Investigação a pedófilos portugueses é 'case study' internacional

Dois pedófilos portugueses, condenados à pena máxima de prisão, 25 anos, abusaram e violaram bebés e crianças, com idades entre os 2 meses e os 10 anos. O caso Baby Heart trouxe a Lisboa, à sede da PJ, a Europol, a Interpol e a Homeland Security.

Durante, pelo menos, quatro anos, abusaram sexualmente de 12 crianças e bebés em Portugal, filmando e partilhando na internet estes crimes com pedófilos de todo o mundo. Um deles, de 27 anos, que usava o pseudónimo Twinkle, já tinha sido condenado antes por partilhar na internet este género de conteúdos. Criou, alimentou e geriu um site a partir de uma sucata em Águeda e utilizava oito menores seus familiares. O outro condenado, que usava o pseudónimo Forgotten, abusou, entre outros, de um enteado, de 6 anos, e da própria filha, uma bebé de 2 meses, filmou e partilhou na net.

Os dois pedófilos portugueses foram condenados pelo tribunal, a 23 de dezembro passado, à pena máxima de prisão, 25 anos, num caso que ficou conhecido como Baby Heart - o nome do site criado. A investigação foi considerada um case study internacional e, nesta manhã, a Polícia Judiciária (PJ) falou pela primeira vez publicamente sobre o processo numa conferência que contou com a participação da Interpol, Europol e Homeland Security Investigation (EUA). Esta tarde, a Europol publicou um comunicado sobre "como a cooperação internacional levou à detenção" destes abusadores, destacando o papel da PJ.

O fórum foi ganhando notoriedade na comunidade pedofilia de vários países pois incentivava e produzia novos conteúdos envolvendo abusos de menores, promovendo os conteúdos feitos a pedido

O Baby Heart foi criado em finais de 2015, na chamada dark web (rede fechada a um grupo privado de pessoas), por um utilizador que se apresentava como Twinkle. De imediato este fórum começou a ser monitorizado por autoridades internacionais, sem saber ainda a origem ou nacionalidade do seu fundador. "O fórum foi ganhando notoriedade na comunidade de pedofilia de vários países, pois incentivava e produzia novos conteúdos envolvendo abusos de menores, promovendo os conteúdos feitos a pedido", sublinha ao DN o coordenador da PJ, Pedro Vicente, responsável pela equipa da Unidade de Combate ao Cibercrime (UNC3T) que investiga esta criminalidade.

"Trata-se de um caso paradigmático de cooperação internacional, um case study numa investigação de um processo de exploração, produção e partilha de conteúdos sexuais online", assinala Pedro Vicente.

Na verdade, esta investigação foi aberta em março de 2017, quando a UNC3T da Judiciária recebeu uma informação da polícia australiana que tinha detido um suspeito pedófilo e apreendido conteúdos retirados do Baby Heart. Havia alguns posts em português e o endereço de uma operadora de telecomunicações portuguesa. Foi o primeiro alerta de que o pedófilo que criara a rede poderia ser português.

A equipa da PJ juntou-se a uma task force internacional, que envolveu a Interpol, a Europol e a norte-americana Homeland Security Investigation, perita em investigação digital. "Os utilizadores do fórum tinham ordens do gestor (Twinkle) para não deixarem rasto algum que permitisse as autoridades poderem identificá-los. Era de tal forma cautelosos que lhes era ordenado que não falassem na sua língua nativa e utilizassem os tradutores da net", conta Pedro Vicente. A darknet, explica, "é como andar numa rua escura onde se suspeita que há crimes", mas "a PJ tem equipamento que permite andar à vontade por estas 'ruas', apesar de todos os manuais de encriptação e anonimização".

A intensa cooperação internacional teve os seus frutos e, já com as 'antenas' da investigação viradas para Portugal, veio do Brasil a prova que faltava. Em material apreendido a um pedófilo naquele país, estavam registos de contactos com Twinkle, fora dos encriptados fóruns do Baby Heart.

A intensa cooperação internacional teve os seus frutos e, já com as 'antenas' da investigação viradas para Portugal, veio do Brasil a prova que faltava. Em material apreendido a um pedófilo naquele país, estavam registos de contactos com Twinkle, fora dos encriptados fóruns do Baby Heart. Twinkle escrevia em português de uma forma que nenhum google translator poderia traduzir, utilizando expressões bem portuguesas como "custou os olhos da cara". Tudo foi passado a pente fino pela equipa da UNC3T e pelas bases de dados internacionais, cruzados os ficheiros da Trace an Object da Europol (objetos e peças de vestuário identificadas na net em abusos de crianças) com as fotos das redes sociais, analisadas minuciosamente todas as fotos apreendidas.

Predador detido em flagrante

"O trabalho do Laboratório de Polícia Científica (LPC) da PJ foi crucial neste caso", sublinha o coordenador da UNC3T. Conseguiu tirar uma impressão palmar de uma das imagens apreendidas (por precaução os membros do Baby Heart só mostravam as mãos e nunca a cara) que correspondia à do principal suspeito. O LPC foi distinguido com um prémio internacional.

Em maio, chegou informação da polícia austríaca, obtida da apreensão de mais material a outro pedófilo detido. Este tinha combinado com Twinkle e Forgotten um encontro em Portugal para filmar novos abusos e fazer uma produção exclusiva. As crianças da família iriam ser utilizadas. E a partir daqui a PJ começou a preparar toda a operação para deter, não só Twinkle mas também os cúmplices.

A operação aconteceu a 20 de junho de 2017, liderada pelo inspetor-chefe Jorge Duque. Twinkle foi apanhado em flagrante com duas crianças, todos nus, em casa deste último. Entregou-se e perante todas as provas que a UNC3T já tinha reunido contra si, entregou aos investigadores todo o material que tinha escondido. "Sabíamos perfeitamente que estávamos a lidar com um predador. Ficou desarmado com tudo o que tínhamos e percebeu que não havia escape possível." À medida que iam fazendo as buscas iam encontrando as peças, objetos, roupas, que já tinha identificado digitalmente. Twinkle levou-os depois ao encontro de Forgotten que também foi detido. Ambos ficaram presos até ao julgamento e estão a cumprir a pena.

Durante o julgamento, a procuradora lamentou que as vítimas tenham ficado "marcadas para a vida". "São crimes horrendos", concluiu a magistrada.

Twinkle, que tinha como profissão segurança privado, era acusado pelo Ministério Público de 583 crimes de abuso sexual de crianças e 73 577 de pornografia de menores. As vítimas são oito rapazes e raparigas, quase todos bebés na altura dos factos. São primos e sobrinhos seus. Durante o julgamento, a procuradora lamentou que as vítimas tenham ficado "marcadas para a vida". "São crimes horrendos", concluiu a magistrada. Segundo descreve o acórdão, o principal arguido chegava a atar e a algemar os bebés para se manterem numa mesma posição e permitir que filmasse os abusos.

"Podiam ter feito algo para que isto parasse"

Durante a leitura do acórdão, o juiz que presidiu ao coletivo repetiu por duas vezes que no julgamento deste caso "os factos impuseram-se de tal forma que qualquer comentário é desnecessário". "Os factos falam por si", salientou, referindo que os dois arguidos condenados a 25 anos de prisão foram considerados "imputáveis" e que "tiveram oportunidade de parar".

"Podem vir com a conversa da perturbação pedofílica, mas podiam ter feito algo para que isto parasse" como procurar ajuda especializada, insistiu, referindo ainda que ambos "estavam cientes da ilicitude dos atos e continuaram a praticá-los".

Quanto ao principal arguido, o tribunal deu como provado a prática de 30 crimes de abuso sexual de crianças e um crime de pornografia de menores.

O outro arguido, Forgotten, um engenheiro informático do concelho de Sintra, estava acusado de 623 crimes de abuso sexual de crianças e outros tantos de pornografia de menores, 548 dos quais cometidos sobre o enteado de 5 anos e 75 sobre a filha bebé, ainda com meses. O tribunal deu como provado que praticou 14 crimes de abuso sexual de crianças e um crime de pornografia de menores.

Quatro familiares do principal arguido, pais e duas primas, que deixavam os filhos com Twinkle em casa, foram absolvidos pelo coletivo de juízes. O MP entendeu que tinham a obrigação de impedir o arguido de ficar com crianças pequenas, pois sabiam que tinha sido condenado por partilha de pornografia infantil.

Alerta: "Não partilhem, seja por que motivo for"

"Estes predadores são o nosso alvo principal de investigação", assinala Pedro Vicente que, no entanto, não quer avançar com números concretos de inquéritos instaurados, envolvendo suspeitos portugueses em crimes desta natureza. "Com esta dimensão é o único, mas haverá mais uns dois a ser investigados neste momento", revela.

Deixa, no entanto, um aviso que espera servir para libertar recursos para este género de investigação mais grave: "Cerca de 90% dos nossos meios estão empenhados com inquéritos que têm de ser abertos sempre que alguém, inadvertidamente ou para alertar, partilha na netalgum conteúdo envolvendo abusos de crianças, ou quando, por exemplo, adolescentes partilham fotos em que estão despidos. Todas estas partilhas têm de ser investigadas e isso consome-nos recursos indispensáveis. Não partilhem este género de imagens, seja por que motivo for. Apenas contactem as autoridades, as associações de apoio à vítima ou a rede internet segura."

Nota: O DN optou por não escrever os nomes dos condenados porque, apesar de já terem vindo a público, as vítimas são seus familiares e ao identificá-los também as vítimas podem ser identificadas. Nos acórdãos judiciais, públicos, os nomes das crianças vítimas estão identificados.

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