E a estrela do debate entre Costa e Rio foi... Centeno

Líder do PSD acusa o PS de agir como "o dono disto tudo". Secretário-geral socialista contrapõe que a ética dos sociais-democratas é à "medida do freguês". Costa não desmente saída de Centeno durante a próxima legislatura.

O último frente-a-frente entre os dois principais candidatos a primeiro-ministro deu o palco a... Mário Centeno. Até foi Rui Rio a chamar o ministro das Finanças ao debate."Já sabia que ia falar na TAP. Eu também tenho o meu Mário Centeno", atirou o líder social-democrata. A resposta de António Costa ouviu-se num aparte: "Mas eu não troco o meu pelo seu. E os portugueses também não".

O segundo round chegou minutos mais tarde, com Costa a criticar o cenário macroeconómico do PSD: "Há uma coisa que lhe garanto. Pode gostar muito do seu Centeno, mas tenho a certeza que os portugueses preferem o meu Centeno, que esse é de contas certas, que nos permite fazer o que temos mesmo de fazer e não promete a ninguém aquilo que sabemos não poder fazer".

"O seu Centeno está farto do Ministério das Finanças, e diz que se o PS ganhar [as legislativas] fica, mas só enquanto for presidente do Eurogrupo. Portanto, vai-se embora no fim do primeiro semestre do próximo ano".

"Mesmo que seja assim, seria melhor seis meses do meu Centeno, do que quatro anos do seu Centeno", devolveu Costa, não fechando assim o cenário de uma saída precoce do ministro das Finanças de um futuro governo liderado por António Costa. Rio continuava a ouvir-se, em apartes: "Está a prazo, está com um contrato precário".

O líder do PSD viria a dizer, já nas declarações após o debate, que fez a referência à saída de Centeno "de propósito para António Costa desmentir". "Mas ele não desmentiu", assinalou Rui Rio.

O PS "dono disto tudo" e a "ética à medida" do PSD

Depois de uma breve apreciação aos resultados das eleições regionais da Madeira, o último debate entre Costa e Rio passou rapidamente para o tema do familygate, com Rui Rio a atirar aos socialistas e Costa a apontar ao opositor uma ética "à medida do freguês".

Rio não quis falar do caso em particular de Artur Neves, o secretário de Estado da Proteção Civil que se demitiu na passada semana depois de ter sido constituído arguido no caso das golas inflamáveis, mas passou rapidamente ao ataque aos socialistas: "O PS, desde sempre, tem um tique. Quando está no poder, olha para o Estado quase como se fosse o dono disto tudo, o dono do Estado. É uma cultura dominante do PS".

O líder do PSD ainda repetiria a mesma ideia - "O PS, historicamente, olha para o Estado como o dono disto tudo" -, antes de dizer que o problema não é exclusivo dos socialistas: "O PSD nisso é virgem? Nunca fez nada disso, nunca nomeou ninguém para um cargo por ser militante, quando não tinha capacidade para esse cargo? Nenhum partido é virgem nisso. Não quero dizer que é uma exclusividade do PS, [a diferença] é a intensidade com que se faz".

Foi a vez de António Costa contra-atacar. "Acho esta acusação absolutamente infundada. Essa conversa do familygate assenta numa enorme confusão. Num conjunto de 62 gabinetes, com mais de 500 pessoas, houve três casos de familiares e em nenhum caso algum foi nomeado por ser familiar". "Há uma coisa que no PS não existe: proclamações de banho de ética que depois são à medida do freguês. O dr Rui Rio, quando chegou à liderança do PSD, quis-se destacar da anterior liderança dizendo que ia fazer um grande banho de ética. E depois viemos a descobrir que afinal o compromisso de honra é à medida do freguês: se não é arguido declara que renunciará se for, se é arguido não renuncia a coisa nenhuma".

"Não tenho nada a apontar ao dr. Rui Rio, mas eu nunca dei lições de ética a ninguém porque presumo que os outros são pelo menos tão sérios e honestos quanto eu. Agora, também não recebo lições de ética do Dr. Rui Rio, por quem tenho muita estima, e muito menos do PSD em geral".

Os passes, os professores e o Bloco de Esquerda

Foi António Costa a lançar para o debate a questão dos passes sociais, questionando Rui Rio se vai revogar a medida se chegar ao Governo. O líder do PSD foi taxativo: não, não vai revogar. Mas vai melhorá-la, até porque esta "foi uma boa medida", mas foi feita "em cima do joelho porque havia eleições europeias", esquecendo o resto do país, para lá das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.

Na Educação, Rio acusou os socialistas de terem um programa "vago", defendeu uma maior aposta as creches e jardins-de-infância e acrescentou que "a crescente indisciplina é algo que tem afastado os portugueses da função docente". "O meu discurso político será muito mais a favor da disciplina", garantiu.

Costa voltaria mais tarde ao tema, e com críticas contundentes ao opositor, aproveitando o tema que há poucos meses separou socialistas e sociais-democratas e que levou Costa a ameaçar com a demissão do Governo: "Eu digo aos professores o que faço e faço aquilo que digo. Disse que descongelava as carreiras e descongelei, que seriam tratados de forma igual aos restantes funcionários [públicos], recuperando 70% da progressão, e recuperaram 70% da progressão". "Não digo numa noite - como o sr. dr diz - que lhes vai dar tudo, e o Mário Nogueira sai da Assembleia da República a festejar, e no dia a seguir de manhã vem dizer que não foi isso que tinha sido acordado e afinal tinham enganado o Mário Nogueira".

Costa argumentou ainda que o quadro macroeconómico do PSD não tem verba para contabilizar todo o tempo em que a carreira dos professores esteve congelada - os famosos nove anos, quatro meses e dois dias. "Só tem verba, exclusivamente, para pagar as progressões que já estão automaticamente decididas. Não paga um único tostão a mais para a atualização de nenhum funcionário do Estado, não tem nem um cêntimo para fazer aquilo que diz que quer fazer aos professores e não tem um cêntimo para contratar nem um funcionário para a administração pública".

Já no capítulo da reestruturação da dívida, Rio defendeu que a redução dos juros da dívida pública é mérito do Banco Central Europeu e não do governo - que se limitou a não estragar tudo - e aproveitou para chamar ao debate o Bloco de Esquerda, sublinhando que o PS "inventou uma nova série: o Bloco de Esquerda é perigoso".

"Não é que discorde disso, mas há uma contradição entre o que o PS dizia e o que diz", acrescentou o líder social-democrata. O partido liderado por Catarina Martins ainda voltaria a ser chamado à mesa do debate, com o primeiro-ministro e líder do PS a desferir novo ataque aos bloquistas. António Costa diz que, há quatro anos, o BE também tinha no PS o seu principal adversário e que só reviu essa posição "no dia a seguir à reunião do PS com o PCP". "Espero que este ano possa rever a posição mais cedo", disse Costa, que esta noite estará num outro debate, onde estará também Catarina Martins - é o último debate a seis da legislatura, que será transmitido esta noite nas televisões, e será acompanhado em direto no DN.

As frases do debate

Rui Rio é questionado sobre se os resultados de ontem foram uma "meia vitória ou uma meia derrota". Líder do PSD responde que "é uma vitória", embora "mais pequena do que foram as outras", sempre por maioria absoluta. "O PSD ganhou todas as eleições durante 43 anos, é um feito difícil de igualar", acrescenta o líder do PSD, sublinhando a dificuldade de suceder a líder "fortíssimo" como Alberto João Jardim. E Rio contribuiu para este resultado? "Dei alguma ajuda", responde, voltando a falar numa "vitória um pouco inferior às outras".

A mesma pergunta para António Costa."Não tendo ganho, perdemos as eleições. Foi algo frustrante, ficarmos a cinco mil votos [do PSD]",diz o líder socialista, que fala num "resultado histórico do PS na Madeira".

E é possível haver uma geringonça na Madeira? "Não me vou imiscuir na formação do Governo", diz Costa.

Debate passa para o familygate. Começa António Costa:

"Nunca demiti ninguém por ser arguido"

"Respeito quando alguém, que é arguido, entende que tem melhores condições de defesa saindo [do Governo]"

Rui Rio sobre o mesmo tema:

"O PS, historicamente, olha para o Estado como uma espécie de dono disto tudo. Temos alguns casos de nomeação de militantes e simpatizantes do PS, em alguns casos, até de familiares"

"Aquilo que distingue o que aconteceu agora no governo foi a nomeação dos próprios familiares"

"Nenhum partido é virgem nisso"

Outra vez António Costa, sobre o familygate:

"Num conjunto de 62 gabinetes com mais de 500 pessoas houve três casos de familiares, nenhum caso foi nomeado por serem familiares"

"Nunca dei lições de ética a ninguém. Mas também não recebo, muito menos do Dr. Rui Rio"

"Há uma coisa que no PS não existe: proclamações de banho de ética que depois são à medida do freguês. Quando Rui Rio chegou à liderança disse que ia fazer um banho de ética, mas viemos a descobrir que o compromisso de honra é à medida do freguês"

"[Rui Rio] nomeou para a administração do Rivoli uma familiar do seu vice-presidente da Câmara. Nomeou porque era competente para a função ou porque era irmã? Presumo que nomeou porque era competente"

Novamente Rio:

"A presunção de inocência tem de ser respeitada"

"O PSD tem telhados de vidro? Claro que tem. Alguém pensa que em 12 ou 24 meses se consegue limpar um partido político, com todos os tiques que os partidos têm?"

"Eu nunca disse que ia dar lições de ética, disse que ia praticar ética, e isso é salvaguardar o princípio da inocência"

"É arguido, logo, sai? Não, isso seria pôr o Ministério Público a mandar nas listas de deputados"

Tema acaba numa picardia entre os dois candidatos, com Costa a dizer que "as pedras que atirou aos telhados do PS afinal caíram noutros telhados de vidro" e Rio a responder que no PS já cai chuva porque os telhados partiram.

O que é um salário decente?

António Costa:

"Os salários médios são muito baixos"

"A par do salário é necessário melhorar o rendimento das famílias"

Rui Rio:

"Se há uma grande diferença entre os salários mais altos e os mais baixos, as empresas devem ser penalizadas por isso"

"O modelo de crescimento da nossa economia, a puxar pelo consumo, não pode dar bom resultado"

Privatização da TAP

Costa: "A empresa que está a fazer um investimento de grande alcance, tem custos de investimento muito significativos"

Rui Rio: "Já sabia que ia falar na TAP . Eu também tenho o meu Mário Centeno"

António Costa: "Mas eu não troco o meu pelo seu. E os portugueses também não"

Passes sociais

Foi António Costa quem perguntou a Rui Rio se tenciona manter o novo modelo de passes sociais. Rio responde:

"A medida é boa, vamos mantê-la"

"Foi uma boa medida, mas foi feita em cima do joelho porque havia eleições europeias"

António Costa

"Não íamos adiar esta medida cinco anos quando é urgente para o país"

Debate passa para a Educação

Rui Rio

"O programa do PS na educação não é muito detalhado, é bastante vago"

"Na Educação há um elemento que é absolutamente vital, uma crescente aposta nas creches e jardins-de-infância. Está cientificamente comprovado que esse elemento é absolutamente condicionador do futuro das crianças"

"[O PSD vai] fazer uma aposta crescente nessa matéria"

"A ida para os jardins de infância é absolutamente decisiva para sua competitividade [das crianças]"

"A crescente indisciplina é algo que tem afastado os portugueses da função docente. Não é a só questão dos salários e das carreiras"

"O meu discurso político será muito mais a favor da disciplina"

António Costa

"O PS tem feito muito"

"O nosso grande objetivo é continuar a combater o abandono escolar precoce, a promoção do sucesso escolar e sobretudo as duas grandes reformas que foram feitas nesta legislatura, a flexibilização dos currículos escolares e a maior autonomia das escolas"

Reestruturação da dívida

António Costa:

"Nunca fui defensor da reestruturação da dívida e se olharmos para o que tem acontecido à divida portuguesa, percebemos bem os custos que essa ideia teria"

"A venda do Novo Banco, com todas as suas dificuldades, foi determinante para a queda dos juros da dívida"

"Graças à recuperação da credibilidade internacional de Portugal, começámos por ter os juros mais baixos que os da Itália, desde há poucas semanas estão ao nível dos da Espanha"

"O que é que nos tem diferenciado mais da Espanha? A estabilidade política"

"Ao nível da União Europeia é manifesto que não há a menor condição política para essa ideia [reestruturação da dívida]"

Rui Rio:

"A redução dos juros da dívida pública... não é como o dr. António Costa disse. A primeira razão da descida dos juros da dívida pública chama-se Banco Central Europeu. É a política do BCE que tem reduzido as taxas de juro transversalmente na Europa"

"O governo pode dizer 'mas nós não estragámos tudo'. Os senhores não estragaram tudo, podiam ter feito como no passado e partiam tudo e era uma desgraça. Partiram só um bocadinho"

"Agora há uma nova série: o Bloco de Esquerda é perigoso. É uma uma nova série que o PS inventou. O BE era excecional até agora, mas agora na campanha eleitoral é a série 'o Bloco de Esquerda é perigoso'. Olhem para Espanha, para o Podemos, se tivermos um BE assim, estamos desgraçados"

"Não é que discorde disso, mas há uma contradição entre o que o PS dizia e o que diz"


O combate de Centenos

António Costa:

"Eu digo aos professores o que faço e faço aquilo que digo. Disse que descongelava as carreiras e descongelei, que seriam tratados de forma igual aos restantes funcionários [públicos], recuperando 70% da progressão, e recuperaram 70% da progressão"

"[O cenário macroeconómico do PSD] só tem verba, exclusivamente, para pagar as progressões [dos professores] que já estão automaticamente decididas"

"Os portugueses preferem o meu Centeno, que esse é de contas certas"

"Seria melhor seis meses do meu Centeno, do que quatro anos do seu Centeno"

Rui Rio

"O seu Centeno está farto do Ministério das Finanças, fica até ser presidente do Eurogrupo, mas depois vai-se embora"

É possível um governo do Bloco Central?

Rui Rio

"Uma crise externa idêntica à que aconteceu quando tivemos de chamar a troika é um cenário em que poderia eventualmente acontecer. mas aquilo é"

"Coisa diferente é poder haver acordos entre o PS e o PSD e outros partidos"

António Costa

"Por princípio acho que é uma solução indesejável. A democracia vive de alternativas e no nosso sistema partidário as alternativas são polarizadas à direita pelo PSD [ouve-se Rio num aparte: "ao centro, ao centro"] e à esquerda pelo PS"

"Qual é solução governativa que vamos ter no dia 7 de outubro? Dia 6 iremos saber, já não falta muito. Vamos ver na altura quais serão as condições de governação"

Quem é o adversário de Costa no PSD?

António Costa

"É Rui Rio"

Rui Rio

"Essa pergunta é difícil porque se fosse enumerar os meus adversários internos a lista era enorme"

Quem é o grande adversário do PS: é a esquerda ou o PSD?

António Costa

"Espero que o BE, tal como fez há quatro anos, quando também tinha o PS como seu adversário principal, depois no dia a seguir das eleições - ou melhor, no dia a seguir à reunião do PS com o PCP - reviu a sua posição, espero que este ano possa rever a posição mais cedo e perceba que ter o PS como principal adversário é uma enorme frustração para todos aqueles que compreendem que é necessário prosseguir as boas políticas desta legislatura"

Rui Rio

"[Este arrufo entre PS e BE] não dá necessariamente em divórcio"

"Se precisarem de se entender, obviamente que se vão entender na mesma"

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