A empresa portuguesa dos 29 mil milhões: a investigação e o mistério continuam

Têm estado a ser realizadas diversas diligências, entre as quais a inquirição de testemunhas. Mas um ano depois continua o mistério à volta da empresa com um capital social correspondente a um terço do PIB português.

Mais de um ano depois de a Yupido ter saltado para a ribalta por causa do seu inusitado capital social de 29 mil milhões de euros, o Ministério Público continua a investigar a empresa. Ao DN/Dinheiro Vivo, fonte da Procuradoria-Geral da República confirma que têm estado a ser realizadas diversas diligências, entre as quais a inquirição de testemunhas. Contudo, para já, não há arguidos constituídos.

A Yupido captou a atenção da imprensa e das autoridades em setembro do ano passado, depois de, no Twitter, o economista Carlos Pinto ter revelado que, durante um trabalho, tinha esbarrado acidentalmente no capital social da empresa. O valor de 29 mil milhões de euros, qualquer coisa como um terço do PIB português, ultrapassa a soma do capital social das 12 maiores empresas do país.

O montante seria justificado por uma "plataforma digital inovadora de armazenamento, proteção, distribuição e divulgação de todo o tipo de conteúdo media", que se destaca "pelos algoritmos que a constituem", indicam os documentos oficiais da Yupido. Este bem intangível tinha sido avaliado por António Alves da Silva, um revisor oficial de contas independente, com mais de 50 anos de experiência e reconhecido entre os seus pares. No entanto, para além da investigação do Ministério Público, também a Ordem dos ROC em conjunto com a Comissão de Mercado de Valores Mobiliários decidiram averiguar a legalidade da atuação de Alves da Silva.

Com um capital social de 29 mil milhões de euros, qualquer coisa como um terço do PIB português, a Yupido ultrapassava a soma do capital social das 12 maiores empresas do país.

Na altura, Francisco Mendes, porta-voz da empresa, garantia ao DN/Dinheiro Vivo a legalidade da operação da Yupido. Ao Jornal Económico, o fundador Torcato Jorge assegurava que o primeiro grande serviço iria ser lançado "a nível mundial" em 2018, altura em que seriam contratadas "cerca de 206 pessoas". Ao mesmo tempo, estaria a ser preparado o registo de 42 patentes. Com o ano de 2018 a caminho do fim, a tecnologia da Yupido continua sem ser mostrada ao público. O DN/Dinheiro Vivo tentou entrar em contacto com os responsáveis da empresa, para um ponto de situação, contudo não obteve qualquer resposta, até ao momento.

Yupido não marca presença na Web Summit

Seria de esperar que uma empresa que se apresenta como detentora de uma tecnologia revolucionária se quisesse mostrar numa das maiores conferências de tecnologia do mundo. Contudo, uma pesquisa rápida pela app da Web Summit mostra que nenhum representante da empresa vai estar presente no evento. Ao Eco, Francisco Mendes indicou que, em 2017, alguns colegas teriam participado na Web Summit, só que não em nome da Yupido, para não "atrair mediatismo".

Leia mais em Dinheiro Vivo

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.