Natal dos Hospitais fez 74 anos e cantaram-se parabéns a Marcelo

Doentes e visitantes, muitos deles antigos utentes, assistiram em direto ao Natal dos Hospitais. Marcelo Rebelo de Sousa juntou-se à festa e lembrou como os portugueses celebram de forma especialmente unida esta época

Foi há 74 anos, a 23 de dezembro de 1944, que o Diário de Notícias inaugurou O Natal dos Hospitais, nas várias enfermarias de Lisboa. Este é o mais antigo evento natalício e nunca sofreu uma interrupção. No palco do já demolido Hospital de Arroios estavam Vasco Santana e Mirita Casimiro. Ainda não existiam câmaras de televisão - a RTP associou-se ao evento apenas em 1958 -, Catarina Furtado e José Carlos Malato, bem como Sónia Araújo e Jorge Gabriel ainda não tinham nascido, mas foram eles quem, esta quinta-feira, levaram a casa dos portugueses o Natal que o DN quis oferecer a quem não o poderia passar em casa.

A emissão televisiva foi transmitida pela RTP1 a partir do Hospital de São João, no Porto, mas também e principalmente, como é tradição, do Centro de Reabilitação de Alcoitão, local que muitos utentes consideram casa. É o caso de Paulo Correia, de 54 anos. Tinha apenas 3 meses quando conheceu o centro, vítima de poliomielite. Perdeu a conta às vezes em que passou temporadas internado em Alcoitão, mas também noutros locais. "Já assisti a mais de 40 edições de Natal dos Hospitais. Venho sempre assistir porque aqui sinto-me em casa", disse ao DN. Ao lado, estava a amiga "quase irmã", Catarina Fragoso, para quem era a primeira vez que assistia ao vivo à festa. "Estou feliz. É uma iniciativa muito importante para quem tem de passar o Natal no hospital, só é pena que não possa acontecer mais vezes", afirmou.

A casa mesmo vai voltar Mariana Silva neste Natal. Tem apenas sete anos e há um mês que sofreu o que é denominado de "AVC infantil", explica o pai, Tiago Silva, ainda mal refeito do susto - e agora do alívio. A filha esteve em coma, mas há três semanas que está em Alcoitão e a "recuperar bem", confirma a mãe, Elsa Silva. Tanto que a pequena Mariana, que tinha deixado de falar e de andar, até já enviou os pedidos de prendas ao Pai Natal "por telemóvel". Quer uma boneca e um kit de manicure. E passar o Natal com os pais. Sonho cumprido. Depois regressará a Alcoitão, para continuar os tratamentos.

É o seu primeiro Natal dos Hospitais e gostou muito "dos palhaços e das bailarinas", mas também da visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que irrompeu na festa a meio da tarde - era a visita mais esperada.

Parabéns a Marcelo e saudades de Luanda em Alcoitão

A sala recebeu Marcelo a cantar-lhe os Parabéns - o Chefe de Estado fez 70 anos há dias - mas este quis que a atenção fosse inteira para os meninos e meninas, para os doentes, quase todos acompanhados pelas famílias. Muito amor se sentiu no auditório do Centro de Reabilitação de Alcoitão. Só por isso, já foi Natal.

Rucânia Machado, 15 anos, é de Luanda e está há três meses no centro. Não quis tirar fotografia, é tímida, mas contou das saudades que tem de casa, da escola, dos amigos e dos quatro irmãos. Sofreu um AVC e está a recuperar em Portugal. A mãe está em Lisboa mas hoje não pode estar ao lado dela na festa. Rucânia ficou com pena, mas confessa que não gosta de "chamar as atenções". Concede uma confissão: "Quero ser juíza". Não gosta de injustiças e sim, concorda que o que lhe aconteceu foi uma injustiça. Em breve voltará a Luanda e talvez o Pai Natal não se esqueça do seu pedido: um telemóvel novo.

Mais falador estava Diogo do Carmo. O menino de 13 anos vive no centro João Paulo II, em Fátima, e veio acompanhado por uma das cuidadoras do centro. "Trabalho há mais de 20 anos no centro mas nunca tinha vindo. Pedi folga e vim acompanhá-lo", contou Lurdes Trindade. Diogo estava feliz: adora os cantores Toy e Tony Carreira, gosta muito de música e era dos mais atentos na primeira fila. Claro que a prenda que espera receber no sapatinho são uns headphones.

Marcelo Rebelo de Sousa haveria de receber um convidado especial em palco - o pequeno Rafael Ferrador, de 3 anos, que fugiu à mãe e foi sentar-se no colo do Presidente. Foi mesmo assim com ar de avô que Marcelo contou como gosta desta época e de como o Natal dos portugueses é diferente do Natal em qualquer outro ponto do mundo.

"É a única altura do ano em que as famílias estão mesmo completas ou quase completas e em que com mais ou menos dinheiro há sempre uma comida especial". Em Alcoitão também assim foi: família unida, a de sangue e aquela que é formada por toda a equipa do centro. Em Alcoitão o Natal foi hoje, como devia ser.

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