Xavier de Lima no dia em que regressou à empresa, quatro anos depois do 25 de Abril. Foi carregado em

construção civil

Xavier de Lima. O homem humilde que era excêntrico nos negócios

"O meu marido queria a fama do incógnito. Criou um nome maior do que a figura." Palavras da viúva do construtor da Margem Sul que estava à frente do seu tempo e que estendeu o império além-fronteiras. Sempre a sonhar, sempre a comprar, o seu erro foi não saber parar. Morreu há 10 anos.

Estava sentado à mesa à espera dos bifes de peru que gostava que fossem preparados pela mulher, e não pela empregada, quando a vida lhe fugiu num sopro. Eram 13.02 do dia 2 de fevereiro de 2009 quando o coração, já demasiado preocupado com a crise económica, traiu António Xavier de Lima, o maior construtor e vendedor de terrenos da Margem Sul, o homem que permitiu que milhares de pessoas tivessem oportunidade de construir uma casa quando as cidades já estavam esgotadas e que estava à frente do seu tempo nos projetos mirabolantes que desenhava na sua cabeça. Homem simples, que só aprendeu a ler e a escrever na tropa, construiu sozinho um império, comprou palácios, teve uma criação de 800 cavalos lusitanos e nunca parou de sonhar. Foi controverso, a vida e a fortuna alimentaram mitos. E em vida suscitou amores e ódios.

Era também conhecido por AXL. Morreu faz neste sábado dez anos. Nesta manhã, a Junta de Freguesia da Quinta Conde - os terrenos que comprou e transformou em cerca de dez mil lotes para habitação - homenageou-o, ao dar o seu nome a uma avenida. Xavier de Lima deixou um património imenso que levou um forte rombo com a crise imobiliária. Perdeu 60% dos clientes e não há dinheiro para recuperar muito do que está a deteriorar-se. Mesmo que faça doer a alma, admite a viúva, Fátima Lima.

O único filho de AXL, Marco Lima, lembra que o nascimento da Quinta do Conde é considerado o início do império, mas que o negócio foi lançado em Caxias, Alfarim, Azoia e Fernão Ferro. Foi por ali que começou e foi das Paivas, na Amora, onde construiu um edifício gigantesco para a época, que se estendeu além-fronteiras: para Paris, para Toronto, ou para onde houvesse emigrantes que quisessem comprar um poiso para a reforma. Era para lá que mandava os seus vendedores - comprou num único dia uma frota de 60 Mercedes 220, pretos com estofos claros para que atravessassem o país e a Europa. A marca alemã até lhe perguntou se queria ser representante da marca em Portugal, mas declinou. "O negócio dele era a terra, ofereceram-lhe muitos negócios, mas não quis..."

O negócio que lhe granjeou fortuna foi, pois, a terra. Mas a verdade é que se meteu noutros, foi um sonhador. Quis fazer um casino subaquático em Vila Nova de Mil Fontes, comprou o Palácio da Comenda, que agora está em ruínas porque sonhava fazer um pequeno Mónaco na Arrábida, abriu um hotel que está encerrado em Cabeço de Vide e, em Fronteira, comprou o chamado Palácio do Lixo, o edifício que se destaca em Coina, e só não foi viver para lá porque um incêndio destruiu as entranhas do edifício deixando só a estrutura.

"O meu marido tinha um espírito irrequieto. Quando sonhava uma coisa tinha de ir para a frente com ela", justifica Fátima Lima. Era um homem excêntrico? "Nos negócios era excêntrico." Quem fala é o filho Marco, de 34 anos, que, juntamente com a mãe, está à frente dos negócios. Com outra perspetiva, mais comedido nos investimentos e nos negócios. "Fui obrigado a ser mais pragmático e mais racional na utilização dos dinheiros. O erro do meu pai foi não ter sabido parar quando estava no topo. Nunca teve o equilíbrio normal do ser humano, que é ter o património físico e o equivalente em financeiro. Para ele, o dinheiro era para circular."

Marco, que herdou algumas características do pai, como ter de cor todas as datas, nomes, localidades ou metros quadrados de terra, continua: "Entre 2004 e 2006 faturou a maior quantidade de dinheiro que tinha ganho até aqui e criou alguma ilusão. E em vez de ter parado, não. Com 80 anos, dizia a um amigo 'vais ver daqui a 20,25 anos o dinheiro que eu vou ganhar..."

A história de um império que hoje se traduz em património mas falta de tesouraria começa quando António Xavier de Lima, nascido na Quinta do Anjo, Palmela, a 15 de agosto de 1925, pega numa plantação de tomate que estava a morrer. O pai, feitor de uma casa agrícola em Brejos de Azeitão, tinha dado a plantação por perdida e chamou maluco ao filho de 15 anos quando ele garantiu que ia salvar a safra. E salvou. E depois meteu-se a plantar repolhos, morangos, em terras arrendadas. Ia com uma carroça vender os produtos ao Barreiro. Com os ganhos comprou uma carrinha. Passou a abastecer o Mercado da Ribeira. E o negócio foi crescendo.

Sempre a querer mais, passou da terra para os terrenos. Percebeu que mudar de ramo dava mais dinheiro. Comprava e vendia, comprava e vendia e o negócio parecia uma bola de neve. Acreditava que o futuro era Lisboa expandir-se para além do Tejo. E foi isso que fez numa altura em que faltavam terrenos e casas para habitar na Margem Sul. A população, atraída pela indústria da região, como a siderurgia, a CUF, a Lisnave e a Setenave, não tinha onde morar.

Xavier de Lima - "um homem de oportunidades", como o próprio filho o define - soube ver o futuro. Comprou barato terrenos que tinham fraca produção agrícola ou que já não eram explorados, dividiu-os em parcelas, fez arruamentos e deu a preços baixos aquilo que muitos precisavam - um terreno de 300 metros quadrados onde pudessem construir uma casa e cultivar uma horta e que pagavam com letras mensais. Em alguns sítios edificou escolas e, em Fernão Ferro, ajudou a construir a igreja que contou com a presença do cardeal Cerejeira no dia da inauguração.

A divisão em lotes que levou à construção da Quinta do Conde

"Sabemos que nem todos os procedimentos respeitaram a legislação em vigor à época, mas também sabemos que o país enfrentava, no princípio da década de 1970, uma gravíssima crise de habitação, com um défice que ultrapassava o meio milhão de fogos, agravado em meados dessa década com o regresso de muitos portugueses que viviam nas ex-colónias. A 'resposta possível' que António Xavier de Lima então proporcionou, compreendeu 'facilidades' a compradores de parcelas que estes muito valorizaram, patentes no sentimento de gratidão que frequentemente se constata (...)", pode ler-se na proposta da Junta de Freguesia da Quinta do Conde que atribui o nome do construtor a uma avenida, e aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal de Sesimbra.

São muitas as histórias sobre o construtor que se tornou um mito na península de Setúbal. Como a do homem que se acercou dele para lhe dizer que nesse mês não poderia pagar os 500 escudos da letra bancária. AXL sacou da carteira, tirou essa quantia e disse-lhe "vai lá aos escritórios pagar, mas não diga que fui eu que lhe dei o dinheiro."

O próprio presidente da Junta de Freguesia da Quinta do Conde, Vítor Antunes, tem uma dessas histórias para contar. Um dos vendedores de AXL comprou ao próprio Xavier de Lima mais de 50 lotes e só pagou 15 contos (75 euros) por cada um dos 20 contos do custo total (100 euros). Com o 25 de Abril e a intervenção estatal na empresa que obrigou o empresário a fugir, o vendedor, que já tinha vendido os terrenos, achou que não tinha de pagar o restante. Mas tinha e já não era apenas cinco contos por cada um.

Vítor Antunes tinha comprado um desses terrenos. Sempre que Xavier de Lima o via dizia-lhe "o teu lote é meu". Até que decidiram resolver o problema para que o agora autarca pudesse finalmente fazer a escritura do terreno e passá-lo para seu nome. "Ele disse-me 'vamos lá resolver isto, apresenta lá a tua proposta, mas não aceito propostas inferiores a mil contos (cinco mil euros).' Na altura, ele estava a pedir 1500 contos para resolver a situação dos terrenos. Propus os mil contos e ele diz-me 'vai-te embora, que já ganhaste 500 contos'."

O filho tem uma explicação para estas ações: "O meu pai dizia que quanto mais dava mais tinha. Gostava de que as pessoas estivessem bem, porque se não estivessem não compravam e não era bom para o negócio."

Também há o mito de que venderia o mesmo terreno duas vezes, mas tanto o filho como a mulher o negam. Outras pessoas que o conheceram até admitem que isso pudesse acontecer uma vez ou outra, porque os vendedores no estrangeiro, inadvertidamente, o podiam fazer: Mas mal fosse detetado, a questão era logo resolvida pela empresa.

Não tinha estudos mas sabia como fazer fortuna

Mal sabia ler e escrever, mas quem o conheceu diz que tinha uma cabeça fantástica, uma autêntica máquina de calcular. Sabia tudo o que tinha, metro a metro, fazia contas de cabeça como ninguém. E tinha uma perspicácia imensa para os negócios. O seu cérebro não parava... à noite, gostava de ir para a rua, encostar-se ao carro para pensar. E vinha de lá a imaginar uma casa aqui, um hotel acolá. "Fátima, estás a ver, não estás?"

E não precisava de conselheiros ou gestores. Era ele e só ele. "Mesmo que alguém lhe desse uma opinião, só fazia o que entendia," conta Clemente Mitra, que foi comandante dos Bombeiros de Cacilhas, a corporação com que AXL teve uma ligação estreita - foi lá que o seu corpo foi velado e é lá que está o seu busto, que antes esteve nos Bombeiros de Palmela, a sua terra, até à zanga com Otávio Machado.

Num autêntico golpe de mestre, aproveita a realização do Congresso da Associação de Imprensa não Diária do Sul, em Almada, no final de novembro de 1970, para fazer uma verdadeira ação de marketing: convida os jornalistas de órgãos de comunicação social presentes para conhecerem a empresa e os projetos que está a desenvolver na península de Setúbal, nomeadamente nos concelhos do Seixal, Sesimbra e Palmela. E oferece um prémio de 25 contos (125 euros) para as melhores reportagens.

Uma coletânea dessas reportagens foi publicada no livro António Xavier de Lima - O Homem e os Empreendimentos. A reportagem assinada por M.C., do Correio do Vouga, que venceu o 1.º prémio ex aequo, reza assim: "Ao lado da régua e do compasso de arquitetos e engenheiros, andou ali o cérebro do ousado e dinâmico empreendedor que dinâmica e ousadamente meteu ombros à gigantesca tarefa de também ele contribuir, por sua parte, para que, fazendo-se maior a cidade, cada português venha a ter a sua casa na cidade maior."

Carmindo Teles, de O Comércio de Guimarães, e 1.º prémio ex aequo, escreveu: "Quando se retirou, o repórter veio extasiado com o que lhe foi dado a ver. E interrogava-se como um só homem pode ter ideias bastantes para transformar radicalmente a topografia de alguns hectares de terreno estéril que nunca alguém se lembrara aproveitar para as construções, provado como estava que o subsolo é pobre, pouco lucrativo para quem o agricultasse. E pensava no NADA que Xavier de Lima possuía à partida... Se bem que ele saiba que tudo tem de partir do NADA!..."

O 25 de Abril e o regresso em ombros à empresa

"Politicamente era anticomunista, mas estava-se nas tintas para a política. Uma vez mostrou uma santinha e disse "o meu partido é este", diz o atual presidente da Quinta do Conde, eleito pela CDU.

Era garantido o anticomunismo de AXL - ironicamente, foi obrigado a lidar com muitos presidentes de câmara comunistas - ou não tivesse a sua empresa sido intervencionada no 25 de Abril. A mulher, Fátima Lima, recorda esses tempos com clareza. A empresa estava em alta. Tinham casado em agosto de 1974 e acabaram por ter de fugir "com mandado de captura, perseguidos pelo Copcon".

"Era um homem que não tinha ideias revolucionárias, a intenção dele era negociar e fazer-se à vida, tinha um instinto social. Não estava à espera das instituições, o que podia fazer, fazia. E percebia que se não ajudasse o povo, se o povo não estivesse bem, não ia voltar a comprar coisas e o negócio parava. E dava muito às escondidas. 'Toma lá, que a Fátima não veja'", conta a viúva.

"Fomos vítimas da política sem culpa. A vivermos aqueles dramas todos, foi também um período que nos uniu muito." E, ao contrário do que se diz, afirma que não fugiram para o Brasil, que o mais longe que estiveram foi na Galiza, Espanha. Mas a maior parte do tempo viveram em Miramar, com a ajuda de amigos.

"A primeira vez que fomos ao Brasil foi em 1982 e encontrámo-nos com o Tomé Feteira, sobrevoámos a propriedade dele de helicóptero mas o meu marido não estava interessado. Ele era agarrado ao país. Houve uma família rica do Norte que no Parador de Tui lhe pôs 90 mil contos (450 mil euros) à disposição para o meu marido ir para o Brasil e trabalhar lá como trabalhava cá, mas ele disse que não, que a sua vida era aqui."

Regressam às Paivas quatro anos depois da Revolução. No dia 26 de maio de 1978, o casal António e Fátima chegam de carro ao edifício e têm à sua espera uma multidão. Estavam apreensivos, escaldados pelas perseguições políticas. "Não sabíamos se estavam a favor ou se estavam contra nós", diz a viúva.

Mas mal sai do carro, as pessoas aproximam-se, querem abraçá-lo. Houve foguetes. Epicamente, AXL entra no edifício em ombros. Marco Lima mostra a fotografia que documenta esses momentos. "A história do meu pai não pode ser contada sem esta fotografia."

"A comissão de trabalhadores, onde estava um elemento do MFA, explica Vítor Antunes, não granjeou simpatia junto dos trabalhadores que contestavam os métodos."

Não só foi bem recebido como ainda foi homenageado pelos clientes com um almoço onde esteve a deputada Natália Correia, então do PPD/PSD. "Ficou parva com aquela manifestação popular, não havia memória de um homem sem conotação política conseguir agregar todas aquelas pessoas numa paixão, numa amizade, numa gratidão. Ela salta para cima da mesa e faz um comício", recorda Fátima.

A festa teve lugar no Restaurante 4 Castelos, também propriedade de Xavier de Lima e que ficaria bastante conhecido na região - nos anos 80 e 90 muitos casais da região fizeram aqui a cerimónia do copo de água.

Quando foi construído, havia um projeto utópico para o espaço, um pequeno zoo. Mas essa ideia, garante Marco, não foi do seu pai.

Projetos mirabolantes ou visionários?

Xavier de Lima tinha sonhos maiores. Projetos mirabolantes para uns, visionários para outros. Alguns não saíram do papel. Noutros enterrou muito dinheiro sem que tivesse retorno. E há os que estão abandonados, à espera de uma solução negocial como o hotel de Cabeço de Vide, em Fronteira - ainda esteve aberto durante quatro anos mas acabaria por ser encerrado por dar muito prejuízo. "Não temos vocação para hoteleiros", diz, perentório, Marco Lima.

Para trás ficou também o Real Resort Dona Maria, também nesta zona do Alentejo, que previa a construção de 432 moradias, uma unidade hoteleira, uma barragem que chegou a ser melhorada para a prática de desportos náuticos, um centro hípico e um campo de golfe com 18 buracos. Ainda foram feitas as estradas principais, e parte da rede elétrica. Mas ficou por aqui. A situação financeira não permitiu avançar.

Outros projetos glamorosos esbarraram nas regras da proteção da natureza. Como o "pequeno Mónaco" que AXL sonhou para a Quinta da Comenda, na Serra da Arrábida. O palácio, uma obra assinada por Raul Lino, onde membros da família Kennedy e Truman Capote chegaram a veranear, está à venda por 50 milhões de euros. Mas ao mesmo tempo que se espera que um milionário lhe pegue, o edifício vai-se degradando mais e mais. Aguarda-se entretanto a sua classificação como edifício de interesse nacional.

O casino subaquático para Vila Nova de Mil Fontes, no Litoral Alentejano, era um projeto dos anos 80 tecnicamente viável, mas não obteve as devidas aprovações governamentais. Esteve esquecido durante cerca de duas décadas e foi retomado em 2005/2006 mas já sem o casino - previa dessa vez condomínios privados e campos de golfe. Ao mesmo tempo, avançava o projeto para Aljezur, com uma vertente mais ecológica. "Ambos esbarraram na Conservação da Natureza com argumentos na nossa opinião demasiado violentos. No caso de Mil Fontes, dizia-se que era zona protegida mas na carta de proteção da natureza estava mal catalogado. Ainda nos propusemos a corrigir mas não quiseram, era mais fácil dizer que não", explica o herdeiro.

Há outro edifício extraordinário propriedade da família, o Palácio do Rei do Lixo, que se impõe na paisagem quando se passa por Coina ou pela Quinta do Conde. Mas para esse António e Fátima tinha um projeto pessoal - ir para lá viver. Mas não puderam, porque a acreditar no mito cumpriu-se a maldição.

O Rei do Lixo, que negociava a levar o lixo de Lisboa para a Ribeira de Coina, era de Alcácer do Sal e quis construir um palácio com altura suficiente para poder ver a sua terra. Terá construído a casa obedecendo a todas as regras maçónicas e dito que se ele não chegasse a habitá-la mais ninguém o faria. O casal AXL comprou a propriedade e pensou mudar-se para lá. Fátima Lima diz que a casa era lindíssima, toda trabalhada em madeiras. Quando já estavam a avançar com os empreiteiros para as obras de recuperação, numa noite, misteriosamente, ardeu tudo. Só ficaram as paredes, o esqueleto do palácio que ainda hoje se avista. Cumpriu-se a maldição?

Vitória de Setúbal: o presidente que gostava de dar prémios aos jogadores

Quando morreu, uma das bandeiras que António Xavier de Lima levava sobre o caixão era a o Vitória de Setúbal, clube do coração de que era presidente quando se deu o 25 de Abril de 1974. Carlos Cardoso, agora com 74 anos, era então o capitão de equipa e lembra-se que "foi um presidente que fez alguma coisa pelo Vitória que nessa altura tinha uma equipa de grande valor." Até foi buscar o Augusto Matine ao Benfica.

Aqueles eram os tempos áureos do Vitória, que participava nas competições europeias. Tinha nomes como Torres, Tebelo, José Mendes, Carriço, Octávio Machado... Tomé tinha ido nessa época para o Sporting. Cardoso ainda se ri ao recordar aquele dia em que numa competição da UEFA, na Bélgica, o presidente entra no balneário e se dirige à equipa com grande satisfação: "Rapaziada, quer ganhem quer percam, vão ter um prémio no final do jogo." E, conta Cardoso, um diretor da tesouraria interrompe-o para dizer que não pode ser assim, já há os prémios estipulados. Reposta de Xavier de Lima: "Não me casei para não aturar mulheres [casaria em agosto de 74] e está você agora a querer mandar no meu dinheiro."

AXL não era um homem de muitas conversas, era mais de ação. "Mandou alcatroar todo o pavimento à volta do estádio, trouxe os empregados e as máquinas, e o pavimento ainda aí está", aponta Cardoso, que se lembra sobretudo da generosidade do presidente e dos prémios que oferecia aos jogadores, dos almoços e dos transportes que proporcionava.

O benemérito dos bombeiros da Margem Sul

António Xavier de Lima foi o maior benemérito que os bombeiros da Península de Setúbal conheceram até hoje. Só de uma vez ofereceu 15 ambulâncias medicalizadas que distribuiu pelas corporações de Cacilhas, Almada, Barreiro, Águas de Moura, Setúbal, entre outras, cada uma com valores a rondar os 55/60 mil euros. Por tudo o que fez pelos bombeiros, foi agraciado com o crachá de ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses, uma distinção rara a "civis".

Com os bombeiros de Cacilhas tinha uma ligação especial. Clemente Mitra lembra-o como "o último grande benemérito dos soldados da paz de Cacilhas". E se é verdade que o apoio que dava aos bombeiros lhe granjeava a simpatia social e até alguns benefícios fiscais, "outros também podiam ter feito o que ele fez e não o fizeram."

Depois da morte do fundador, - devido à situação económica da empresa - acabou o tempo das grandes ajudas aos bombeiros. Os 150 mil euros que ALX tinha prometido para a construção do novo quartel da corporação de Águas de Moura, por exemplo, já não chegaram. "A família argumentou que a altura não era boa, não era propícia. E nós compreendemos isso", diz José Cardoso, agora presidente da assembleia-geral daquela corporação. A última ambulância que AXL ofereceu a Águas de Moura já viria a ser batizada pela viúva Fátima Lima, em junho de 2000.

E embora os tempos sejam outros, os Bombeiros de Cacilhas não esquecem o seu grande benemérito. Sempre que a corporação faz anos, deslocam-se ao jazigo de Xavier de Lima, em Azeitão. Já antes o faziam para homenagear a família dele com uma palma de flores.

Clemente Mitra lembra-se de um desses dias, já os miúdos da fanfarra estavam dentro do autocarro, e AXL seguia para o seu Rolls Royce, toda a gente pronta para sair de Azeitão. O comandante de Cacilhas tinha decidido que não lhe iria pedir nada, intuía que ele não gostava de pedinchices. "Ouço bater no carro. 'Olha lá, não precisas de nada, de uma carrinha destas?' Respondi que sim, que precisávamos de uma ambulância e ele responde-me para a arranjar que depois a pagava."

O comandante, agora presidente da direção, privou muito com Xavier de Lima. Recorda um homem humilde nas origens, mas "esperto e com um grande feeling para os negócios, de decisões e ideias fixas, um visionário." Assistiu a vários episódios que traduzem o seu caráter e a forma de estar na vida. Como o dia em que foi aos Quatro Castelos buscar um carro e era o aniversário de Marco - "o filho fazia entre oito ou dez anos, no máximo". "O rapaz veio ao pé do pai a dizer que tinha ali os amigos da escola e queriam andar de bicicleta, mas só tinham quatro. Ele tirou um maço de notas do bolso, virou-se para um empregado e disse-lhe 'vai ali à Makro comprar 20 bicicletas'. Como ele era, é natural que quando foram para casa, cada um levasse a sua."

O antigo comandante dos Bombeiros de Cacilhas lembra-se ainda do dia em que nos escritórios assistiu a um homem de idade ir entregar a AXL o livrete e o Mercedes que tinha comprado à comissão de trabalhadores que tomou conta da empresa depois do 25 de abril. "Ele gritou para a secretária 'Ó Natália, traz-me uma declaração de venda.' E à minha frente assinou, com aquelas letras de uma ponta à outra da folha, a declaração de venda e virou-se para o homem: 'como é uma pessoa honesta e frontal, o carro agora é seu'. Aos outros mando-os apreender todos." Eram 60 Mercedes.

É assim que é recordado por muitos: "Sentia-se que se estava a falar com uma pessoa simples, humilde, que não tinha nada a ver com a fortuna que tinha, mas não era qualquer um que lhe punha um travão", diz, por seu turno, José Cardoso, presidente da Assembleia-geral da Associação de Bombeiros de Águas de Moura.

Era um homem que pensava à frente, mas era avesso a protagonismos na imprensa. A frase de Fátima Lima resume muito do que foi. "O meu marido queria a fama do incógnito. Criou um nome maior do que a figura."

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