Há 50 anos o aeroporto ia para Rio Frio, com 90% de hipóteses. Sabemos que a história foi outra

Fonte da Telha, Montijo, Porto Alto e Rio Frio: em 1969, os estudos para o novo aeroporto de Lisboa centravam-se em hipóteses na Margem Sul. A notícia do DN espera há meio século por uma confirmação. E o Montijo é agora a opção.

O novo aeroporto de Lisboa que irá finalmente aterrar no Montijo (a acreditar nas declarações políticas, que podem ser postas em causa pelo estudo de impacte ambiental) já esteve garantido há 50 anos para Rio Frio, noticiou o DN neste dia 29 de janeiro de 1969. "Tudo o parece indicar... O futuro aeroporto internacional de Lisboa deve ficar a 40 quilómetros da capital", titulava o jornal no fundo da primeira página, a toda a largura.

Nesse ano, foi criado o Gabinete do Novo Aeroporto de Lisboa (GNAL), que produziu os quatro primeiros estudos de possíveis novas localizações: Fonte da Telha, Montijo, Porto Alto e Rio Frio - para além da manutenção da Portela.

O engenheiro civil Rui Alves da Silva Sanches, sobrinho de Marcelo Caetano (que era o presidente do Conselho de Ministros, desde setembro de 1968), ocupava a pasta das Obras Públicas desde o dia em que o seu tio tomou posse e o escolheu. Ficaria no cargo até à Revolução de 1974, sem que o aeroporto avançasse.

Num registo peculiar, sem indicar qualquer fonte para a notícia, há 50 anos, dizia-se que "oficialmente, nada está ainda estabelecido quanto ao local onde se situará o novo aeroporto internacional de Lisboa", para logo se descrever o terreno em causa: "Parece, no entanto, decidido que seja na margem sul do Tejo e, tudo indica, numa proporção de 90%, que será na zona plana que, a partir de Rio Frio, na estrada do Montijo a Águas de Moura, para lá do marco geodésico conhecido pela 'Guarita do Chaparral do Homem', a perder de vista, até ao apeadeiro do caminho-de-ferro de Venda do Alcaide."

No texto do DN, acompanhado de uma fotografia que mostrava o amplo terreno, acrescentava-se que este era, "em parte, coberto por chaparros, árvores baixas e tortuosas, cuja madeira apenas serve para lenha". Aí "situa-se a área onde irão ser construídas as longas pistas, destinadas aos grandes transportes do futuro, como os gigantes 'Concorde'", que tinham começado a voar em março de 1969.

O transporte do futuro chegou e partiu entretanto - o avião supersónico deixou de ser operado comercialmente em 2003, depois de um acidente em 2000 -, e o novo aeroporto continuou a ser uma miragem.

A decisão que estaria para breve em 1969 só chegou dois anos depois, em 1971, quando o GNAL escolheu Rio Frio como a melhor opção. No DN, há 50 anos, dizia-se que "na Câmara Municipal de Palmela nada há, porém, oficialmente". E acrescentava-se: "Tudo se processará através do gabinete de estudo, criado para a grande obra. Também ainda não foram contactados, para efeito de compra, os proprietários da Herdade de Rio Frio. Mas não resta dúvida de que é aquela a zona visada para o aeroporto."

Segundo o DN, os trabalhos exploratórios já estavam em marcha. "A confirmá-lo estão os numerosos postos hidrométricos e higrométricos disseminados por toda a zona a fim de se medirem as condições atmosféricas, ventos, nevoeiros, humidades, chuvas. Está, também, prevista a construção de uma auto-estrada que, no Casal do Marco, irá ligar à que serve a ponte sobre o Tejo [a atual ponte 25 de Abril], ficando, assim, o aeroporto ligado à capital em menos de meia hora, pois o trajeto não será muito superior a quarenta quilómetros."

A escolha em 1971 referia-se a uma aerogare que ocuparia 6550 hectares, para um total de 21780 hectares do projeto. Em 1972, foi estudada a hipótese de Alcochete, mas Rio Frio continuava a ser a opção preferida porque era a "única [localização] em que era possível dispor de uma área que permitisse a instalação de um aeroporto de grandes dimensões, sem quaisquer restrições para ampliações futuras".

Com o 25 de Abril, há um compasso de espera para avançar com o projeto. O GNAL é desativado em 1978 e as suas funções são integradas na ANA - Aeroportos e Navegação Aérea, que relança o processo de escolha em 1978. E logo ali a possibilidade da Margem Sul do Tejo é deixada cair, passando a ser apontada como local preferencial a Ota, no concelho de Alenquer, a cerca de 48 quilómetros de Lisboa.

Na década de 1990, segundo Nuno Marques da Costa, do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (numa cronologia consultada pelo DN), "é reaberto o processo de escolha, centrando‐se os estudos na avaliação das duas alternativas, Rio Frio ou Ota, para a localização" do novo aeroporto. "Durante esse processo ainda foi considerada a localização do Montijo, a atual BA6 [Base Aérea 6]".

A opção da Ota foi escolhida em 1999, com o governo de António Guterres, depois de divulgados estudos de viabilidade económica e ambiental, passando a integrar, de acordo com Marques da Costa, "os diferentes instrumentos de planeamento, nacional, regional e local, bem como os setoriais".

O projeto que foi estando na mesa dos sucessivos governos democráticos, com mais ou menos críticas, foi abandonado em janeiro de 2008, três anos depois de se ter decidido avançar com a construção na Ota, quando um estudo coordenado pelo Laboratório Nacional apontou o Campo de Tiro de Alcochete como a opção mais favorável para a localização do aeroporto, um consenso que até aí parecia talhado para a Ota e que foi quebrado em 2007 com a intervenção da Confederação da Indústria Portuguesa que veio propor a localização em Alcochete.

O primeiro-ministro de então, José Sócrates, chegou a anunciar a construção da infra-estrutura de novo na Margem Sul, mas com a troika a aterrar na Portela, o governo de Passos Coelho voltou a meter o projeto de construção do novo aeroporto numa gaveta funda, começando a falar-se da opção Portela+1.

Agora, o executivo socialista de António Costa foi à gaveta desencantar a solução da Portela+1, com outra localização, já outras vezes referida: a do Montijo, aproveitando as atuais instalações da base aérea ali existente, 50 anos depois da primeira página do DN. Será o final da história? Falta (pormenor maior) a resposta de um estudo de impacte ambiental.

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