Corte de vagas em Lisboa e Porto pode levar a fuga de alunos para o privado

Alberto Amaral, presidente da Agência de Acreditação do Superior, admite que alunos do Porto podem preferir pagar propinas a deslocações. Universidade de Lisboa também antecipa recurso a privados após corte de vagas.

O presidente da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), Alberto Amaral, admite que muitos alunos optem por recorrer a universidades privadas para compensar a quebra de 1066 vagas em Lisboa e no Porto, preferindo assumir os custos de uma propina a deslocarem-se para uma instituição do interior do país.

Pelo menos no caso da Invicta, diz o antigo reitor da Universidade do Porto, a opção dos estudantes pelo particular é uma forte probabilidade: "Quem olha para a região norte, há três ou quatro instituições públicas, a Universidade do Minho, a Universidade do Porto, o Politécnico do Porto e Aveiro. E todas elas têm mais candidatos do que vagas", refere. "Ao suprimir vagas aqui no Porto, não têm fuga. Seria o Minho e Aveiro mas essas instituições também estão saturadas."

Assim, acrescenta, "há duas alternativas: ou vão para o Interior ou vão para o privado, para a Universidade Católica, a Lusíada..."

A possibilidade de optarem pela segunda alternativa, diz, é justificada por uma questão de custos: "Quando se faz as contas aos cursos, fica mais barato ir para uma privada do que para o interior", defende. Para já, ressalva, "isto são apenas conjeturas. Quando acabarem as colocações e tivermos os dados vamos comparar este ano com o anterior e ver para onde os alunos fugiram", conta. No entanto, reforça, "em termos de custos, para quem está na cidade do Porto é mais barato ir para um privado na cidade do que, por exemplo, para Bragança e assegurar as deslocações. Para além de que o próprio aluno pode preferir ficar na cidade".

Em relação a Lisboa, Alberto Amaral não acredita que o problema seja "tão complexo", até porque a cidade "tem menos candidatos do que vagas". No entanto, ao DN, o vice-reitor da Universidade de Lisboa, Eduardo Pereira, antecipa que esta transferência para o particular aconteça nas duas cidades. Sobretudo em determinados cursos.

No caso de Lisboa e Porto, acredito que vá haver muita transferência para o privado, sobretudo no Direito", defende. "Há muita oferta nas privadas. E as pessoas que não têm Direito na pública, ainda que com dispêndio económico, conseguem encontrar na privada. No caso do Direito, nem opção têm", acrescenta.

A Universidade de Lisboa reduziu, nesta primeira fase de acesso, as suas vagas de Direito em regime diurno de 560 para 445. No entanto, o corte de 115 lugares é compensado pela abertura de outros 86 em regime pós-laboral, o que se traduz numa redução efetiva de 29 vagas.

Transferir "de um litoral para o outro"

Para Eduardo Pereira, a principal preocupação da universidade nesta fase é "o que acontece aos alunos que não vão entrar e qual vai ser a implicação para as famílias desse movimento". O vice-reitor considera que, em boa parte, o resultado da redistribuição promovida pelo governo se está a traduzir "na transferência de vagas de um litoral para outro litoral. Aparentemente, existe a convicção de que litoral é apenas Lisboa e Porto", critica, lamentando que se tenha optado pela "discriminação negativa" destas duas cidades em vez de se adotarem "outras medidas de discriminação positiva do interior".

De uma forma geral, explica ao DN o vice-reitor, a reformulação da oferta atingiu "quase todos os cursos" da Universidade de Lisboa, com exceção daqueles que ficavam expressamente fora dessa medida: "Quando o governo diz que temos de reduzir 5% mas não podemos reduzir nas medicinas, nas físicas e nas eletrotécnicas, isto significa que temos de reduzir à volta de 6% nas restantes", conta. Ainda assim, não foram necessárias medidas radicais, como a supressão de cursos. A exceção foi na Arquitetura em que se tomou a decisão de "fundir dois cursos". Mas essa medida, conta, "já estava prevista".

Ler mais

Premium

Ricardo Paes Mamede

O FMI, a Comissão Europeia e a direita portuguesa

Os relatórios das instituições internacionais sobre a economia e a política económica em Portugal são desde há vários anos uma presença permanente do debate público nacional. Uma ou duas vezes por ano, o FMI, a Comissão Europeia (CE), a OCDE e o Banco Central Europeu (BCE) - para referir apenas os mais relevantes - pronunciam-se sobre a situação económica do país, sobre as medidas de política que têm vindo a ser adotadas pelas autoridades nacionais, sobre os problemas que persistem e sobre os riscos que se colocam no futuro próximo. As análises que apresentam e as recomendações que emitem ocupam sempre um lugar destacado na comunicação social no momento em que são publicadas e chegam a marcar o debate político durante meses.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.