Igreja pede à UE que seja "mais humana no combate às consequências da pandemia"

D. Américo de Aguiar centrou as homilias da peregrinação a que presidiu, em Fátima, nas consequências da pandemia. Se ontem falou da fome, hoje pediu mais responsabilidade à União Europeia. "É preciso dar o passo seguinte", considera o bispo auxiliar de Lisboa, num dia que não é apenas especial pelo regresso dos peregrinos ao Santuário, mas também porque a imagem da virgem faz 100 anos, e pode ser observada de perto, até ao final do dia

Desconfinar, ou "descongelar" (como lhe chamou o bispo Américo de Aguiar), mas devagarinho. Foi assim que os peregrinos voltaram ao Santuário de Fátima, nesta celebração de junho, a primeira aberta à participação dos fieis, desde o início da pandemia. Não há números oficiais, mas são visivelmente mais do que ontem, na procissão das velas. Esta manhã, o recinto voltou a ser o que era: gente de todas as idades (hoje mais idosos que ontem), rosário na mão, expressões de dor, rostos agora tapados pela máscara - esse apêndice que se juntou à vida de todos. E é difícil cantar de máscara - como bem concluía ontem Marco Daniel Duarte, que dirige o canto da assembleia.

Neste gradual desconfinamento que agora chegou a Fátima, ainda não há grupos estrangeiros, que sempre davam colorido ao recinto, num registo multicultural. Mas o Santuário não abdicou das bandeiras desses tantos países, nesta peregrinação internacional de junho. E por isso fez sentido o discurso de D. Américo de Aguiar na homilia desta manhã, quando citava Byung-Chul Han, ensaísta e filósofo sul-coreano, a propósito do livro "A expulsão do outro": "o grau de civilização de uma sociedade pode medir-se precisamente em função da sua hospitalidade". É que para o bispo, uma das grandes lições que que a humanidade aprendeu com a covid-19 "é que os nossos pequenos gestos podem ter consequência não só em relação a quem está próximo, mas também comunitária e mesmo universal". Perante isto, "todos teremos de reaprender a "gramática da hospitalidade": somos responsáveis pela saúde, o bem-estar, a alegria e a salvação dos outros". E nesse caminho, a União Europeia foi especialmente invocada: "terá de perceber que já não basta ser aquela original comunidade económica e política, mas terá de dar o passo seguinte - ser uma verdadeira comunidade humana, mais hospitaleira, determinada no combate solidário às consequências económicas e sociais desta pandemia, decidida no acolhimento de todos e apostada no respeito pela casa comum que todos habitamos".

Contra a divisão "entre brancos e pretos"

O final da homilia de D. Américo Aguiar subiu de tom quando começou por citar a história de vida da Irmã Lúcia, considerando que, com ela "somos convidados a valorizar a importância e urgência de uma relação inter-geracional". "Não permitamos que nos dividam entre novos e velhos, pobres e ricos, brancos e pretos". No recinto, havia várias famílias negras. Nenhuma delas quis falar ao DN, por estes dias, remetendo-se ao silêncio perto do tocheiro ou da capelinha das aparições.

O bispo que presidiu a esta peregrinação citou antes o cardeal Tolentino de Mendonça. Também ele quis replicar as palavras que se tornaram virais a 10 de junho, na cerimónia do Dia de Portugal: "reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego , avós e netos, crianças e adultos no auge do percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso. Ninguém é um peso para ninguém!"

No recinto do Santuário eram muitos os velhos, esta manhã. Mais do que ontem, em que a moldura se fez maioritariamente de casais jovens e com filhos. Na celebração deste 13 de junho o Santuário tinha apenas três grupos inscritos: um batalhão de 100 combatentes das ex-colónias, um de 15 e outro de 30, peregrinos a pé, vindos de Lisboa. Mas o DN encontrou junto à capelinha das aparições um grupo de Gondomar, que chegou a Fátima na quinta-feira. São cerca de 200 e pertencem aos Passionistas de Portugal, um grupo de voluntariado que começou por ser missionário, há mais de três séculos. Ana Maria, 58 anos, coordena este grupo que se destaca entre os peregrinos.

Não muito longe está uma família de oito pessoas, que acabou de chegar ao Santuário. Vêm de Vale de Cambra, gastaram mais de três dias no caminho. Lúcia Barbosa fê-lo pela primeira vez. "Foi uma boa experiência", diz ao DN, visivelmente cansada e sentada no chão. Uma das dificuldades que só os peregrinos encontraram desta vez foi a ausência de postos de socorro no caminho. Só em agosto deverão voltar.

No mesmo grupo está Marta Campas, a única que fez o caminho "para cumprir uma promessa". Fá-lo há seis anos. Daqui espera levar "paz e saúde". É o que vem pedir a Nossa Senhora.

Também Carolina Cardoso, 21 anos, estudante de gestão e investigação clínica em Aveiro, descansa no chão da caminhada que fez desde Cucujães, em Oliveira de Azemeis. "Venho mais para agradecer do que para pedir", sublinha, numa frase que se repete aqui e ali, em cada entrevista. Sinais dos tempos. Antes de chegar ao tocheiro, para acender as velas, é preciso recolhê-las. Não se vendem, mas o Santuário deixa a indicação do valor que deve ser dado como oferta, entre os 50 cêntimos e os 2 euros e 70. Ali não há velas gigantes. As maiores têm 60 centímetros. Mas do lado de fora, nas pracetas, as lojas ainda as vendem. Por estes dias, queimam-se milhares de velas ali.

100 anos da imagem da virgem

A imagem que mais uma vez percorreu o Santuário fez agora um século. A escultura de Nossa Senhora do Rosário de Fátima - venerada na capelinha das Aparições - foi oferecida em 1920 pelo devoto Gilberto Fernandes dos Santos, de Torres Novas, benzida no dia 13 de maio desse ano, na igreja paroquial de Fátima, e chegou há capelinha um mês depois. Faz hoje 100 anos. E por isso o Santuário vai permitir uma observação mais detalhada, logo a seguir às cerimónias, entre as 14 e as 20 horas de hoje, no âmbito da exposição "vestida de branco".

Obra de José Ferreira Thedim, a escultura é feita em madeira (cedro do Brasil) e mede 1,04 metros. Foi restaurada pelo autor em 1951 e, posteriormente várias vezes retocada. Destaque para a coroa preciosa que ostenta apenas nos dias das grandes peregrinações, oferecida "pelas mulheres de Portugal, a 13 de outubro de 1942". É de outo, pesa 1,2 kg e tem 313 pérolas e 2679 pedras preciosas. Em 1989, nela foi encastoada a bala extraída do corpo do papa João Paulo II, depois do atentado de que foi vítima em Roma, a 13 de maio de 1981, e por ele oferecida ao Santuário, em 26 de março de 1984.

A escultura fez 12 viagens com sentido de culto, três delas ao Vaticano, a pedido dos Papas. E em cada dia 13 é venerada por milhares de peregrinos, que esta tarde a poderão ver mais de perto, no Convívio de Santo Agostinho, no piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade. A entrada é livre.

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