A guerra começou o ano passado, mas ganha nova frente de combate. A Câmara Municipal de Mação está a preparar uma ação contra o governo por entender que o concelho está a ser tratado de forma discriminatória em relação a outros concelhos afetados pelos fogos, como Pedrógão Grande ou a Sertã. Na Assembleia Municipal, PSD e PS, uniram-se para mandatar o executivo municipal a avançar contra o executivo de António Costa.."Essa possibilidade está em cima da mesa, está a ser preparada, e é muito provável que venha mesmo a acontecer", diz o social-democrata Vasco Estrela, presidente da Câmara de Mação. Isto porque Mação foi o concelho com a maior área consumida pelas chamas, 28 mil hectares, em 2017 - , embora não se tenham registado vítimas mortais -, mas o apoio do Estado não cobrirá na totalidade os 2,7 milhões de euros de prejuízos estimados nas infraestruturas municipais, como acontece noutros concelhos afetados pelos fogos de junho e de outubro. O de Mação foi em agosto e ardeu perto de 80% do concelho, mais de 50 aldeias foram afetadas..Estes prejuízos, garante o autarca, "foram validados pelo governo" e foram contabilizados nos prejuízos que o governo enviou para Bruxelas - Comissão Europeia e Parlamento Europeu - para atingir o máximo de apoio europeu, o fundo de solidariedade. "Ora se serviu para receber a ajuda da União Europeia, como se compreende esta arbitrariedade do governo de distribuir de forma diferente as ajudas?" - questiona Vasco Estrela..O gabinete do ministro do Planeamento e das Infraestruturas reconhece que os prejuízos dos fogos foram todos contabilizados, de junho a outubro. Mas, sublinha que "o fundo de solidariedade representa uma pequeníssima parcela dos apoios que foram e estão a ser concedidos". No âmbito desse fundo. A União Europeia decidiu atribuir a Portugal 50,6 milhões de euros..No Parlamento, o ministro Pedro Marques, já foi questionado várias vezes sobre o assunto, em particular pelo PSD, e o argumento para a diferenciação de apoios aos municípios afetados foi a de que "a comparticipação é a 100% para os incêndios de junho e outubro e a 60% para os restantes atendendo ao grande impacto social e económico dos incêndios de junho e outubro". Ao DN, o gabinete do ministro Pedro Marques reiterou esta decisão..Nos incêndios de Pedrógão Grande morreram 66 pessoas e registaram-se 250 feridos e nos de outubro foram 50 o número de vítimas mortais.."Respeitamos muito todos os que morreram e os impacto que isso teve nos concelhos, e isso foi tratado à parte, e bem. Outra coisa são os apoios diretos aos prejuízos pelos incêndios", frisa o presidente da Câmara de Mação..Silêncio de Marcelo.Vasco Estrela escreveu "três cartas ao Presidente da República" e falou "algumas vezes" ao telefone com Marcelo Rebelo de Sousa, sem tenha surtido efeito na decisão do governo. "O Presidente podia ter tido uma atitude mais pedagógica", critica o autarca..Mais violento contra Marcelo é o deputado social-democrata Duarte Marques, que num artigo de opinião publicado esta terça-feira no Expresso, diz que "o governo viola a lei, perante o silêncio do senhor Presidente da República, que já demasiadas vezes foi alertado para isso, mas viola um princípio fundamental da nossa Constituição: o princípio da igualdade"..A lei a que o deputado se refere é a que foi aprovada por todos os partidos na Assembleia da República, de março deste ano, que alargou os apoios dados pelo Estado aos lesados da tragédia de Pedrógão e dos incêndios de outubro a outros concelhos também afetados. Entre os quais, segundo Duarte Marques, caberiam Mação, Sardoal, Abrantes, Ferreira do Zêzere, Fundão, Nisa e Gavião, entre outros.."Para terem melhor noção do gravidade desta injustiça vejamos os exemplos das verbas previstas para fazer face às infraestruturas municipais danificadas: em Castanheira de Pera arderam 3.560 hectares mas vão receber 3.450 milhões de euros; em Figueiró dos Vinhos arderam 11.504 hectares e vão receber 3,5 milhões de euros; em Góis arderam 12.651 hectares e receberão 1.527 milhões de euros; em Pedrógão Grande arderam 9.775 hectares e receberão 4.114 milhões de euros; na Sertã arderam 14 mil hectares e vão receber 2.490 milhões de euros para fazer face aos prejuízos. Todos estes apoios são pagos a 100% segundo a CCDR-Centro", afirma no seu artigo de opinião..O deputado frisa também que "porque não morreu ninguém no concelho de Mação" - vítima do fogo que lavrou durante vários dias, em agosto de 2017 -, "as pessoas, os empresários, os reformados e as empresas não receberam até hoje qualquer ajuda do governo. "Além das doações dos portugueses, só o apoio da Cáritas e da Gulbenkian chegou às vítimas do concelho de Mação para recuperar as suas habitações", escreve Duarte Marques..E remata com o paralelo de um incêndio de grandes dimensões recente: "Em Monchique ardeu quase tanto (27 mil hectares) como em Mação e só espero que tenham mais sorte do que as pessoas do concelho que me viu nascer. Felizmente não morreu ninguém em Monchique e espero que 'essa felicidade' não os venha a impedir de receber os apoios devidos parte do Estado.".Na Provedoria de Justiça não entrou nenhuma queixa de discriminação relativa ao incêndio de Mação, mas a provedora, Maria Lúcia Amaral - que está a gerir todo o processo de indemnização aos "feridos graves" dos incêndios de Pedrógão e de outubro - está, por iniciativa própria, a acompanhar de uma maneira mais vasta tudo o que diz respeito aos incêndios do ano passado. Neste momento tem uma jurista a compilar o que vai chegando à instituição sobre esta matéria, incluindo reclamações de eventual discriminação no tratamento dos cidadãos afetados pelos fogos.