Ludmila "era excelente pessoa e respeitadora". A funcionária do lar que o vírus também matou

Tinha 42 anos, a 20 de setembro faria os 43. Preparava-se para juntar a família e só alguns amigos. Neste ano, queria ver a filha na escola primária, o filho mais velho a tirar a carta e comprar uma casa em Portugal. A Moldávia era a terra onde passariam a ir de férias para ver a família. Ludmila foi uma das infetadas e das vitimas mortais do surto de covid-19 que atingiu o lar da fundação.

"Como foi isto acontecer?" A pergunta é repetida vezes sem conta pela família de Ludmila, Mila, como era tratada na terra pelos mais próximos, mas também pelos amigos, vizinhos e até mesmo por quem não a conhecia. Ludmila foi a única funcionária do lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva (FMIVPS) que morreu depois de ter sido infetada pela covid-19 no surto que foi identificado pelas autoridades de saúde no dia 18 de junho.

Ela, conta o marido, Adrian Istratuc, ficou doente antes. No dia 16 de junho, já não conseguiu ir trabalhar, dias 17 e 18, piorou, foi quando lhe fizeram o teste à covid. No dia 23 foi para o Hospital do Espírito Santo, em Évora, e no dia 25 foi ligada à máquina. Ludmila morreu no dia 1 de julho, o marido recebeu a notícia pelo hospital e ao telefone, porque ele e os filhos estavam em isolamento. Depois de testados, estavam todos positivos. "Ficámos mais de um mês em casa fechados. O mais velho ainda está, porque tem dado positivo. Nesta segunda-feira vai fazer novo teste." Ludmila gostava de viver no Alentejo, e foi ali que ficou, no cemitério de Reguengos de Monsaraz.

Sentados ao fim de tarde num café vizinho de sua casa, Adrian conta ao DN o que foram os últimos dias da mulher, abanando a cabeça e repetindo que "tudo parece mentira". As ruas de Reguengos estão desertas, o medo do vírus ainda impera, mas os cafés e restaurantes vão-se mantendo abertos. "Tem de ser. Não podemos parar, mas está fraco. Quase que não há turistas neste ano", diz a dona do estabelecimento, que não quer ser identificada "nem tirar fotografias. É de mais. A terra não descansa", afirma. Mas não se importa que ali falemos com Adrian e com uma das amigas de Mila. "Ela era uma excelente pessoa. São muito queridos aqui pelas pessoas, desde que vieram para cá", continua.

A amiga, também da Moldávia, reforça: "A Mila era uma pessoa muito trabalhadora, educada e muito respeitadora." O marido diz mesmo: "Se perguntar lá no lar, todos gostavam dela", comenta. MIla chegou a Portugal há cerca de oito anos, diz Adrian. Primeiro chegou ele, veio para trabalhar e fazer-se à vida, porque no seu país estava difícil. E cá, no Alentejo, "arranjei logo trabalho no matadouro. Estive lá muitos anos. Agora, mais recentemente, estou a trabalhar com máquinas agrícolas no campo".

Mila veio depois com os dois filhos mais velhos, Daniel, de 18 anos, e David, de 15. Erica, a mais nova, já nasceu em Portugal. Tem hoje 5 anos, em outubro fará os 6. "Todos os anos, sempre, quando eram os anos dos filhos era sempre ela que juntava a família e os amigos, que fazia tudo, estava sempre pronta para ajudar", continua a amiga.

Mila era "uma mulher de força", quando chegou a Reguengos de Monsaraz começou a trabalhar na casa do ex-presidente da câmara "a cuidar da esposa dele. Foi muito bem tratada. Ele é um amigo, tentou ajudar-me a levar a Mila mais cedo para o hospital, mas não conseguimos, mandaram-na controlar os sintomas em casa", recorda. Depois, "quando foi, se calhar já era tarde", conta.

Desde que entrou no hospital de Évora, no dia 23 de junho, ao final da tarde, levada por uma ambulância que a foi buscar a casa, que a família nunca mais falou com ela. "Era muito difícil. Ligávamos para o hospital e ninguém atendia ou diziam que tinha de ser mais tarde, ninguém podia lá ir. Morreu sozinha", diz o marido. O DN não teve acesso à certidão de óbito de Ludmila, mas Adrian estranha que esta não faça qualquer referência "ao vírus que a matou. Não diz lá nada que foi covid", argumenta.

Fontes médicas explicam que, em muitas situações, e quando se trata de falência respiratória, é isso que consta da certidão, e não covid~19. O mesmo aconteceu em outras certidões de utentes do lar em que a a causa de morte, e "apesar de terem chegado ao hospital desidratados, é outra coisa", dizem-nos. Maria Rosa, de 71 anos, e utente do lar, resistiu mais de um mês no hospital de Évora, e quando o teste à covid já dava negativo, apanhou uma infeção hospitalar, Uma infeção bacteriana, e não resistiu. "Uma semana depois estava a morrer, no dia 29 de julho", conta a filha Teresa Pereira.

Com três filhos e à espera de justiça

Adrian ficou com três filhos e a única coisa que quer "é justiça, por ela e pelos meus filhos. Tenho de salvaguardar o futuro deles. Eles ficaram sem a mãe", diz ao DN.

Ele conta que, em casa, Ludmila já andava preocupada com o se estava a passar no lar. "Ela dizia que havia velhotes com febre e que o lar só mandava dar ben-u-ron. Ninguém falava da doença nem mandavam fazer testes, mas ela já tinha medo de que fosse alguma coisa da doença. Dizia que tomava todos os cuidados. E nunca pensámos que isto fosse acontecer", conta.

Adrian diz que não sabe como explicar à filha que "a mãe já não está cá, que não vai estar nos anos dela, quando entrar na escola, e em mais nada...". A família sente-se revoltada. Ludmila era das funcionárias de quem "todos gostavam. Era das pessoas que tinham o cuidado de dar sempre água aos idosos, de os acarinhar, não era como algumas que até empurrões e nomes lhes chamavam", conta a filha de uma das utentes.

Para os amigos, Mila "era um mulher forte, trabalhadora, respeitadora de tudo e de todos", afirma ainda a amiga da Moldávia, que também vive em Reguengos de Monsaraz. No bairro onde vivem, mesmo no centro da cidade, numa casa antiga, o casal era conhecido por todos. "Era uma boa pessoa, muito querida e atenciosa", afirma uma das vizinhas.

A família é cristã ortodoxa. Mila era crente. Tinha fé. Por isso, há uma semana, após os 40 dias da sua morte, todos se reuniram para lhe prestar homenagem de acordo com a tradição: 40 flores e roupa e um cabaz para ajudar uma família que ainda é mais necessitada do que eles. Maria Catarina, lojista, conta que foi ela que arranjou as flores para depositarem no cemitério. "A família ainda está inconsolável. É o que eles dizem: ainda lhes parece mentira. Até a nós, que não a conhecíamos bem. Uma mulher jovem. É uma tristeza."

Os filhos mais velhos já vão falando sobre o que sentem. "Falam comigo e sentem-se revoltados. Perderam a mãe e ninguém assume responsabilidades. Mila dizia que havia pessoas doentes, eles não fizeram nada. Foi por isso que todos ficaram infetados", afirma ao DN, ainda num português com muito sotaque. O que já não acontecia com Mila, "ela já falava corretamente o português", recordam as amigas.

Adrian acredita que a mulher ficou pior por a fundação "não ter feito nada assim que os idosos ficaram com febre" e também por que "ela ficou doente a 16 de junho, já não foi trabalhar, e só a 23 é que a internaram. Pedimos ajuda para que fosse para o hospital, mas diziam para ficar em casa e controlar os sintomas. Um dia sentiu-se tão mal que ligou para os bombeiros a pedir ajuda. Mandaram-na ligar para a linha SNS24. Ela ligou e foi quando veio uma ambulância buscá-la para a levar ao hospital em Évora. Ficou logo internada, saiu daqui era quase noite e nunca mais falámos com ela. No dia 25 foi ligada à máquina e morreu no dia 1 de julho".

Adrian tem as datas na cabeça, até porque na altura, e depois de Mila ter feito o teste à covid no dia 18 de junho, também o fizeram à família e "todos tínhamos o vírus". O pior agora é quando leem notícias e percebem que "a fundação não assume responsabilidades. Dá revolta". Adrian reforça: "Quero que a fundação responda na justiça, pela Mila e pelos meus filhos."

Mila era "uma mulher que tinha força para ajudar em tudo. Fazia-o sempre e a quem precisava, fazia sempre festas nos aniversários dos filhos, juntava a família e os amigos. E, agora, quem vai fazer isso?", questiona a amiga, que pede para não ser identificada. "A terra é pequena e não há muito trabalho", argumenta.

O mesmo tinha sido dito por outros ao DN. Mas aquela foi a terra que Adrian escolheu para ficar quando saiu da Moldávia, onde Mila gostava de viver e de trabalhar. "Ela gostava das pessoas, trabalhava muito, tinha contrato de efetiva e seguro, o que era muito bom. Hoje isso não é fácil. Não andava à procura de outros trabalhos, preocupava-se com as coisas", conta.

Mila tinha 42 anos, faria 43 no dia 20 setembro. Este ano era aquele em que tinham planeado voltar à Moldávia de férias para ver o resto da família, porque alguma já ali vive também. "Tenho cá o meu irmão e a minha cunhada", diz Adrian. "A Moldávia agora é só para férias. A família queria ficar aqui, comprar casa aqui, os filhos também querem fazer a vida aqui, têm escola aqui e os amigos também. Agora, acontece isto."

Este era também o ano em que o filho mais velho iria começar a tirar a carta. Estava a estudar, mas, agora, "não sei o que vai fazer. Eu tenho trabalho, o trabalho não me assusta, tenho de continuar para cuidar dos três filhos, vamos ver como vai correr". Gostaria que os direitos da mulher, enquanto trabalhadora e funcionária 'querida', fossem respeitados. "A fundação disse que pagava tudo do funeral, mas fui eu que paguei. O recibo está em meu nome. Agora, tenho de pagar na junta da freguesia a campa. Também sou eu. A mim ainda não pagaram nada", afirma.

Ao DN, e em resposta escrita, a FMIVPS explica que assumirá todas as despesas com as cerimónias fúnebres que não forem comparticipadas pela Segurança Social. Adrian diz esperar "que façam mesmo isso". Neste momento, teve ajuda da Misericórdia com alimentos, mas "comida não falta cá em casa. Eu só quero saber se os direitos dos meus filhos vão ser salvaguardados. A minha mulher tinha um seguro do lar, se ela foi lá infetada deve ter direito a alguma coisa".

A família Istratuc parece que ainda está "a viver uma mentira. A filha continua a querer ligar para o telemóvel da mãe para falar com ela. Tem dias em que está mais calma, mas é muito difícil". O que tem valido é a família que Adrian tem cá, os amigos da sua terra e os que já conquistou na terra de cá. "Vamos ver o que acontece..."

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