Tempestade varreu Soure, Montemor e Figueira da Foz: "Isto foi uma coisa nunca vista"

Árvores centenárias arrancadas, coberturas que voaram centenas de metros, telhados que levantaram, vidros partidos, carros destroçados. A tempestade deixou um rasto de destruição nos distritos de Coimbra e Leiria, onde os populares temeram não ficar para contar a história. O DN acompanhou-os hoje à medida que descobriam os prejuízos

De mãos nos bolsos, e olhar incrédulo, Francisco Silva passeava-se ontem à tarde nas ruas do centro da vila de Soure, a avaliar os estragos que a tempestade tropical Leslie fez na terra onde nasceu. Aos 86 anos julgou já ter visto de tudo: a neve, nos anos 1980, as cheias ocasionais, o fogo dos anos 2003 e 2017. Mas a noite passada as rajadas de vento foram tão fortes que arrancaram quase todas as árvores dos jardins e pracetas da vila, arrastaram a cobertura de uma empresa de materiais de construção por várias dezenas de metros, partindo, à sua passagem, pedaços de portas, passeios e vidraças. Uma vila em estado de sítio.

Foi esse o cenário que o DN encontrou este domingo à tarde, numa altura em que os cafés permaneciam fechados - devido à falta de eletricidade, água e comunicações - e a Câmara Municipal, ao contrário, de portas abertas. Horas antes, o presidente, Mário Jorge Nunes, decretara ali o estado de calamidade pública, depois do banho de realidade pela manhã: destruição de telhados, coberturas, ruas e passeios. Nem o cemitério da vila escapou à fúria do vento.

"Se isto calha a ser de dia, matava aqui uns quantos", desabafa Henrique, o coveiro, enquanto vai arredando vidros e pedras do chão. Há jazigos abertos, sem porta, e o funcionário municipal teme que os proprietários ainda nem saibam do sucedido. Não admira. Afinal, não há telefones desde a madrugada. Por toda a parte circulam carrinhas da câmara, munidos de maquinaria diversa, onde nunca falta o motosserra, para ajudar a desbloquear vias. Entre Soure e as freguesias várias foram as estradas municipais e secundárias que ficaram interditas, graças à queda de árvores. Mas ao princípio da tarde já se circulava sem problemas entre as localidades de Vila Nova de Anços e Alfarelos, onde os populares subiam aos telhados para repor as coberturas que o vento levou.

Não muito longe dali, na freguesia de Louriçal, já no concelho de Pombal, na fronteira com o distrito de Leiria, o cenário era idêntico: as juntas não tinham mãos a medir no corte de árvores para desimpedir as estradas, os populares faziam o que podiam para minorar os danos nas casas e barracões.

"O grande problema neste momento é a energia elétrica, porque a EDP não sabe quando poderá retomar o fornecimento. Em 2013, numa situação um pouco semelhante, estivemos quatro dias sem eletricidade", recordava de manhã à Agência Lusa o presidente da Câmara de Soure. Ao mesmo tempo, no vizinho concelho de Montemor-o-velho, o presidente Emílio Torrão apelava ao Governo que fosse ao local. "Pode parecer um lugar comum, mas é preciso ver o que aqui aconteceu para compreender".

Não demorou muito para que o ministro da Administração Interna lhe desse ouvidos. Às 16 horas já Eduardo Cabrita percebia a dimensão das palavras do autarca, certificando-se que a escola básica da Carapinheira não poderia reabrir. E não se trata apenas de manhã - em que todas as escolas dos concelhos mais afetados vão permanecer fechadas - mas antes de um problema mais sério. Para já, Cabrita falou no caso ao ministro da Educação, e em conjunto decidiram apostar numa estrutura de substituição, em monoblocos.

O caos na marginal da Figueira

Habituada aos ventos fortes - que há muito se tornaram até uma imagem colada aos verões daquelas praias - a Figueira da Foz abanou por todos os lados na noite de ontem, quando as rajadas atingiram os 170 km/hora. A luz elétrica foi-se muito cedo, e por isso só a luz do dia trouxe aos habitantes e responsáveis municipais a verdadeira dimensão da catástrofe: restaurantes (sobretudo as esplanadas) destruídos, várias empresas do parque industrial danificadas, um parque de campismo quase destruído, árvores que invadiram a marginal, habitações e comércios afetados, automóveis submersos na copa das árvores, areia por toda a parte.

Sem luz nem comunicações (as redes de telemóvel falharam logo a seguir às primeiras rajadas), o concelho ficou em grande parte incontactável. E de pouco valeu o apelo do presidente da Câmara para que os mirones evitassem passear-se na marginal a ver os estragos. Ao final da tarde, era uma fila compacta que começava em Buarcos e terminava junto ao Clube de Ténis, onde todos queriam parar para fotografar a estrutura danificada. E ainda antes, um mercedes preto que ainda lá estava, debaixo de uma árvore. Foi a essa hora que o ministro entrou no carro com o presidente da Câmara, a presidente da CCDR, Ana Abrunhosa, e os responsáveis da Proteção Civil para percorrer as zonas mais afetadas.

"As estruturas de Proteção Civil estiveram à altura das suas responsabilidades e houve cooperação eficaz entre estruturas distritais, nacionais e proteção civil municipal", disse Eduardo Cabrita no final dessa visita, sublinhando que "as forças de segurança permitiram que no local onde a tempestade entrou em terra tenha sido possível proteger as pessoas, garantindo que não houve nenhuma perda de vida". O ministro haveria de vincar isso mesmo várias vezes, tal como o presidente da Câmara, nomeadamente quando confrontados com o facto de não ter sido fechada ao trânsito a ponte da Figueira.

Em Buarcos, na Gala, na zona das Abadias - locais onde a destruição era mais evidente - os populares apontavam não terem sido avisados pela Proteção Civil para a gravidade da tempestade. Mas João Ataíde e Nuno Osório - comandante municipal da Proteção Civil, desmentem categoricamente a acusação. "Emitimos todos os alertas indicados pela Autoridade Nacional. Estava previsto que a tempestade entrasse em Lisboa e não nesta zona. Seguimos todos os mecanismos de prudência. A ponte não foi fechada porque não recebemos orientações nesse sentido", disse o autarca, acrescentando que "sendo uma obra do eng. Aguiar Cardoso, está preparada até para um sismo de elevado grau. Além disso foi feito apelo a que as pessoas não circulassem".

A acalmia ocorreu por volta da meia noite e meia, "e não houve registo nenhum de feridos ou mortos, ou mesmo de acidentes em circulação", concluiu. Se foi feito tudo o que era possível? "Foram feitos todos os alertas e garantidos os meios de apoio. Acabámos por enfrentar um fenómeno nunca dantes visto, uma coisa absolutamente inédita. Para uma realidade que é inédita, acho que a comissão de proteção civil fez o que devia fazer", disse.

Avaliar os estragos a partir de amanhã

Antes de rumar a Soure, ao princípio da noite, o ministro ainda teve tempo de dizer aos jornalistas que a avaliação dos danos começa já amanhã, com a CCDR, Câmara e juntas de freguesia. Este triunvirato fará a a avaliação em três categorias: empresas afetadas, danos em habitações e também em equipamentos municipais e públicos.

Eduardo Cabrita não esclareceu se o Governo vai ou não criar um mecanismo de apoio idêntico aos dos incêndios. Só depois da avaliação de danos tomará decisão. "É algo totalmente diferente, felizmente", disse.

As 1.890 ocorrências registadas pela Protecção Civil dividem-se em 1.218 quedas de árvores, 53 movimentos de massas, 98 inundações, 441 quedas de estruturas e 75 limpezas de vias. A ANPC registou ainda 27 feridos ligeiros, três pessoas assistidas no local, 61 desalojados "devido a casas destelhadas ou quedas de árvores sobre habitações" e que conseguiram, maioritariamente, encontrar alojamento junto de familiares, não havendo "situações críticas" nesta matéria.

O corte de energia, que afetou um total de 324.400 pessoas, de acordo com os números da ANPC, tem particular incidência nos distritos de Coimbra e Leiria, que se encontram nos concelhos de Soure e Figueira da Foz com Pombal.

A passagem da tempestade Leslie provocou ocorrências maioritariamente em Coimbra, Leiria, Aveiro, Viseu, Lisboa e Porto, por esta ordem quanto ao número de incidências. A zona costeira foi fortemente afetada pela fúria do vento, nomeadamente nas praias da Vieira e Pedrógão, no concelho de Leiria, onde quase todas as estruturas de apoio ficaram destruídas. Recorde-se que há um ano atrás aquela região era alvo de outro tipo de destruição, pelo fogo.

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