Rentes de Carvalho explica o fascínio dos portugueses

Cresceu pelo quarto ano consecutivo o número de portugueses que foi viver para a Holanda. O escritor português José Rentes de Carvalho vive há décadas nesse país e não o trocava por nenhum outro.

Se tivesse de escolher um país onde viver, José Rentes de Carvalho escolheria a Holanda. Para o escritor português não existe outro "paraíso" mais sedutor: "Aos noventa anos a resposta é óbvia, mas se tivesse de novo vinte e seis de certeza ficava."

Não é o único português que pensa deste modo, pois nos últimos quatro anos a Holanda tem assistido ao crescimento do número de cidadãos portugueses a escolher este país para viver. De acordo com os dados do instituto de estatística holandês, no ano passado atingiram os 2841.

Nos três anos anteriores, esse número fora sempre superior aos dois milhares, o mesmo se tendo verificado já em 2008, 2012 e 2013. Um valor que só contrasta com os 830 emigrantes em 2005.

Este "êxodo" acontece para um país que é muito crítico para com os países do sul da Europa. Rentes de Carvalho estranha essa marcha com destino à Holanda e adianta que só poderá ser de "pessoal especializado". A sua explicação é simples: "A situação atual deixa poucas ou nenhumas oportunidades a quem não tiver qualificações."

O escritor vive há décadas na Holanda e considera que a sua opção não teve a ver com a dos 2841 portugueses que em 2019 escolheram a Holanda para viver: "Vim de Paris para fazer um trabalho no Departamento Comercial da Embaixada do Brasil em Amesterdão, com o compromisso de ficar duas semanas, mas o Destino resolveu doutra maneira e ainda hoje lhe dou graças.".

Quanto às divergências constantemente assinaladas pelos governantes holandeses sobre sucessivos estender de mão de países como Portugal a fundos e apoios europeus, Rentes de Carvalho considera que não são só os governantes que são críticos: "Uma boa parte da população pensa o mesmo, tanto mais que têm a tributação mais elevada da Europa, e pergunta-se por que carga de água devem pagar a desorganização, a corrupção e o desleixo dos outros."

Quando se pergunta porque, apesar de os dois países terem pontos comuns nas suas histórias, designadamente a nível dos tempos coloniais, e um país ser rico e o outro remediado, Rentes de Carvalho vai direto à questão: "A mentalidade protestante dos holandeses é toda voltada para a frugalidade, nada de chapa ganha chapa gasta, e a obsessão da poupança faz dela uma das nações mais ricas do mundo. Há ainda a seriedade no trabalho, a pontualidade, o cumprimento das obrigações, a disciplina. O espírito mercantil também ajuda. E já no século XVII a Universidade levava muito a sério o estudo científico, de que desde então tiram bons proveitos."

Reconhecimento na Holanda

Em entrevista por ocasião dos seus 90 anos em maio deste ano, já Rentes de Carvalho tinha feito comentários sobre o perfil dos portugueses quando se lhe recordou uma frase do seu livro Pó, Cinza e Recordações em que afirmava "Se estou em Portugal, torna-se-me difícil ser severo." A resposta que deu foi a seguinte: "Quando estou em Portugal, dá-me mais pena o confronto com o que vai mal, a ingénua ou fingida docilidade com que o povo se deixa enganar, a confiança que continua a ter no jeito e na cunha, do que resulta uma sociedade que não acredita no poder que tem e por desleixo ou preguiça acomoda-se na passividade, iludindo-se de que o passo de caracol também é um avanço."

Quanto às críticas oficiais portuguesas [de António Costa] sobre afirmações severas contra Portugal por um ministro holandês, o escritor foi claro: "De modo geral, as explosões verbais dos políticos não podem ser levadas a sério, menos ainda neste caso em que o sentimento de 'repugnância' era um efeito teatral dirigido à plateia, pois quando se sentam à mesa para tomar decisões todos eles sabem que não manda quem mais berra a exigir, mas quem tem a carteira na mão e nos dedos o poder de desapertar os cordões."

Uma coisa é certa, Rentes de Carvalho vive na Holanda há muitos anos e não sente algum constrangimento em relação ao português que existe em si: "Bem ao contrário. Faça a busca do meu nome no Google, verá que as entradas holandesas excedem as portuguesas. Perdoe a involuntária vaidade a que me obriga: na Holanda consideram-me um escritor holandês e têm honra nisso, ao longo dos muitos anos tanto as pessoas, como as autoridades, os políticos, os burgomestres de Amesterdão, ministros de vários governos e a própria Família Real, sempre me acolheram com excecionais provas de carinho e cordialidade. Ainda no Google, procure no Arquivo de Amesterdão - Stadsarchief Amsterdam - Rentes de Carvalho e verá que a cidade lá guarda o meu retrato entre os que se orgulha de que nela vivem, trabalham e contam."

Se estas palavras se cumprirem para uma parte dos 2841 portugueses que buscaram a sorte na Holanda em 2019, então foi uma aposta ganha.

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