Noite de Lisboa. A pandemia criou um novo conceito: o restaurante cocktail bar

O DN foi ver como está a noite lisboeta em tempos de pandemia. Bebemos uma cerveja no Cais do Sodré, uma caipirinha no Bairro Alto e um gin na Bica sem gastar um cêntimo em comida. À 01.00 fecha tudo.

A Área Metropolitana de Lisboa (AML) vive numa situação de contingência. As medidas mais restritivas no âmbito da pandemia aplicam-se aos bares e às discotecas, que se mantêm encerrados, e à proibição do consumo de bebidas alcoólicas depois das 20.00 se não forem para acompanhar uma refeição.

O DN foi ver como as medidas estão a ser aplicadas na noite lisboeta, que, nesta sexta-feira (28 de agosto), tinha algum movimento. Isto apesar da pandemia e de ser o mês de agosto, em que muitos lisboetas estão de férias. Em contrapartida, é o fim do mês, o que significa "dinheiro fresco".

Gente muito jovem, também turistas, mas que, segundo os responsáveis da restauração, significa menos poder de compra. A afluência está a aumentar, ainda assim, muito aquém do rebuliço de outros verões. Até agora, a melhor semana para o negócio noturno foi a da final da Liga dos Campeões, de 17 a 23 de agosto, em que receberam os alemães e os franceses.

Encontrámos bares que nunca deixaram de ser só bares, discotecas transformadas em restaurantes, restaurantes transformados em bares. E um novo conceito: o restaurante cocktail bar, cujo título está escrito nos espaços da noite. Concluímos que é possível beber uma bebida alcoólica sem gastar um centavo em comida.

Bebemos uma cerveja no Cais do Sodré, uma caipirinha no Bairro Alto e um gin na Bica. Só não bebemos mais porque o último lugar onde conseguimos entrar foi às 00.15 (é obrigatório encerrar as portas às 00.00), com muita gente no interior e a consumir até ao encerramento definitivo obrigatório, à 01.00.

Em outros locais, basta umas azeitonas para justificar que se trata de um serviço de refeição. Também pode ser um pastel salgado, uma sobremesa ou tapas. Mas, se é verdade que, ao início da noite, há sempre um pratinho ao lado de um copo, até um bolo ou pastel partilhado, com o passar das horas os copos já só acompanham outros copos. O que parece dar razão a quem critica "a arbitrariedade das medidas" e a dificuldade na sua aplicação.

Segundo a resolução do Conselho de Ministros n.º 63-A/2020, de 14 de agosto, as autarquias da AML decidem os horários de funcionamento dos estabelecimentos de comércio a retalho e de prestação de serviços. Mas mantêm-se as regras quanto ao consumo e venda de bebidas alcoólicas: "Proibição do consumo de bebidas alcoólicas em espaços ao ar livre de acesso ao público e vias públicas, excetuando-se os espaços exteriores dos estabelecimentos de restauração e bebidas devidamente licenciados para o efeito, sendo que, no período após as 20.00, apenas é permitido o consumo de bebidas alcoólicas no âmbito do serviço de refeições."

Rua cor-de-rosa dividida ao meio

A Rua Nova do Carvalho, no Cais do Sodré, batizada de "rua cor-de-rosa", exemplifica bem as medidas decretadas para combater a covid-19. O lado esquerdo, de quem está de costas voltadas para o rio, tem bastante gente, é a rua dos espaços de restauração; o lado direito está praticamente vazio, é o das discotecas.

A exceção é o bar/discoteca Liverpool, que decidiu abrir as portas e, agora, voltado para o exterior, quando habitualmente tudo se passa lá dentro e até às 06.00. Em vez de música, servem hambúrgueres. "Era a única solução, as pessoas continuam a vir aos Cais do Sodré à procura de copos e a lei obriga a que o álcool só possa ser servido com uma refeição", começa por explicar Guilherme, o diretor de operações do grupo, que tem também o Copenhaga. Estão a pensar abrir outra hamburgueria na zona e que irá chamar-se Buzz Burguer.

Acrescenta que a mudança do foco do negócio estava prevista, até porque, numa situação normal, poderiam funcionar entre as 12.00 e as 06.00 e era, também, uma forma de ocupar todo esse período. Após o estado de emergência, passaram a abrir entre as 18.00 e as 00.00. "Estava previsto e planeado para acontecer em 2021, acompanhando uma nova tendência do Cais do Sodré e que tem que ver com a abertura de hotéis de cinco estrelas nas imediações. Tínhamos previsto fazer uma adaptação à nova realidade, mas tivemos de antecipar", acrescenta Guilherme. O Liverpool fez 40 anos.

Chega um grupo de jovens escandinavos que juntas as mesas, preparando-se para beber um copo. "Tenho de explicar a estas crianças de 20 anos que vão ter de fazer uma segunda refeição [provavelmente, já jantaram] e que não podem estar tão juntas."

E não pode ser uns petiscos, umas tapas? Guilherme responde que tem de ser um prato de comida, acabando por sublinhar que a lei não define o que é uma refeição.

A mesma pergunta é feita a uma patrulha da noite, constituída por elementos da PSP e da Polícia Municipal, acabando estes por concordar que uma refeição pode ter definições diferentes de pessoa para pessoa. A tarefa é de fiscalizar a segurança na via pública, também se os espaços cumprem as restrições impostas pela SARS-Cov-2.

Regras desconhecidas

Se o grupo tivesse optado por outra rua que não a cor-de-rosa, teria podido beber num pequeno bar com música e que promove a happy hour, cerveja a 1,50 euros entre as 18.00 e as 22.00. "Cada vez há mais pessoas", responde o barman, que está convencido de que pode vender bebidas alcoólicas sem o acompanhamento de comida, embora também a possa fornecer.

Portugueses e turistas, com menos de 30 anos, e que Guilherme diz pertencerem ao grupo que está menos preocupado com a covid-19, mas que também são "os que têm menos poder de compra".

Yanis, belga, chegou a Portugal há três meses, e Nicolas Tchants, austríaco, há dois, ambos para trabalharem na Teleperformance, uma empresa de call-centers. Apesar do confinamento e de todas as restrições, estão encantados com o país. "As pessoas são mais abertas, simpáticas, é fácil encontrar amigos. E, aqui, a doença está menos perigosa do que na Bélgica", diz Yanis.

Nicolas tem a mesma opinião, destacando: "É a primeira vez que vejo tanta gente na noite, há algumas semanas estava mais tranquilo." Aproveitam o Cais do Sodré até ao último momento, até à meia-noite, quando recebem a última bebida.

Subindo ao Bairro Alto, as ruas estão mais animadas, sobretudo nas da Barroca e do Diário de Notícias. Restaurantes que servem pratos tradicionais, petiscos e apenas bebidas. "Está com movimento, mas chegam depois das 22.00 e a maioria não vem jantar, só beber", comenta um dos empregados.

Alguns dos bares mais enigmáticos estão fechados, outros servem petiscos ou mesmo azeitonas e batatas fritas. Anunciam caipirinhas e mojitos a cinco euros cada, também combinados e que envolvem um prego, uma bifana ou chouriço assado, com uma imperial, entre 3,50 e 4,50 euros cada combinado.

Um grupo de dez de brasileiros acaba de jantar num restaurante da Rua do Norte e prepara-se para terminar a noite por aqui. "Vai toda a gente para casa, normalmente, não somos muito de sair à noite para beber copos, mais facilmente nos juntamos em casa um dos outros", explicam Tais Vieira e Danúbia PImenta, ambas de 25 anos, há mais de um ano em Portugal e que trabalham em tecnologias.

A Maria, o Tiago e o Diogo, artistas na casa dos 30 anos, também têm passado as noites dos últimos meses na casa uns dos outros. Nesta sexta-feira, saíram para beber uma cerveja e conseguiram entrar num bar da Bica antes da meia-noite.

Menos sorte teve um grupo de franceses que jantou em casa e queria mais diversão para a última noite passada em Lisboa, só que é quase 01.00 e os espaços fazem mesmo questão de fechar, até porque a polícia costuma passa a ver quem não cumpre o encerramento obrigatório. Estavam habituados ao horário francês, cujos espaços noturnos dizem fechar às 02.00, com as discotecas ao ar livre a funcionarem, isto sem contar com "as festas ilegais".

Matilde Rodrigues, 18 anos, estudante de Matemática e Informática, é filha de portugueses, que têm casa na capital portuguesa. Trouxe os amigos, Cloé Aujojues, 19 anos, estuda Inglês, Elia Woirhaye, 19, de Literatura Moderna, e Ely Touitou e Enzo Pagne, ambos de 20 anos e estudantes de Geografia.

Dez dias de férias em Portugal e, apesar de faltar um último copo, dizem regressar satisfeitos a Lyon, a cidade francesa onde vivem. "Estivemos em Sesimbra, na praia, em Sintra, nos mercados, as pessoas são muito simpáticas e não há muitos turistas."

Se tivessem ido para os espaços junto ao rio Tejo, teriam visto alguma animação, mas não os serviriam. O Lust in Rio é outra das discotecas que se transformaram em restaurantes, além de um espaço de bar, com as pessoas a entrarem até à meia-noite, e que tem sido um sucesso. "Têm de reservar, ao fim de semana não consegue jantar se não fizer uma reserva três a quatro dias antes", diz o segurança à porta. Explica que não é sinónimo de lucro, uma vez que onde antes estavam três mil pessoas agora estão 300.

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