Noel Ferreira é o sexto piloto a morrer em combate aos fogos em 20 anos

Dados constam dos relatórios produzidos desde 2000 pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários.

O acidente desta quinta-feira com um helicóptero envolvido no combate aos fogos florestais, em Valongo, matou o sexto piloto de aeronaves envolvidas nessas operações nos últimos 20 anos.

Todos os pilotos eram portugueses, sendo três de helicópteros e três dos monomotores Dromader, revelam os relatórios dos acidentes aéreos elaborados pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF).

Na tarde desta quinta-feira em Sobrado, concelho de Valongo, o acidente deu-se com um helicóptero Celca 2 durante o combate a um incêndio numa zona com linhas de alta tensão.

O aparelho, ao serviço da Afocelca, terá embatido nessas linhas e ficado cercado pelas chamas ao cair.

O piloto, Noel Ferreira, de 35 anos, era um oficial no ativo da Força Aérea qualificado para operar os helicópteros de busca e salvamento EH-101. O militar, que também era comandante dos bombeiros, estava de férias e autorizado a participar no combate aos fogos ao serviço da Afocelca.

Em relação aos cinco acidentes anteriores com vítimas mortais, os três monomotores Dromader eram de origem polaca e estavam ao serviço da empresa Aeronorte. Quanto aos helicópteros, um estava ao serviço da extinta Empresa de Meios Aéreos e o outro da Everjets.

Note-se que ao longo destas duas décadas houve mais uma dezena de acidentes em operações de combate aos fogos florestais, mas sem provocar vítimas mortais - alguns envolvendo os polémicos helicópteros Kamov (de fabrico russo) e os gigantescos aviões a jato Beriev (também russos), em 2006 e 2016.

07 agosto 2000

Um monomotor Dromader combatia um incêndio na Serra da Lousã quando, cerca das 18:25, entrou em perda de altitude e caiu num movimento de rotação em parafuso durante a segunda tentativa de largar calda retardante.

O incêndio lavrava em Roçaio, Miranda do Corvo, e a intehnsidade do fumo era tal que vários pilotos de helicópteros tinham recusado operar devido á falta de condições.

O piloto tinha 45 anos e uma experiência de 967:30 horas de voo.

25 julho 2002

Problemas de motor e a colisão com uma árvore levaram um Dromader a despenhar-se numa área montanhosa e florestal no lugar de Pessegueiro, Vila de Rei.

O acidente deu-se depois de o aparelho ter abastecido em Ferreira do Zêzere. O piloto tinha 54 anos e um total de 9580 horas de voo.

03 agosto 2007

Um terceiro monomotor Dromader que combatia um incêndio junto da povoação de Rexaldia, na região de Torres Novas, embateu cerca das 15:57 com a ponta da asa direita da aeronave numa árvore.

A aeronave voava demasiado baixo e o impacto provocou a sua queda.

O piloto, de 56 anos, tinha uma experiência acumulada de 5570 horas de voo. sendo as realizadas no combate aos fogos maioritariamente feitas como copiloto dos Canadair.

10 novembro 2007

O primeiro acidente mortal com um helicóptero deu-se durante um incêndio na serra da Peneda, concelho de Melgaço. O aparelho, um Eurocopter AS350 da Empresa de Meios Aéreos (EMA), perdeu o controlo quando se posicionava para largar água, tendo-se desintegrado e incendiado com o violento embate no solo.

O piloto, de 43 anos, tinha uma experiência de voo de 820:55 horas. Contudo, a investigação concluiu que ele não tinha experiência de operação em áreas de montanha. Quanto às missões de combate aos fogos e aos voos com carga suspensa, essa experiência era limitada.

20 agosto 2017

Um segundo helicóptero Eurocopter AS350, mas ao serviço da Everjets, caiu durante o combate a um fogo florestal que lavrava por baixo de linhas de alta tensão na zona do Cabril, Castro de Aire.

Cerca das 11:20 e durante as operações em terreno montanhoso, o rotor de cauda bateu nas linhas alta tensão.

O piloto tinha 51 anos e um total de 965 horas voadas.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.