próximos uma oportunidade única para mudar o que é preciso mudar." E há que fazê-lo evitando "remendar, retocar, regressar ao habitual, ao já visto, como se os portugueses se esquecessem do que lhes foi, é e vai ser pedido de sacrifício, e se satisfizessem por revisitar um passado que a pandemia submergiu".

Devido à pandemia, a cerimónia fez-se apenas com sete convidados: além do presidente das comemorações, cardeal Tolentino de Mendonça (que discursou antes do PR), o presidente do Tribunal Constitucional, Manuel da Costa Andrade; o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, António Piçarra; o presidente do Tribunal de Contas, Vítor Caldeira; a presidente do Supremo Tribunal Administrativo, Dulce Neto; e ainda o primeiro-ministro, António Costa, e o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

"É justo que nos unamos para homenagear os heróis da saúde em Portugal, todos, sem exceção. E aqui lhes testemunho, convosco e em vosso nome, essa homenagem."

Desta vez, ao contrário do que é hábito, também não houve condecorações - mas Marcelo anunciou que nos próximos dias irá entregar a Ordem do Mérito à equipa que tratou o primeiro doente de covid-19 em Portugal porque "é justo que nos unamos para homenagear os heróis da saúde em Portugal, todos, sem exceção".

Mas "não podendo galardoar simbolicamente todos eles" então escolheu a equipa que tratou o primeiro doente de covid-19: "O médico que acompanhou, o enfermeiro que cuidou, a técnica de diagnóstico que examinou, a assistente operacional que velou".

"Neles, a quem entregarei dentro de dias as simbólicas insígnias da Ordem do Mérito, abarcarei milhares e milhares de heróis de centenas e centenas de serviços e unidades de saúde", explicou.

Pelas 11h00, o Presidente, acompanhado dos seus convidados, foi recebido à entrada da Igreja de Santa Maria de Belém pela diretora do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém, Dalila Rodrigues, e pelo prior José Manuel dos Santos Ferreira.

"Instante tão diverso do sonhado"

Antes dos discursos, o Presidente depôs uma coroa de flores junto ao túmulo de Camões. Houve também um minuto de silêncio em homenagem aos portugueses mortos em combate.

Na sua intervenção, Marcelo começou por recordar que, antes da pandemia, o Dia de Portugal deste ano estava para ser celebrado na Madeira - e daí o convite ao cardeal Tolentino de Mendonça, natural da ilha, para presidir à comissão das comemorações.

Mas a pandemia surgiu e assim o Dia de Portugal tornou-se num "instante tão diverso daquele que havíamos sonhado".

"[Houve] heroísmo ilimitado a fazer de carências e improvisos excelência e salvaguarda de vida e saúde."

Segundo o chefe de Estado, a situação em que Portugal se encontra, passados três meses de se terem detetado os primeiros casos de covid-19 no país, só foi possível, entre outros fatores, porque no setor da saúde houve "heroísmo ilimitado a fazer de carências e improvisos excelência e salvaguarda de vida e saúde".

Cerimónia ecuménica

Marcelo Rebelo de Sousa adiantou que tenciona, "após a pandemia", promover uma "cerimónia ecuménica de crentes de várias crenças e de não crentes para homenagear os mortos, envolvendo as suas famílias no calor humano de que foram privadas semana após semana".

Mas - voltou a insistir - "só serão justas estas homenagens, que não esquecem os compatriotas que lá fora morreram, sofreram e trabalharam neste tempo inclemente, se elas nos acordarem para o que temos de fazer".

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