Santa Maria. Suspensos internamentos onde foi descoberto covid-19

Os dois homens que foram internados há vários dias com pneumonia deram positivo para o coronavírus e não deverão fazer parte das seis cadeias de transmissão ativas. Testes entretanto realizados a profissionais da saúde e a outros doentes foram negativos

O Hospital de Santa Maria vai suspender os internamentos nas duas enfermarias onde foram descobertos os dois casos de doentes que ali ingressaram com pneumonia e que deram positivo no teste ao coronavírus. E, só em caso de não haver outra resposta do Serviço Nacional de Saúde, é que aceitará transferências de outros hospitais.

Nesta quarta-feira soube-se que dois homens, um deles com idade mais avançada, a quem tinha sido diagnosticada pneumonia, estão contaminados com o novo coronavírus - um dos doentes estava internado desde sábado e outro há uma semana. São casos que, de acordo com a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, "aparentemente não fazem parte das seis cadeias de transmissão ativas e provavelmente não são casos importados", mas sim casos de transmissão secundária.

Entre as medidas para conter a propagação do vírus, o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN), a que pertence o Santa Maria, está também a realizar testes a todos os doentes daquelas enfermarias e a identificar os profissionais que tiveram contacto com estes doentes com vista à realização dos testes ao covid-19, distribuídos por três níveis de risco - até agora, todos testaram negativo, mas aguardam-se outros resultados, conforme referiu esta noite Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, na conferência de imprensa no Ministério da Saúde em que se fez o balanço epidemiológico diário.

Poucas horas depois de ter sido divulgado o caso dos dois doentes infetados, a Federação Nacional dos Médicos acusou o Hospital de Santa Maria de não estar a isolar os profissionais que estiveram em contacto com os dois doentes infetados com covid-19 e que pretende que se mantenham a trabalhar com máscara. "Não se compreende como é que uma administração hospitalar toma para si decisões que são do foro da Autoridade de Saúde, mais ainda pretendendo impor aos seus trabalhadores medidas discriminatórias em relação a qualquer outra pessoa", diz a FNAM, considerando que se trata de um "comportamento inaceitável".

Fonte hospitalar garantiu ao DN que os profissionais que estão a ser submetidos a testes estão em isolamento até serem conhecidos os resultados. Se testarem negativo, podem sair do isolamento.

Médicos que contactaram doentes vão usar máscara

Os hospital dividiu estes profissionais em três grupos: os sintomáticos, os assintomáticos e os assintomáticos de risco (os que, por exemplo, contactaram com o doente mais de 15 minutos e a menos de dois metros).

No caso dos sintomáticos e dos assintomáticos de risco, se o teste der negativo e se for considerado que pode continuar a trabalhar, devem fazê-lo com máscara e com vigilância ativa durante 14 dias. No caso de testarem positivo, segue-se o protocolo. Para os outros assintomáticos, está prevista uma vigilância ativa e igualmente o uso de máscaras.

Graça Freitas reagiu às críticas da FNAM e afirmou que está a ser aplicado o protocolo estabelecido internacionalmente para os contactos com doentes infetados. "Temos que dizer que estamos perante uma epidemia, que vai ter consequências nas nossas vidas, que tem muitas coisas desconhecidas, mas há procedimentos definidos." Para acrescentar: "As autoridades de saúde e o hospital de Santa Maria, um hospital universitário, saberão como tratar os seus funcionários."

Alteração de critérios trará mais casos

No conjunto de medidas tomadas depois de serem conhecidos os dois casos de coronavírus, o maior hospital do país está também a identificar os doentes que entretanto tiveram alta, mas que se cruzaram nas enfermarias com os dois homens infetados com covid-19.

A administração do Santa Maria decidiu ainda cancelar as visitas aos doentes internados nas enfermarias onde foram identificados os casos positivos e recusa as transferências de doentes de outros hospitais - esta intenção só será alterada caso o Serviço Nacional de Saúde não apresente outra alternativa.

A deteção dos dois casos de coronavírus em doentes já internados com outras patologias identificadas foi possível porque os critérios mudaram, ou seja, passaram a ser feitos testes ao novo coronavírus a quem sofre de doenças respiratórias graves, conforme foi anunciado na segunda-feira passada pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

A alteração destes critérios levará ao aumento de mais casos como o de Santa Maria, admitiu Graça Freitas.

Inquéritos aos doentes foram muito direcionados?

José Miguel Azevedo-Pereira, professor de virologia da Faculdade de Farmácia da Universidde de Lisboa, questiona-se como é possível surgirem doentes hospitalizados com pneumonia sem terem sido sujeitos ao teste do covid-19 quando já se sabe há, pelo menos, dois meses da circulação do vírus.

Falando destas situações em abstrato - até porque desconhecia as circunstâncias do que se passou em Santa Maria - entende que uma possível justificação para uma "situação grave" destas acontecer pode ser o facto de os inquéritos dirigidos aos doentes terem sido muito direcionados. Ou seja: esteve em zonas de risco?, contactou com pessoas que tenham estado em zonas de risco? E, no caso de ter sido assim tão específico, não ter sido apanhado pelo algoritmo como sendo um caso suspeito do novo coronavírus.

"A hipótese que coloco é que, como não se tratava de alguém que fez uma viagem zonas de risco, a situação foi descartada, não por incúria, mas pelo algoritmo", afirma José Miguel Azevedo-Pereira.

Já Rui Nogueira, presidente da Associação de Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, começa por dizer que trabalha num centro de saúde e não num hospital, mas refere que até aqui todas as cadeias de transmissão estão vigiadas e contidas, conhecendo-se a ligação a todos os casos de infeção com coronavírus. "Controlar uma cadeia de transmissão num hospital é muito complicado. Se no limite um hospital tivesse que fechar, seria dramático, os custos nunca compensariam os ganhos."

E faz questão de frisar que até aqui a grande preocupação tem sido que os profissionais de saúde não sejam eles próprios veículos difusores do problema através da infeção pelo coronavírus. Também José Miguel Azevedo-Pereira refere que este tipo de situações põem em cheque a saúde de quem faz as instituições a funcionar. "Se estes, que já são poucos, adoecem, é muito grave."

(notícia atualizada às 22:44)

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