Racismo na PSP: vítima de agressões chora convulsivamente em tribunal

Flávio Almada foi ouvido pelo tribunal na manhã desta sexta-feira. A sessão teve de ser interrompida quando as palavras de Flávio, 35 anos, foram afogadas pelo seu choro quando descrevia as juízes o que tinha sofrido na esquadra de Alfragide

Foi quando descrevia ao coletivo de juízes que se tinha passado dentro da esquadra da PSP de Alfragide, depois da detenção, que Flávio Almada começou a fraquejar. As palavras saíram-lhe já engasgadas quando contava que tinham sido atirados para o chão (ele e os outros três jovens que a polícia alega que tentaram invadir a esquadra) ao som de insultos racistas. Flávio é uma das principais testemunhas que sustentam a acusação do Ministério Público (MP) contra 18 polícias, pelos crimes de sequestro, torturas, agressões graves, falso testemunho, motivados pelo ódio racial. Tudo foi negado por todos os agentes que já depuseram em tribunal.

"Disseram 'lixo é para o chão' e fomos atirados para o chão algemados, depois bateram, bateram e pisavam-nos, diziam 'pretos do caralho', levei um pontapé na cara e fiquei cheio de sangue, pisavam e insultavam", recordava dolorosamente Flávio, que pertencia na altura (fevereiro de 2015) e ainda pertence à Associação Cultural Moinho da Juventude, onde trabalha na formação social de crianças e jovens.

Neste momento as suas palavras já eram entrecortadas com soluços e a juíza presidente Ester Pacheco perguntou se queria fazer um intervalo. Flávio respirou fundo e acenou, respondeu que não e tentou avançar. "Estávamos do chão e eles pisavam e insultavam, Eles estavam a gostar aquilo. Ficaram felizes", lembrava em lágrimas. "Veja lá se não quer interromper...", insistia Ester Pacheco.

Flávio achou que conseguia e quis contar quando se apercebeu que tinham detido o Rui Moniz, outro dos jovens do grupo das seis alegadas vítimas, que tem uma das mãos paralisada por causa de um AVC que sofreu. "Estavam a tentar algemá-lo e a mão não esticava por causa do problema dele. Quando ele disse que tinha tido um AVC, um agente disse que isso não e a nada que agora é que ia apanhar um a sério. Depois viram o cartão de cidadão dele e disseram "olha é pretoguês". E davam pontapés, e insultos. Parecia um Inferno..."

Flávio aqui tem mesmo de parar porque o choro lhe afogou totalmente as palavras. O corpo alto e franzino dobrou-se sobre os joelhos e todo ele chorou convulsivamente. A juíza presidente interrompeu a sessão. Na sala nada mais se ouve senão Flávio. Moradores da Cova Moura, pessoas do Moinho da Juventude e outros dirigentes associativos antirracismo estavam em silêncio, com as caras inundadas de lágrimas.

Mais à frente, quase no final da sessão, Ester Pacheco perguntou a Flávio como é que aqueles acontecimentos tinham afetado ou ainda afetavam a sua vida. Já tinha tido a resposta: mais de um ano e sete meses depois, a dor daquela memória ainda o domina. "Estou um pouco melhor, durante muito tempo não conseguia dormir, isolei-me. Sentia-me humilhado quando os miúdos lá do Moinho me perguntavam o que tinha acontecido. Vou carregar isto para o resto da vida", respondeu ainda assim.

"Estava tão assustado"

Reiniciada a audição, Flávio repetiu o que tinha descrito aos investigadores da PJ e que faz parte da acusação, quanto a insultos ouvidos ("Não sabem o quanto vos odeio raça do caralho, se pudesse eram todos exterminados", "Deviam era alistar-se no Estado Islâmico", "Se eu mandasse fazia uma lei para os mandar esterilizar a todos") e quanto às agressões, que continuavam sempre. "Sempre que tentávamos levantar a cabeça éramos pisados. Ouvia o Paulo e o Rui a gritar", afirmou.

Com Ester Pacheco a questioná-lo exaustivamente sobre todos o detalhes da detenção e sobre o início das agressões, Flávio negou que o grupo de jovens tivesse tentado invadir a esquadra e garantiu que ali se tinham dirigido apenas para saber de Bruno Lopes, detido momentos antes no bairro, aproveitando para revelar que é formador no Moinho da Juventude de "Comunicação não violenta" (método Marshall Rosenberg).

"Quando percebi pela postura do agente que não valia a pena, pois qualquer coisa que eu dissesse ia dar em conflito, recuámos, mas de repente saíram muitos agentes da esquadra e começaram a bater-nos. Caí no chão, o Celso (Lopes) levou um tiro (balas de borracha), caiu no chão. Virou-se para mim e disse 'olha o que nos estão a fazer'. Fiquei petrificado, não conseguia mexer-me, estava tão assustado", assinalou.

A juíza presente insistiu em saber porque tinha acontecido aquilo quando, pelo que contava Flávio, só tinham ido perguntar pelo jovem detido, um procedimento que até era comum por parte dos membros da Associação Moinho da Juventude, sempre que havia uma situação de conflito com a polícia no bairro. "Mas quando o agente disse que não os iam deixar entrar, nenhum de vós disse que ia entrar de qualquer maneira?", questionou a magistrada. "Não ouvi ninguém dizer isso e eu não disse", garantiu.

Depois também o procurador do MP, Manuel das Dores, insistiu: "mas quando o agente vos disse que não iam falar com ninguém, insistem?". Flávio: "Perguntei porquê". Juíza presidente: "Naturalíssimo, tinham feito todo aquele caminho desde o bairro com um objetivo. Não iam ter uma entrada de leão e saída de rato". Flávio: "uma das coisas que aprendi na comunicação não violenta é que o importante é não pressionar as pessoas, é preciso afastar-nos para não dar em conflito e eu percebi pela postura do agente que se eu dissesse alguma coisa ele se ia sentir desafiado. Vi que não valia a pena. Aprendemos a não ostracizar, nem salientar a agressividade da pessoa, a criar empatia. Se disséssemos que íamos entrar o diálogo era complicado". Juíza: "sentiu que o momento estava perdido?". Flávio: "Sim. Considerei que o melhor era não pressionar".

Segundo Flávio, antes de serem levados ao hospital, o grupo de jovens foi ainda levado a uma outra esquadra na Damaia, para serem "fotografados e fichados", mas que no caso dele e do Miguel um agente disse que eram melhor não pois tinham a cara demasiado "inflamada". Nessa noite dormiram nas celas do Comando Metropolitano de Lisboa, na manhã de dia seis foram ao tribunal para o primeiro interrogatório judicial - na altura como arguidos pela tentativa de invasão de esquadra - mas regressaram às celas sem essa diligência.

Só foram ouvidos pelo primeiro juiz, em Sintra, no dia sete de fevereiro, dois dias depois da detenção. Na ocasião o MP pediu a prisão preventiva para os seis jovens, mas o tribunal deixou-os em liberdade com Termo de Identidade e Residência e obrigação de se apresentarem semanalmente à esquadra da PSP. Nesta altura deu entrada a queixa contra os polícias.

A audição prolongou-se e não houve tempo para os advogados de defesa dos agentes interrogarem Flávio, que voltará ao tribunal na próxima terça-feira, juntamente com Celso Lopes e Miguel Reis, outras das alegadas vítimas.

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