Bolos e café para receber os polícias que fazem esquecer a solidão

PSP tem agentes cujo trabalho tem importante vertente social. Fazem parte do policiamento de proximidade e acompanham quem vive nas zonas mais antigas de Lisboa.

Mesa posta com bolos, queijo, fiambre e café. Antes, a receção na escada com beijos e a curiosidade de saber como vão os agentes da PSP que acabam de tocar à porta de Irene Paiva, num prédio junto à Almirante Reis (Lisboa). Irene e os três polícias que sobem pela escada apertada são conhecidos há já algum tempo, há tanto que no caso de um deles - o agente Guimarães - até sabem muito da vida um do outro.

Uma relação quase familiar que é também uma das mais-valias do programa de policiamento de proximidade da 1.ª Divisão da PSP, em muitos casos o trabalho mais social que dezenas de agentes fazem diariamente, neste caso em Lisboa, mas que se estende a todo o país.

Esta mulher nascida na Guarda há 90 anos tem nestas visitas um dos poucos momentos de contacto com outras pessoas além do marido - "o meu Alcides", como se lhe refere. Sofre de uma demência - "suspeitam que é Alzheimer", diz - e pouca companhia lhe faz. Por isso, sempre que o agente Guimarães toca à campainha o dia fica melhor. Afinal, vai ter um ouvinte - sim, ela fala muito e raramente deixa ser interrompida.

A "dependência" é tanta que quando passa algum tempo sem visitas, liga para o telemóvel do agente, faz questão de dizer: "Sim, quando eles não aparecem ligo-lhes eu."

Natural de Vila Franca das Aves, Irene e o marido são duas das 450 pessoas com mais de 65 anos que a PSP tem sinalizadas só na zona da Baixa Lisboeta. Estão registados no Modelo Integrado de Policiamento de Proximidade, programa que criou as Equipas de Proximidade e de Apoio à Vítima, agentes que são responsáveis pela segurança, prevenção e vigilância em áreas residenciais maioritariamente habitadas por idosos, apoio às vítimas de crimes e acompanhamento pós-vitimação, com uma maior atenção aos casos mais complicados.

Ou seja, esta é uma intervenção junto das pessoas mais vulneráveis da cidade, que estão sozinhas ou casais idosos sem família que os acompanhe, em questões tão simples como a procura de um local para habitar - como é o caso de Elvira Dinis, de 87 anos, de quem falaremos mais à frente e que já sabe que tem de deixar a casa no Castelo em janeiro - ou apenas de uma passagem para cumprimentar, dar conselhos sobre os cuidados a ter em relação a tentativas de burlas ou para saber como estão de saúde.

"Se for preciso dou umas bengaladas"

Irene e o marido praticamente não contam com mais nenhum familiar - "não tenho filhos, tenho uns sobrinhos, mas só um, que mora no Porto, é que é bonzinho", conta - e, por isso, a ida dos agentes à sua casa é um dos momentos sempre esperados pela mulher que um dia saiu da terra para ir para o Brasil e que anos mais tarde veio para Lisboa, onde comprou e vendeu "16 ou 17 restaurantes" sempre na zona da avenida Almirante Reis, diz.

A relação de confiança com os polícias é tal que o agente que acompanha o casal há mais tempo até tem autorização para ir à cozinha colocar a água a aquecer para o café.

A vontade de conversar de Irene é tanta que vai saltando de temas. Começa por contar como conheceu os agentes - "um dia sai para almoçar com o meu marido e quando chegámos aqui às cinco horas tinha tudo arrombado, tudo no chão. Fui à PSP de Arroios, quando lá havia, e vieram cá dois senhores, depois mais dois e depois apareceu o agente Guimarães" - passa para o curso de "costura que tirei na Guarda", vai à experiência no Brasil e acaba com o dia-a-dia atual. São histórias que os agentes conhecem muito bem e que vão recordando com Irene.

Pelo meio lembram-lhe as conversas sobre os cuidados a ter quando anda na rua. Conselhos que não esquece. "Ando com a carteira pendurada ao pescoço e trago a bengala. Se for preciso dou uma bengalada nas pernas [de quem a quiser enganar]. E o Alcides também tem a dele. Bato no pescoço e nas pernas para ele [um eventual assaltante ou burlão] cair", explica mostrando que não se esqueceu do que lhe vão dizendo.

Irene é bem-disposta e insistente, pelo menos no que diz respeito aos bolos que quer ver comidos. E gosta de ajudar, garante, justificando dessa forma ter moedas no bolso do casaco de malha que veste. "Há dias andava por aí um senhor a arrumar carros e ouvi-o dizer que tinha fome. Fiz-lhe uma sandes mista e dei-lhe um leite com chocolate".

Atenta a tentativa de burla

Agora Irene vive para o marido e já não entra em negócios como os que fez quando veio do Brasil. "Fui para lá aos 22 anos, conheci o meu Alcides, voltei em 1972", conta, recordando que foi com uma amiga cujo marido saiu de Portugal depois de ter estado preso. "Ele andava metido no comunismo e quando foi solto foi para o Brasil", diz.

Uma experiência que nem começou bem, como faz questão de contar ao DN. "Estava lá há um mês quando vi uma coisa que me abriu os olhos. O marido da minha amiga diz-me para me por bonita e ir com ele a um fotógrafo tirar fotografias pois havia um japonês que queria casar com uma portuguesa. Disse-lhe para levar a mulher dele e fui-me embora".

Depois desta experiência acabou por ir trabalhar para casa de uma portuguesa e depois para um casal de franceses. "A minha patroa francesa dizia que se eu quisesse ir trabalhar para Paris podia ir à vontade pois sabia fazer de tudo", salienta.

Mais um salto de tema de conversa e quer contar um caso de tentativa de burla de que ela e o marido iam sendo vitimas.

"Fui às finanças e o meu Alcides ficou sentado numa pedrinha. Passado um bocado chegou ao pé de mim e pediu-me 80 euros porque estava um senhor lá fora [do edifício das finanças] a dizer que tinha uma encomenda do sobrinho do Porto. A senhora das finanças também não acreditou. O homem apareceu com uma carrinha e a dizer que nos dava boleia para casa e no caminho fez-me muitas perguntas. Ao chegar a casa disse que ia ligar ao meu sobrinho, ele dizia que não era preciso, mas eu subi. Quando desci já não estava cá", conclui.

Neste ponto os agentes da PSP aproveitam para lembrar que uma parte do seu trabalho neste policiamento de proximidade - que também passa por ajudar pessoas na rua ou ver como estão os comerciantes das zonas que patrulham - é alertar para uma de três situações: o aparecimento de alguém a dizer que é funcionário da EDP, da empresa da água ou que tem uma encomenda enviada por um familiar, mas que tem de pagar determinada verba para a receber e que depois o tal familiar dá-lhes o dinheiro.

"Fazia uma feijoada à brasileira muito boa"

Irene Paiva recorda o que já viveu, os negócios que fez - no Brasil tinha propriedades que foram vendidas mas não lhe deram o dinheiro, em Portugal comprou e vendeu terrenos e também aqui tem uma história: "Vendi um terreno com casa na Charneca [da Caparica] por 14 mil contos [cerca de 70 mil euros]. Esteve à venda e não vendia, sempre que tirava a placa quando a voltava a por aumentava o preço."

Esta faceta surgiu depois de uma "doença do coração" e da passagem por quase duas dezenas de restaurantes em Lisboa. "Comprava as casas, fazia-as e depois vendia-as", explica, acrescentando o segredo desse sucesso: "Fazia uma feijoada à brasileira muito boa e as empadas também". Segundo conta a sua fama era tal que rapidamente os clientes enchiam os restaurantes. E enquanto contava vira-se para os agentes e garante que lhes vai fazer empadas um dia.

Mas, agora a vida de Irene é diferente. Passa mais tempo em casa, "o Alcides dorme até às três da tarde, depois vamos almoçar [fora de casa], damos uma voltinha e regressamos. Eu estou bem dentro do possível, mas há a doença do Alcides, tenho de ter paciência para ele. Já eu durmo pouco e passo a maior parte do tempo a recordar coisas do passado". Apesar desta "nuvem mais negra", Irene rapidamente recupera a boa disposição e fala sobre os passeios com o marido. "Estou casada há 50 anos e na rua vou sempre de mão dada com o meu Alcides. Quando digo os anos que estou casada dizem-me 'hoje já não há disto'".

Passaram quase duas horas desde que os agentes tocaram à campainha e Irene continua a sorrir e a falar, e quando lhe dizem que têm de sair, garante que se eles não voltarem ela vai-lhes ligar. Pelo que se viu e ouviu é certo...

Sair de casa até janeiro

Num outro bairro de Lisboa, junto ao Castelo de São Jorge, Elvira Dinis também tem a companhia de agentes da PSP. Tal como no caso de Irene a confiança entre a moradora e o agente Nuno Dias é tal que ele sabe onde pode ir buscar a chave de casa desta mulher de 87 anos que vive sozinha num primeiro andar onde se chega subindo umas escadas íngremes. Tão a pique que Elvira não conseguiria subir sem o corrimão que a junta de freguesia ali colocou.

A sua referenciação pelas equipas de policiamento de proximidade surgiu na sequência de um problema familiar e desde aí que é acompanhada e ajudada pelos elementos da 1.ª Divisão da PSP de Lisboa.

Como acontece atualmente em que os agentes foram alertados para o facto de o prédio onde Elvira vive ter sido vendido e de ela já ter recebido a notificação que tem de deixar a casa até janeiro. Segundo a PSP a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e a Santa Casa da Misericórdia estão a tentar arranjar um local para viver. Um exemplo do trabalho destas equipas que, neste caso particular, também pediram ajuda à junta para que o seu advogado pudesse tentar resolver um problema relacionado com o IRS de Elvira.

Elvira não sabe quem comprou o prédio, nem para que querem a casa, mas desconfia que será para a transformar em alojamento local. "Há aqui muita gente a alugar casas. Mas, ainda mora muita gente do tempo em que éramos miúda", diz. Vive sozinha, tem um filho que mora no andar de cima, mas pouca companhia lhe faz conta esta idosa que garante ser autónoma. "Vou ao Pingo Doce e à Baixa", frisa.

No entanto, nem tudo corre assim tão bem. Por exemplo, no dia em que o DN esteve na casa de Elvira, os agentes recordaram-lhe várias vezes que tinha o almoço em cima da mesa da pequena cozinha, falando-lhe ainda dos medicamentos que tem de tomar.

Neste caso, puxa de um saco de plástico e mostra várias caixas. "Tomo 28 medicamentos por dia. Tantos como o número do elétrico para a Graça", explica ao mesmo tempo que mostra um papel onde tem anotado por período do dia os comprimidos que tem de tomar.

Elvira tem um ar mais triste e não fala tanto como a destinatária da primeira visita do dia. Dos agentes que a vão visitar diz serem "simpáticos". Só fica fica mais alegre quando recorda que foi morar para o Castelo aos 17 anos, que depois passou 27 em Angola, e que quando regressou a Portugal voltou para aquele bairro.

Agora prepara-se para uma nova etapa. "Querem tirar-me a casa, tenho-a paga até janeiro", diz. Não gosta de falar da família, além do filho que mora no andar de cima tem um outro e teve "uma filha que já morreu". Termina as poucas palavras com uma recordação: "Já tive uma casa cheia, agora não tenho ninguém."

Só mesmo a passagem periódica dos agentes da PSP.

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