Zoo. A difícil tarefa de todos os dias garantir 1500 quilos de alimentos

COVID-19

Zoo. A difícil tarefa de todos os dias garantir 1500 quilos de alimentos

Em tempos de pandemia, foi preciso criar um stock de rações, feno, carne e peixe para alimentar 2000 animais de 300 espécies que habitam o zoológico de Lisboa. A carne e o peixe são guardados em grandes arcas frigoríficas.

Os portões estão encerrados mas, dentro de muros, a vida do Jardim Zoológico de Lisboa segue as suas rotinas, com adaptações, é certo, aos tempos da pandemia. É preciso cuidar que nada falte aos 2000 animais - afinal, no zoo são consumidos entre 1000 a 1500 kg de alimentos diários, desde vegetais, frutas, carne, peixe, feno... Só de carne são consumidos 120 kg todos os dias.

E para que nada falte às 300 espécies que habitam o Jardim Zoológico, o Serviço de Nutrição desenvolveu um plano que levou à criação de um stock de rações, feno, carne e peixe (estes últimos mantidos em grandes arcas frigoríficas existentes no recinto). Para os produtos perecíveis, como vegetais e fruta, o zoo optou por estabelecer acordos com fornecedores e hipermercados para garantir as entregas.

"Apesar dos tempos difíceis que vivemos, continuamos a poder contar com ofertas de alimentos por parte de alguns hipermercados", sublinha Fernando Salema Garção, vice-presidente do Jardim Zoológico.

O teleférico está parado e não "sobrevoa" o jardim, não há arrepios de medo quando passa pelo espaço a céu aberto dos leões... As alamedas e avenidas estão vazias. Faltam as correrias e as gargalhadas das crianças, as exclamações de admiração de quem não se contém ao ver os leões, os tigres, os gorilas, as cobras, os crocodilos, a agitada aldeia dos macacos, o elefante a tocar a sineta; falta quem meça alturas com a girafa, quem aplauda alto e bom som as acrobacias dos golfinhos.

Para os mais novos, mas também para os mais crescidos, essa festa está adiada até que os grandes portões de Sete Rios reabram para os receber. Mas lá dentro a vida continua. E até já há novas vidas para apresentar: as crias de suricata e os lórios-vermelhos, duas das espécies que registaram nascimentos desde o início do estado de emergência a 18 de março.

Novas crias à espera dos visitantes

As quatro crias de suricatas já interagem com os restantes membros do grupo; as duas crias de lórios-vermelhos já saíram do ninho há cerca de três semanas e há ainda outro par que os tratadores observaram na sexta-feira passada, pela primeira vez, no ninho - acreditam que nessa altura teriam cerca de uma semana de vida.

No próximo domingo, 3 de maio, data em que se comemora o Dia da Mãe, o Zoo vai apresentar online um dos seus mais recentes habitantes - uma cria de golfinho-roaz. O pequeno macho nasceu durante a madrugada do dia 28 de janeiro e enfrentou logo nas primeiras horas de vida desafios de super-herói, com a difícil tarefa de mamar debaixo de água, enquanto nada.

Neste dia e, ao longo de um mês, o zoo promove na sua página uma votação para a escolha do nome da cria. Tejo, Arade e Troia - que representam as áreas de distribuição da espécie em Portugal - são os três nomes em votação. A crescente degradação do habitat devido à poluição, o consumo insustentável de pescado e o aprisionamento em redes de pesca são as principais ameaças à sobrevivência do golfinho-roaz. O desaparecimento dos roazes-corvineiros do rio Sado constituiria uma grave perda para o ecossistema para a biodiversidade à escala nacional, já que esta é considerada uma população estuarina única.

A algazarra dos animais é audível a quem passa junto às grandes do jardim. Lá dentro, a rotina mantém-se igual com a manutenção do recinto, maneio e alimentação. Mas a estas atividades diárias foi necessário adicionar as medidas do plano de contingência - criação de turnos, restringindo o número de funcionários, com alguns serviços ausentes e outros reduzidos ao número necessário para a manutenção da área animal.

Ao mesmo tempo, garante o Zoo, foram reforçadas as medidas de desinfeção, que já existiam de forma regular, e impedidos os contactos entre setores. Já a rotina dos tratadores - sujeitos a medidas de proteção - mudou na perspetiva de estarem passarem a estar circunscritos aos mesmos animais.

Zoo cedeu ventiladores e raio-X a hospital

Quando o mundo luta com a pandemia de covid-19 - há muitas dúvidas científicas sobre a transmissão de e para animais, mas há notícias de um tigre fêmea infetado no Zoo de Nova Iorque - o vice-presidente do zoo de Lisboa, Fernando Salema Garção, refere que tudo está a ser feito para manter os animais em segurança.

"Continuamos a trabalhar todos os dias em prol da nossa missão e podemos garantir que está assegurado o bem-estar dos animais, através da alimentação, limpeza de instalações e estímulos. Todos os restantes cuidados se mantêm. Os enriquecimentos ambientais que têm por objetivo estimular os comportamentos naturais dos animais e que são fundamentais neste grande projeto de conservação em que participamos e ao qual continuamos a dar resposta, mantêm presença assídua nas diferentes instalações", afirma.

O Jardim Zoológico cedeu mesmo os dois ventiladores do seu Hospital Veterinário para uma unidade hospitalar, já que se tratam de aparelhos similares aos usados em humanos. Colocou ainda à disposição dois equipamentos de raio-x para serem utilizados no acompanhamento de doentes da covid-19.

"A medicina veterinária, nomeadamente a que intervém em animais selvagens, tem-se adaptado utilizando equipamentos e procedimentos aplicados na medicina humana, o que justifica a existência destes aparelhos de ventilação no nosso hospital. Sempre tivemos um apoio significativo dos hospitais e de especialistas em diferentes áreas da medicina, este é o momento de retribuir", diz Carlos Agrela Pinheiro, administrador do parque e responsável pela Área Zoológica.

Ver a vida animal através do mundo virtual

Todos desejam a reabertura de portas - os visitantes para desfrutar do recinto e das atividades que oferece, a administração porque a bilheteira representa uma das principais fontes de receitas - o Zoológico de Lisboa recebe entre 800 mil a 1 milhão de visitantes por ano, ou seja, entre dois a três mil por dia. Por agora, foram suspensas as novidades que estavam a ser preparadas para o verão. E, entretanto, o zoo adaptou-se aos novos tempos, reinventando-se para continuar a levar a missão de educação para a conservação às famílias, professores e alunos.

"Lançámos os Encontros com os Biólogos, onde abordámos temas como o comércio ilegal, a destruição do habitat ou o clima entre outros temas. Criámos o ATL virtual durante as férias da Páscoa para que as crianças tivessem atividades lúdicas e estruturámos o programa Zoo em Casa, com sessões online para escolas e recursos educativos no site do zoo abrangendo diversas áreas de conhecimento relacionadas com a biodiversidade e a conservação da natureza e alinhadas com a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania e com o Referencial de Educação Ambiental para a Sustentabilidade. Com as atividades online que temos desenvolvido, e que são diferentes de semana para semana, pretendemos entrar nas casas dos portugueses e oferecer aquela que é "a nossa natureza"", diz Fernando Salema Garção, vice-presidente do Jardim Zoológico.

No próximo domingo, dia 3, será, aliás, lançada a segunda temporada de "Encontro com o Biólogo com o tema "Super-heróis da Natureza - especial Dia da Mãe" onde serão desvendadas as crias e progenitoras mais espetaculares do Reino Animal. As surpresas desta sessão passam por se ficar a conhecer fêmeas que têm a capacidade de parar o desenvolvimento do feto quando, por exemplo, há falta de alimento na natureza, e outras que, na ausência de machos, se conseguem reproduzir assexuadamente, de forma a não colocar em causa a sobrevivência da espécie.
As primeiras sessões deste programa online gratuito contou com a participação de cerca de 3000 famílias.

A crise compromete o futuro?

O facto de estar fechado ao público representa descida nas receitas. Mas a administração do zoo explica que "as quebras dos primeiros meses do ano não são significativas". E que se mantém o mesmo número de trabalhadores em áreas diferentes como nutrição, tratadores, marketing, manutenção, etc..

Por outro lado, a crise não compromete a compra de animais porque o Zoológico de Lisboa não tem esta prática. "O Jardim Zoológico não compra animais. Efetuamos trocas entre instituições zoológicas pertencentes à EAZA e à WAZA com o objetivo de constituir em zoos uma população geneticamente viável e saudável, apta a ser reintroduzida quando possível", explica Fernando Salema Garção.

A crise sanitária e económica que lhe está associada pode comprometer o futuro do zoo? O vice-presidente da instituição centenária responde: "O Jardim Zoológico faz parte da memória de todos os portugueses e, nos seus 135 anos, já enfrentou momentos difíceis que foram ultrapassados com sucesso. Acreditamos agora também, que vamos abrir portas com as devidas restrições e medidas a implementar e proporcionar aos portugueses um dia em família seguro, num espaço ao ar livre, onde poderão aprender e viver experiências únicas ao mesmo tempo que vão estar a contribuir para este grande projeto de conservação."

Três casas em 136 anos

A história do Jardim Zoológico de Lisboa é longa - já conta com 136 anos de vida e antes de se instalar em Sete Rios passou pelo Parque de São Sebastião da Pedreira e pela Palhavã. Só a 28 de maio de 1905 foram inauguradas as novas e definitivas instalações na Quinta das Laranjeiras.

Aquele que foi o primeiro parque com fauna e flora da Península Ibérica. Entre os seus fundadores contam-se Pedro Van Der Laan, José Thomaz Sousa Martins e o Barão de Kessler, que contaram com o apoio de várias personalidades, entre elas o Rei D. Fernando II e o zoólogo José Vicente Barboza do Bocage.

As inúmeras remessas de espécies vindas de África e do Brasil contribuíram para que, ao longo dos anos, tivesse uma das coleções de animais mais vastas e diversificadas do mundo. Alguns governadores das ex-províncias ultramarinas deram uma forte contribuição para o enriquecimento da coleção zoológica com exemplares de espécies exóticas, até então pouco conhecidas.

O 25 de Abril e independência das antigas colónias em África que se lhe seguiu acabariam por significar uma quebra no apoio prestado ao Jardim Zoológico pelas autoridades do Estado Novo na diversificação e renovação das espécies. Ao mesmo tempo, o número de visitantes também diminuiu de forma substancial e ocorreram cortes radicais dos subsídios estatais.

Em 1913, o Jardim Zoológico foi declarado Instituição de Utilidade Pública e, em 1952, a Câmara Municipal de Lisboa galardoou a instituição com a Medalha de Ouro da Cidade.

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