Maria Júlia nasceu no mês do armistício. Morreu sozinha em casa

A idosa de 100 anos perdeu a vida num incêndio, na baixa histórica do Porto. Vivia sozinha, mas seria acompanhada pela família e não estava sinalizada

Maria Júlia fez 100 anos há quinze dias, nasceu na mesma altura em que foi assinado o armistício que pôs fim à Primeira Grande Guerra. Teve uma vida longa, assistiu aos acontecimentos históricos do último centenário, mas morreu esta sexta-feira sozinha em casa, de forma trágica no incêndio que deflagrou na baixa do Porto.

Eram 9:32 quando o alarme soou nos Bombeiros Sapadores do Porto, que se deslocaram imediatamente ao nº 238 Rua da Alegria para tomar conta da ocorrência - um incêndio com suspeita de vítima no interior.

Quando chegaram, os Sapadores depararam-se com o primeiro andar todo tomado pelo fogo e as chamas já se tinham propagado para a caixa da escada. Os bombeiros extinguiram o incêndio e encontraram Maria Júlia já sem vida no quarto, onde supostamente terá deflagrado o incêndio.

Diz quem a conhece que Maria Júlia não aparentava aquela idade tão avançada, tinha mobilidade e era autónoma. Viveria sozinha, supostamente por ser essa a sua vontade, mas sempre com o apoio dos familiares próximos que a visitavam com frequência.

De acordo com o presidente da Junta de Freguesia Centro Histórico do Porto, António Fonseca, a centenária não estava sinalizada nem na junta, nem noutra instituição. "A família acompanhava-a com muita regularidade, não tinha falta de retaguarda. Era uma pessoa muito autónoma, que fazia uma vida normal." A idosa teria pelo menos dois filhos e "pertencia a uma família com posses".

Esta sexta-feira era o dia também de Maria Júlia receber a visita da empregada de limpeza em casa.

António Fonseca conta ainda que a idosa era a única habitante do edifício - com rés-do-chão, primeiro andar e águas furtadas - mas que a casa era alugada. "Era muito independente, a informação que tenho é que a senhora queria continuar a viver na casa."

"Mesmo quando têm retaguarda familiar, é importante ser solicitado apoio domiciliário para as pessoas idosas que vivem sozinhas"

Apesar da autonomia que alguns idosos revelam, como é o caso de Maria Júlia, o presidente da junta do Centro Histórico do Porto faz questão de deixar um alerta às famílias: "Faz todo o sentido que, mesmo tendo retaguarda familiar, seja solicitado o apoio domiciliário para estas pessoas idosas que vivem sozinhas. As senhoras do apoio familiar fazem três visitas por dia, dão o pequeno-almoço, fazem a higienização e podem ver se alguma coisa está mal."

Maria Júlia era vista na rua com frequência pelos vizinhos, alguns não suspeitavam que já tivesse 100 anos. Esta sexta-feira de manhã, testemunhas dizem que a ouviram gritar à janela, a pedir socorro. Ainda tentaram arrombar a porta, mas não conseguiram. Foi encontrada morta no quarto pelos bombeiros uma mulher que viveu o último século e que assistiu a guerras e revoluções, ao decurso da História.

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