Fernanda seduzia franceses pela internet. Chegados a Viseu, eram burlados

Portuguesa de 43 anos enganou dezenas de homens nos últimos anos. Como tinha sido condenada a pena de prisão em França, regressou a Viseu onde fazia o mesmo. Está detida e irá agora ser julgada com os cúmplices: o marido, o filho e um amigo

O esquema funcionou em França e decorria, com métodos mais violentos em Portugal. Uma mulher portuguesa seduzia cidadãos franceses, através de sites de encontros na internet, com promessas de casamento mas com um único objetivo real: retirar-lhes todo o dinheiro que conseguisse. Para a sua vivenda em Viseu, atraiu, pelo menos, sete homens franceses, com mais de 60 anos, que chegavam convencidos que iam viver momentos de paixão com a nova amiga. Acabavam sempre sequestrados, roubados e agredidos. Nanda, ou Charlotte como se apresentava na internet, e os seus cúmplices - o marido, o filho e um amigo francês - começam a ser julgados na quarta-feira, dia 6, em Viseu por crimes de sequestro, ofensas à integridade física, furto e burla informática. Os prejuízos dos ofendidos são de centenas de milhares de euros.

Fernanda Costa era conhecida como Nanda, quando agiu em França, ou como Charlotte quando desde Portugal se apresentava nos sites de encontros na internet. Tem agora 44 anos, com grande parte deles passados em França onde cresceu. Com raízes familiares em Viseu, regressou a Portugal após ter sido apanhada no mesmo esquema em França. Neste país, chegou a estar em preventiva em 2015 e em março de 2018 foi punida em tribunal com uma pena de prisão de quatro anos e três meses apesar de nunca ter comparecido ao julgamento. Nessa altura, da sentença, já estava detida em Portugal, o que ainda se mantém, sendo a única dos acusados em preventiva. O seu filho Ruben está em prisão domiciliária com pulseira eletrónica, o marido François Lopes e o amigo francês Pierre Etcheverry estão ambos com apresentações periódicas às autoridades.

Terá sido o cerco da justiça francesa que fez Fernanda regressar a Viseu, de onde é originária. E prosseguiu com o esquema montado com os três cúmplices. Ligava-se à net e iniciava a "caça" às vítimas. Usava videochamadas para se mostrar, loura, atraente e bem falante. Do outro lado apanhava homens solitários que acreditavam que tinham ali uma potencial companheira. E, nessa ilusão, viajavam até Viseu ao encontro daquela que conheciam como Charlotte. Ela e os três comparsas usavam sempre nomes falsos.

Um dos homens franceses atraídos a Nelas esteve sequestrado pelo grupo durante três dias. Foi espancado e viu dinheiro a voar da sua conta bancária, mais de 200 mil euros, após o grupo se ter apropriado dos dados dos seus cartões. Quando já não tinha interesse para Nanda e comparsas, o homem foi libertado e procurou logo regressar a França no seu automóvel. Esqueceu-se que poderia ter o plafond dos cartões esgotados e quando tentou meter gasolina acabou por não ter dinheiro para pagar. A GNR foi chamada e, após a explicações do francês, a PJ entrou na história. A partir daqui, os investigadores portugueses descobriram todo um método que já havia feito várias vítimas em Portugal. Em outubro de 2017 o grupo acabou detido, com a PJ a resgatar um francês que estava fechado numa divisão da vivenda de Fernanda.

Vítimas até vendiam casas e carros

Em França, a portuguesa e o amigo francês foram condenados num processo que correu no tribunal de Mont Marsan. Foi punida com quatro anos e três meses de prisão por ter enganado dez homens em cerca de 1,2 milhões de euros. Tudo funcionava da mesma maneira e com os mesmos cúmplices. Numa rede social, a mulher surgia como Nanda e disponível para um relacionamento com um homem. Dizia ser cabeleireira e possuir um salão de beleza. Além disso, o pai seria um homem com dinheiro e a sua vida era boa. Tudo estratagemas para ganhar a confiança dos homens e assim os convencer mais tarde que um imprevisto qualquer a fazia necessitar de uma grande quantia de dinheiro. A outros dizia que se estava a divorciar de um grande promotor imobiliário e que iria ficar rica.

Entre os homens que aderiram à conversa e posteriores encontros com Nanda, houve desde um jovem de 24 anos até um reformado de 75. Eram todos de cidades da região do sul de França, como Bayonne, Biarritz, Anglet ou Bergerac. Em comum a todos havia a solidão, o que os tornava presas fáceis para esta sedutora que se fazia valer da sua beleza para os atrair. Até fez promessas de casamento a alguns.

Quando já estavam convencidos, Nanda aplicava o golpe. Inventava histórias dizendo precisar de dinheiro para resolver um problema fiscal e que seriam logo reembolsados. Pelo menos dez vítimas foram assim burladas. Entre os lesados houve quem vendesse casas para dar dinheiro à portuguesa. Todas as histórias acabaram da mesma maneira. A mulher desaparecia, as vítimas ficavam sem o dinheiro. Muitos ficaram destruídos, como um reformado de 75 anos que vendeu o seu único bem, a casa, para dar dinheiro a Nanda. Outro homem, sexagenário, que tinha enviuvado, ficou sem 120 mil euros e em tribunal.

Mas o caso de homem de 72 anos, de Hagetmau, foi o que mais surpreendeu as autoridades de Saint-Sever, onde apresentou queixa. Nanda fez o francês perder a cabeça. Vendeu o apartamento para ajudar Nanda quando ela precisou de dinheiro subitamente. Os bens que possuía foram levados pela portuguesa supostamente para a casa que ambos iriam habitar em Portugal. E o carro, um Mercedes? O homem foi convencido por Nanda que iriam viajar para Portugal e seguiam os dois na viatura, em Espanha, quando a portuguesa pediu para parar numa estação de serviço. Queria muito uma garrafa de água. O homem acedeu e quando regressou ao automóvel com a água na mão já não havia carro nem Nanda. Tinham desaparecido.

Fernanda e os cúmplices já não ouviram a sentença, na medida em que já estavam em Portugal. Tinham percebido que a sua vida em França estava condenada e desapareceram do país instalando-se em Viseu. Quando foi ouvida, após as queixas das vítimas, disse ao procurador que não tinha feito nada de mal. "Foi tudo por amor", argumentou, rejeitando ter enganado os homens.

Sala com acesso biométrico

Se em França ainda podia argumentar que as suas conquistas agiram sem coação, o que não convenceu o tribunal, nos casos registados em Portugal será difícil. Os homens deslocavam-se para Viseu por sua iniciativa, após travarem conhecimento com Charlotte, como se identificava agora pela internet. Só que depois de entrarem na luxuosa vivenda nos arredores de Viseu - Fernanda tem duas casas geminadas na mesma urbanização -, os franceses, quase todos com mais de 60 anos, ficavam praticamente prisioneiros. Ali encontravam, além de Fernanda, o marido, o filho e Etcheberry, sempre apresentados como amigos.

Às vítimas era pedido para deixarem as bagagens numa divisão da casa, protegida com acesso biométrico, por impressão digital, disse fonte da PJ citada pelo Observador. Era o primeiro passo para roubar o que pudessem. Depois procuravam descobrir os códigos dos cartões bancários. "Durante o primeiro dia da estada de cada vítima, os suspeitos acediam aos seus cartões de crédito e de débito e aos respetivos códigos secretos, usando-os depois para efetuar levantamentos e compras diversas", afirmou a PJ quando os deteve.

Quando foram efetuadas as buscas, a PJ descobriu um sexagenário francês que estava recluso na casa e que já se tinha apercebido que estavam a retirar dinheiro da sua conta bancária. Antes disto, a PJ quando já investigava o grupo tinha recebido a informação de que um cidadão francês estava enclausurado na vivenda. Só não agiu logo aí porque esse francês acabou por aparecer em França. Já sem dinheiro e vítima de agressão.

O julgamento, relativo aos factos ocorridos em Portugal, começa na quarta-feira, dia 6, no Tribunal de Viseu. Fernanda Lopes pediu ao tribunal que substituísse a prisão preventiva por uma medida de prisão domiciliária. O juiz remeteu a decisão, com audição da arguida, para o arranque do julgamento. O filho Ruben tem outro processo no mesmo tribunal referente a um crime sexual.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Os aspirantes a populistas

O medo do populismo é tão grande que, hoje em dia, qualquer frase, ato ou omissão rapidamente são associados a este bicho-papão. E é, de facto, um bicho-papão, mas nem tudo ou todos aqueles a quem chamamos de populistas o são de facto. Pelo menos, na verdadeira aceção da palavra. Na semana em que celebramos 45 anos de democracia em Portugal, talvez seja importante separarmos o trigo do joio. E percebermos que há políticos com quem podemos concordar mais ou menos e outros que não passam de reles cópias dos principais populistas mundiais, que, num fenómeno de mimetismo - e de muito oportunismo -, procuram ocupar um espaço que acreditam estar vago entre o eleitorado português.