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O coração dos galgueiros acelera com o dos galgos

Depois das polémicas acusações e tentativa, rejeitada por PS, PSD e CDS, de ilegalização (liderada por SOS Animal, PAN e Bloco de Esquerda), o DN foi passar um dia numa corrida de galgos. A que devia ser para angariar fundos para a Cruz Vermelha.

A Feira da Estela é um daqueles eventos populares que atualmente só concorre em popularidade com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. São alguns quilómetros da Estrada Nacional 13, já no extremo norte do concelho da Póvoa de Varzim, com bancas de um lado e do outro, mais umas ruelas interiores onde se erigem autênticos túneis de lona. Só não se encontra o que não existe - há a frescura dos legumes, fruta, batatas, cebolas, mais roupa, calçado, adereços desportivos, brinquedos. Tudo é mesmo (quase) tudo. No meio deste bazar, há uma pista de galgos num terreno privado, construída pelo proprietário da terra há cerca de 20 anos. A pista da Estela recebeu a enjeitada corrida do Mindelo (Vila do Conde), que neste domingo serviria para angariar fundos para a Cruz Vermelha, mas que esta cancelou por pressão da SOS Animal.

Chegar àquela zona da Estela (Lugar de Contriz) em dia de feira semanal pode ser um martírio - intenso trânsito na EN13 - ou um bálsamo. Se for pelas ruas e vielas das terras junto ao mar, vai regalar-se com as estufas que fornecem grande parte dos produtos alimentares: meloas apimentadas, tomates refrescantes, couves desintoxicantes e saborosas, um arco-íris de cores e sabores tentadores que são resultado da fusão dos campos de terra com a areia das dunas. Há, igualmente, campos de milho fantasiosos e sugestivos: sobretudo se tiver visto o Match Point, de Woody Allen, e a cena, bem romântica, entre os personagens de Scarlett Johansson e Jonathan Rhys Meyers.

Por entre aquele pedaço de ruralidade refrescante, outro símbolo antigo daquele meio chama a atenção a alguns curiosos e a umas dezenas de devotos: as corridas de galgos. A deste domingo era a penúltima no calendário da Associação Galgueira e Lebreira do Norte, que em setembro (após a última etapa) faz as contas aos pontos que cada cão somou ao longo da época e apura o campeão regional e os outros apurados para o campeonato nacional em três categorias: cachorros (de um ano até aos 20 meses); nacionais (nascidos em Portugal) e internacionais (oriundos de fora do país). O nacional será numa pista do norte (talvez no Mindelo - que não acolheu esta porque a Câmara de Vila do Conde fez um desbaste aos eucaliptos e deixou a pista maltratada) e engloba os melhores dos campeonatos da Associação Galgueira do Centro (sediada no Bombarral, Leiria), da Associação Galgueira do Sul (Castro Verde) e da Associação Galgueira de Cuba (Cuba do Alentejo tem a única pista pública, inaugurada em 2015). O atual campeão é Bluey (do galgueiro Filipe Martins, de Guimarães), irmão do poderoso Ninja (3 anos), destacado líder do campeonato regional na categoria de nacionais e que ontem percorreu os 200 metros abaixo dos 11 segundos (10,99). Os humanos conseguiram percorrer a mesma distância em tempos recorde de 19,19s (Usain Bolt, 2009) e 21,34s (Florence Griffith-Joyner, 1988) - mundiais - e em 20,01s (Obikwelu, 2006) e 22,88s (Lucrécia Jardim, 1996) - máximos nacionais.

Estes atletas de quatro patas, com 70 a 80 centímetros de altura e cerca de 30 quilos de peso, vivem durante uns cinco anos para a velocidade. A esperança média de vida é de cerca de 14 - e aqui entram os argumentos mais duros da SOS Animal, do PAN e do Bloco de Esquerda, estes últimos derrotados na Assembleia da República na votação da proposta que fizeram para proibir as corridas de galgos. Maus-tratos com choques elétricos, substâncias dopantes (cocaína, viagra, etc.) e abandono ou abate dos que se retiram das pistas.

"Choques elétricos? Mas se eu desse um choque elétrico aos meu galgo ele fugia e eu nunca mais lhe punha a vista em cima", diz Vítor Costa, vice-presidente da Associação Galgueira e Lebreira do Norte (AGLN), organizadora do campeonato regional. "Ando nisto das corridas há 50 anos. O meu avô e o meu falecido pai também andavam nas corridas. Nos anos 1950, em 1956, 1957, na estrada Famalicão-Vila do Conde, que atravessa Vilarinho de Cambas, Fradelos e Parada, de onde sou natural, fazia-se uma pista na areia, porque não havia alcatrão na altura, e era um entretimento na época fora de caça, para quem tinha galgos. Um senhor até fez uma máquina artesanal com a roda de uma bicicleta que puxava a pele", recupera o homem de 70 anos que estudou para padre nos seminários de Braga e fez carreira como professor de Religião e Moral nos liceus de Vila do Conde e Póvoa de Varzim até se reformar.

A contestação de associações ou partidos anticorridas de galgos contrasta com a popularidade de autarquias rurais: Amares, Macedo de Cavaleiros, Ponte de Lima e Alijó receberam provas destas, incluindo-as nas feiras de pesca e caça. "Faz-se contrato com a câmara e esta paga inscrições e prémios. Ou nós pedimos um X e tratamos de tudo", explica o dirigente.

Dia de corrida

A pista da Estela foi construída por Alberto Faria, que não pôde estar presente neste evento. "Foi o dinheiro mais bem empregue da minha vida. Ali, pude criar os meus filhos de volta dos galgos sem que fossem experimentar outras coisas menos saudáveis. Era uma alegria, porque os galgos adoram crianças e as crianças ficam fascinadas por eles", diz o presidente do Clube Galgueiro de Contriz. Este clube organiza as únicas provas cronometradas de Portugal, em que a pista é usada em toda a sua extensão (280 metros, recorde de 15,1s), num campeonato com 12 provas e uma finalíssima a 4 de agosto, que não é mais do que um convívio para entregar o prémio ao melhor cão e ao cão com mais presenças.

"Fiz a pista no meu terreno há cerca de vinte anos. Na altura, pediram-me cinco mil contos [25 mil euros] por um programa informático para cronometrar as provas. Nem pensar. A falar com amigos, um disse que ia criar um programa. Demorou a afinar e a sincronizar as imagens com a contagem dos tempos. Mas conseguiu-se. O computador está ligado às boxes de partida e é tudo filmado. No fim, verifica-se o tempo com as imagens em slow motionpara apurar os tempos ao centésimo", explicou ao DN.

Pelo meio do campeonato cronometrado, a AGLN utiliza a pista para quatro das 15 provas de velocidade, em que seis galgos (ou menos se não houver os suficientes) participam em séries de eliminação até à final.

Para isso, dizem os galgueiros, é preciso um investimento emocional, físico e financeiro elevado. Entre ração (60 euros por saco: "há mais baratas, mas menos boas e ninguém quer os cães malnutridos", diz Vítor Costa), alguma massa e carne, às vezes, cuidar dos canis para estarem impecáveis, cuidar do cão (levá-lo a correr, passear, escová-lo, limpar-lhe as unhas, dar-lhe banho, desparasitagens) não chegam cem euros por mês. Mais as consultas no veterinário, que rondam os 80 euros.

"Há quem venha com os trailers, e eu não tenho nada contra isso, são perfeitamente seguros. Eu comprei uma carrinha, uma Fiat Scudo à Dogalmar, principal criador de dog-alemão em Portugal. Tem isolamento, ventoinha e controlo de temperatura na cabina, onde cabem três ou quatro galgos", diz o galgueiro Ricardo Rodrigues, 25 anos. "Eu e a minha namorada temos dois carros, mas esta carrinha é uma forma de transportar os galgos em excelentes condições", prossegue o jovem de Ribeirão (Famalicão).

E reage às críticas que pululam nas redes sociais e em comunicados da SOS Animal. "Já pedi provas que mostrem que são galgos de Portugal. Todos têm uma tatuagem inamovível que identifica o criador. Nunca me mandaram provas. Aquilo são imagens de galgos espanhóis. Os nossos são galgos ingleses", aponta. A diferença para os entendidos é óbvia: os "nossos" são mais esguios e velozes, os espanhóis mais maciços e dados à resistência.

Sofia Campos, de 21 anos, anda nos galgos desde que nasceu: "O primeiro galgo que o meu pai comprou foi há 20 anos", diz, não muito longe de casa: Terroso, Póvoa de Varzim. Num dia particularmente feliz. No intervalo para almoço, de duas horas e meia (entre o meio-dia e as 14:00), escovava Ofélia, de pelo brilhante e reluzente. "Faz 2 anos hoje." Ofélia, dócil, só não gostou muito que a tratadora a forçasse a mostrar as tatuagens no interior das duas orelhas, com os números e letras que identificam o cão e o galgueiro, para o DN fotografar. "A SOS fez um vídeo ridículo com imagens de Macau e a situar locais em Portugal. Nunca vi ninguém do PAN a mostrar imagens de cães maltratados ou abandonados em Portugal", dispara a orgulhosa galgueira, que tem ainda o Santarém ("é de um amigo") a competir na Estela. "E convivem com dois reformados, a Ervilha e o Hard Rock, com 6 anos. E ainda com uma serra-da-estrela, que só quer estar com eles, e eles com ela", diz. Mas o brilho nos olhos chama-se Ofélia: "Às vezes, o meu pai quer levá-la a passear quando está a chover. Eu já nem me mexo. A chover, ela não vai, e eles adoram atividade física."

Fernando Lopes diz-se "implacável" para com quem infringe as regras ou põe em causa o bem-estar dos galgos. "Aqui há um mês, um galgo estava num certo sítio e em perigo. Eu disse logo: "Este senhor não pode ter galgos." Antes, em Guimarães, uma senhora tomou conta de um galgo abandonado. Pela tatuagem, percebemos logo quem era. Falei com ele e disse-me que lho tinham roubado. Eu disse-lhe que não estava a tentar resolver um problema, mas a criar um problema. Disse-lhe que tinha de me dar a carteira e a caderneta do cão. Fui lá e deu-me os documentos e eu paguei os 80 euros da consulta do veterinário. A AGLN protege os galgos. Vamos buscá-los imediatamente e castigamos o galgueiro. Nem é preciso dizerem-nos que estão mal, nós sabemos e vamos logo buscá-lo", garante o presidente da associação, que anda há 20 anos nesta vida.

"Eu pergunto: essas instituições que fazem acusações sem se documentarem ou investigarem devidamente sabem que por detrás dos galgueiros há pessoas? Nós ajudamos muitas associações, muitas pessoas. Nós queremos ajudar. Já contribuímos para associações de luta contra o cancro, para paróquias, para ajudar contem connosco. Temos algum dinheiro porque trabalhamos muito, fazemos estes convívios que as pessoas pagam para ajudar a desenvolver outras ações, não só as provas, mas também a solidariedade", diz Fernando Lopes, acrescentando: "Temos o mesmo número de galgueiros, mas menos galgos. Eu digo que se tens muitos galgos, não os tratas bem, porque não tens tempo. Temos uns 120 galgueiros e são inscritos cerca de 60 cachorros por ano. No total, não teremos 300 galgos inscritos."

Atividade recreativa

Se há uma Federação Nacional de Galgueiros, quatro associações e cinco campeonatos, as corridas de galgos são um desporto? "Pois, na verdade atividade recreativa é mais apropriado. A federação devia estar inscrita numa associação, como a Fencaça [Federação Portuguesa de Caça], porque dava outro poder de defesa e raio de ação ao setor", assume Vítor Costa, adiantando: "Mas estamos a evoluir com tudo o que nos rodeia, inclusive com as críticas. Desconheço casos de doping, mas admito que possa haver um ou outro galgueiro sem escrúpulos que dope os seus galgos, fazendo-o com elevado perigo porque nem saberá o que está a fazer", adianta.

"Estamos a desenvolver um projeto antidoping, mas vamos precisar de meios, como uma carrinha móvel própria e técnicos credenciados. Já estamos a discutir uma avença com um veterinário para estar sempre presente e fazer controlos. Nem sempre é possível, a doutora Ana Cláudia nem sempre pode vir, como hoje", explica.

A doutora Ana Cláudia é Cláudia Terroso, veterinária da Câmara de Vila do Conde que veio a terreiro defender incondicionalmente a atividade galgueira a norte, garantindo desconhecer maus-tratos e abandono de cães.

Aliás, é uma parceira muito estimada pela AGLN: é ela que trata de enviar o calendário de provas à equipa de Proteção, Natureza e Ambiente da GNR, uma das muitas regras cumpridas. "Mando a lista no início da época e mando para cada prova para a câmara, até porque a vereadora Dália Vieira e o vereador Pedro Gomes, e às vezes a presidente [Elisa Ferraz] estão presentes para entregar prémios", prossegue o vice-presidente.

Além disso, em todas as provas, os galgueiros têm de apresentar a carta e os documentos do galgo, que incluem o registo na associação (as tatuagens de identificação são efetuadas aos 6 meses), que inscreve toda a informação no livro de registos: ano de nascimento e iniciais do criador. "E têm de ser registados antes de abrir os olhos, depois já não podem ser registados, logo, não podem competir", complementa. Há ainda o registo do chip implantado no pescoço do cão, que é controlado pela veterinária, o atestado de saúde animal e as licenças que são pedidas às câmaras em cada corrida.

Por prova, e por galgo, paga-se uma taxa de inscrição (normalmente, dez euros - 20 no campeonato nacional), sendo os prémios, por norma, de cem euros - vai haver um prémio extraordinário de 500 euros para os campeões regionais, neste ano. Quanto ao esforço sobrecanino que são acusados de impor aos animais, Vítor Costa explica que, por prova, cada galgo pode faze,r no limite, quatro corridas: de manhã, o apuramento; de tarde, quartos-de-final, meias-finais e final. Neste domingo, competiram 11 cachorros (que fizeram o apuramento e a final, cinco na final de repescagem - os piores classificados; e seis na final de honra, os melhores). Na categoria de nacionais, os 24 inscritos fizeram três corridas (apuramento, meias-finais e final) e os 17 importados também. "A organização tem o cuidado de dar tempo de descanso, no mínimo 30 a 45 minutos.

Sangue para todos

A questão do abandono, nas críticas de SOS Animal, PAN e Bloco de Esquerda, misturam duas acusações: a do próprio abandono e a de manter os cães para ganhar dinheiro com o sangue.

"Eles gostam é disto, de correr", lança um galgueiro na zona de areia que serve para amortizar a correria-relâmpago dos galgos depois da linha de meta. O galgueiro dirigia-se a dois curiosos que tinham visto uma corrida em Amares (Braga) e estavam tão excitados que um deles ligava a outro para se lhes juntar - "tens de vir, isto é espetacular". "São os bichos mais meigos que há. E são os únicos que dão sangue a todos os cães. Se você tiver uma pastora-alemã a precisar de sangue, os doadores podem ser os galgos", conclui o galgueiro de dentro da pista.

Informalmente, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), na dependência do Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural (MAFDR), confirmou esta informação ao DN: "Os galgos são a raça mais propensa a ser doadora universal entre os cães."

A propósito, o Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, que foi contactado pelo DN, respondeu ao PAN: "O MAFDR não tem conhecimento da existência de corridas de galgos."

"Logo depois dessa resposta, fomos convidados para uma feira agrícola em que do programa constava uma corrida de galgos. O secretário de Estado da Agricultura ia lá estar, mas o MAFDR nega conhecimento das corridas de galgos", conta ao DN Cristina Rodrigues, membro da Comissão Política Nacional do PAN e líder deste projeto contra as corridas de galgos.

"Fazemos queixas à GNR e PSP, porque recebemos denúncias, muitas, sobre corridas que vão ter lugar", explica. Na Estela, estavam alguns agentes da GNR, mas a controlar o trânsito provocado pela popularidade da Feira da Estela. "Em terrenos privados, as forças policiais não podem fazer grande coisa. Podem verificar a documentação, a autorização da câmara municipal e sinais de maus-tratos visíveis", prossegue Cristina Rodrigues.

"Queixas de abandono não temos muitas", diz. "Temos conhecimento de que os galgos são dopados, mas a DGAV demite-se das suas competências e não faz fiscalizações", acusa.

"Pela tatuagem e pelo chip sabemos de quem são as ninhadas e atuamos de pronto", contesta Vítor Costa, que é o número dois de uma das duas instituições ligadas aos galgos alojadas em edifícios da Câmara Municipal de Vila do Conde. "Nós estamos na sede da Junta de Parada (União da Junta de Bagunte, Parada, Ferreiró e Outeiro), a federação no antigo edifício de uma escola, ali ao lado, mas reúne-se em Coimbra por ser mais central", contextualiza.

A presidente da Câmara de Vila do Conde diz não ter comentários a fazer sobre este assunto.

Entre ataques e contra-ataques, nota-se a desconfiança de alguns galgueiros, tanto na pista da Estela como na gestão da informação publicamente. "Está ali uma câmara. Não será...?", questionava algo rígido um galgueiro, ao início da manhã na pista de Contriz. "Estava a falar do PAN", ri-se Vítor Costa. Já depois do sorteio que determina em que pista correria o galgo da primeira corrida do dia (a colocação nas seis pistas é sempre sorteada), outro questionou o repórter fotográfico junto às boxes de partida. Mas uma vez identificados e apresentados, os repórteres foram recebidos em família. Uma família rural, da classe média e operária que se entretém com as capacidades atléticas dos atletas de quatro patas. Entre rojões, feijoada, vinho, cerveja ou os churrascos e farnéis de piquenique por que uma pequena franja optou em detrimento da refeição no bar da pista da Estela (e que por sete/oito euros deu de comer a cerca de 50 galgueiros e famílias, dos 8 aos 80).