Mais de mil mortes acima do normal devido à gripe e frio

Na última semana, como já tinha acontecido desde o início do mês, Portugal esteve no grupo de países da Europa onde o surto de gripe foi mais forte

A epidemia de gripe em Portugal continua a ganhar força. Depois de uma semana em que o número de novos casos da doença até tinha baixado, a taxa de incidência da gripe entre 14 e 20 de janeiro subiu para os níveis mais altos das últimas três semanas (85,5 por 100 000 habitantes), indica o boletim semanal do Instituto Ricardo Jorge. Relatório que adianta ainda que a mortalidade registou valores "acima do esperado", idênticos aos que já se tinham registado na semana anterior. Na prática, analisando os gráficos de mortalidade do INSA, isto equivale a dizer que desde o início do ano, devido à gripe e ao frio, morreram pelo menos mais mil pessoas do que seria normal.

Os cálculos são feitos olhando para a linha de base (a mortalidade esperada na ausência de fenómenos como epidemias de gripe) do gráfico que apresenta o total de óbitos por semana, que nesta altura do ano aponta para um valor normal pouco acima das 2500 mortes. E o que os números mostram é que tivemos cerca de três mil mortes em cada uma das duas últimas semanas - perto de 500 acima do esperado - a que se juntam mais 200 óbitos do que seria normal na primeira semana do ano.

Mas o facto de haver um excesso de mortalidade não quer dizer que no final do ano tenhamos mais mortes do que o normal, explicou recentemente a Diretora Geral da Saúde ao DN, a propósito precisamente do tema do excesso de mortalidade associado ao frio e à gripe, porque esse número é compensado ao longo do ano.


"Imaginemos que temos uma pessoa na família com 90 anos e com doenças crónicas que morre agora na sequência de complicações causadas pela gripe em vez de morrer daqui a alguns meses. Ou seja, agora podemos ter um pico, mas depois podemos descer abaixo da linha de base, e no final do ano o número é igual", exemplifica Graça Freitas, que não deixa de sublinhar que estes dados são importantes para medir a gravidade da atividade gripal.

A morte está relacionada com muitos fatores, podemos ter uma atividade de base que aumenta com o frio, a gripe, ou picos de calor como o registado no último verão. Neste momento há um pico de mortalidade associado à gripe, o que não quer dizer que o vírus seja a causa única, mas sim que pode descompensar e abrir a porta a outras doenças, em especial nos idosos e doentes crónicos. Graça Freitas recorre a uma metáfora simples para medir o impacto de um surto forte de gripe. "Se temos um monte baixo, toda a gente o consegue subir e descer sem problemas; se tivermos uma montanha maior, já há pessoas a partir pernas e a ter problemas de saúde pelo meio; se tivermos de subir os Himalaias, há pessoas que vão morrer pelo caminho. É normal que se morra mais nos meses mais frios".

Frio que tem marcado este mês de janeiro. O valor médio da temperatura mínima do ar na terceira semana do ano foi de 3,2°C, 1,32 °C abaixo do valor normal para esta altura do ano. Na semana anterior, a diferença tinha sido ainda maior: na segunda semana de janeiro, o valor médio da temperatura mínima foi de 1,04°C, menos 3,5°C em relação ao valor normal para o período 1971-2000.

A linha de base da mortalidade esperada é uma fórmula matemática calculada em função da quantidade idosos do país, da demografia, do clima, por exemplo, e é atualizada constantemente e varia de país para país. A nossa linha tem de ser diferente, por exemplo, da Noruega, porque temos características diferentes. Define-se como período de excesso de mortalidade o conjunto de semanas durante as quais o número absoluto de óbitos ocorridos é superior ao limite superior de 95% de confiança da linha de base, o que aconteceu nas duas últimas semanas. O total de óbitos em excesso foi calculado pela diferença entre os óbitos observados e a linha de base durante os períodos de excesso de mortalidade.

A gripe A tornou-se sazonal


A gripe em Portugal manteve-se na semana de 14 a 20 de janeiro numa fase "de atividade epidémica, mas com intensidade moderada e tendência crescente", de acordo com o Boletim de Vigilância Epidemiológica da Gripe divulgado esta quinta-feira à noite. Na terceira semana do ano "a taxa de incidência de síndroma gripal (SG) foi de 85,5 por 100.000 habitantes", enquanto na semana anterior a taxa de incidência tinha sido de 48,8 por 100 mil habitantes, com uma descida acentuada em relação à primeira semana, na qual se registou uma taxa de incidência da gripe de 80,9 casos por 100 mil habitantes, com dois subtipos de vírus em circulação.

"A gripe A já não deve assustar, já quase toda a gente teve contacto com ela. Tornou-se na gripe sazonal, igual aos outros vírus em circulação"

Como o DN noticiou esta semana, um dos vírus da gripe (o AH3) que está em maior circulação este ano é agressivo, especialmente para os idosos. Ainda assim, a co-circulação com o vírus A(H1)pdm09, mais benigno, pode tornar o surto de gripe menos violento. Na última semana, como já tinha acontecido desde o início do mês, Portugal esteve no grupo de países da Europa onde o surto de gripe foi mais forte, no nível 'moderado', onde já é acompanhado por mais de uma dezena de Estados.

Em relação ao facto de haver notícias de doentes internados com gripe A, Graça Freitas contextualiza e explica que a gripe A só foi particularmente perigosa quando surgiu, no final da década passada, porque era uma estirpe nova. "Agora já não deve assustar, já quase toda a gente teve contacto com ela. Tornou-se na gripe sazonal, igual aos outros vírus em circulação".

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