Ministra admite recorrer a privados para realizar cirurgias adiadas

Segundo Maria Temido já foram adiadas cinco mil cirurgias desde o início da paralisação dos profissionais de saúde.

A ministra da Saúde, Marta Temido, admitiu esta terça-feira recorrer aos hospitais privados para realizar algumas cirurgias adiadas nos hospitais públicos devido à greve dos enfermeiros, caso o Serviço Nacional de Saúde não consiga responder a todas as situações.

"Continuamos a trabalhar no sentido de que todas as cirurgias que neste momento não estão a ser realizadas possam ser reagendadas no mais curto prazo possível e continuamos a trabalhar com os conselhos de administração no sentido de encontrar soluções para que, ainda dentro do período da greve, algumas das cirurgias que não correspondem ao padrão de serviços mínimos" possam ser realizadas, disse Marta Temido aos jornalistas, à margem da sessão de encerramento das comemorações dos 20 anos da Ordem dos Médicos Dentistas.

Segundo Marta Temido, está a tentar-se que algumas destas cirurgias possam realizar-se nos hospitais onde decorre a paralisação, que já adiou cerca de 5000 operações programadas. "Temos tido alguma colaboração dos piquetes de greve no sentido do alargamento de salas para alguns casos específicos ou para que essas cirurgias possam ser realizadas noutros hospitais, preferencialmente do Serviço Nacional de Saúde", mas "se for necessário também com hospitais privados", adiantou.

A ministra defendeu que este tipo de movimento que visa "a defesa de reivindicações dos trabalhadores não pode dar azo a algo" relativamente ao qual todos têm "algumas reservas, que é a questão de reforçar o setor privado em detrimento de uma fragilidade aparente criada do serviço público".

600 mil cirurgias por ano. Cinco mil adiadas

"É muito importante que se refira que o Serviço Nacional de Saúde realiza anualmente perto de 600 mil cirurgias e que as cirurgias que estão neste momento a ser adiadas são cerca de 5000. Portanto, pese embora a enorme preocupação com que olhamos este impacto na vida dos portugueses na sua saúde, ao qual estamos atentos, e que continuaremos a trabalhar para contornar, esta greve tem a dimensão que tem", salientou

Marta Temido salientou ainda que, "felizmente", o SNS "tem capacidade de continuar a fazer outras coisas muito importante e muito positivas". "O Serviço Nacional de Saúde não é a imagem que às vezes se lhe pretende colar de serviço onde as pessoas não estão protegidas, as pessoas estão protegidas", assegurou, realçando que as ordens profissionais têm um "papel fundamental" nesta matéria.

As greves que afetam o SNS têm um aspeto relevante de reivindicação dos profissionais, que o Governo tenta "acompanhar na medida" das suas "possibilidades como país", mas têm também "um outro lado, um lado de fragilização dos serviços públicos".

Questionada sobre se essa fragilidade é criada pelos enfermeiros em greve, a ministra disse não acreditar que isso seja feito deliberadamente.

"Todos temos a perceção de que quando tomamos determinados atos ou determinadas atitudes não são só os nossos atos que contam. É também a imagem que fica aos olhos da opinião pública em geral", frisou.

Ministra preocupada

Marra Temido disse estar "bastante preocupada" com as condições de trabalho dos cerca de 130 mil profissionais que trabalham no SNS, mas confessou ainda estar "mais preocupada com os 10 milhões de portugueses que a ele precisam de recorrer diariamente". E "na escolha entre os dois", o Governo vai "escolher sempre os portugueses".

Sobre as áreas que mais preocupantes em termos de cirurgias adiadas, apontou a cirurgia vascular, a pediatria, as urgências diferidas de doentes com fraturas na área da ortopedia, mas ressalvou que não é possível fazer uma lista de prioridades, porque a preocupação são todos os doentes que estão a ser afetados por esta greve.

A greve cirúrgica dos enfermeiros, que termina em 31 de dezembro, está a decorrer nos blocos operatórios do Centro Hospitalar Universitário de S. João (Porto), no Centro Hospitalar Universitário do Porto, no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e no Centro Hospitalar de Setúbal. No entanto, os enfermeiros já se movimentam para prolongar a greve.

Pede às ordens para conterem "excesso verbal"

Ainda esta terça-feira, a ministra da Saúde, Marta Temido, apelou às ordens profissionais para conterem algum "excesso verbal" na greve dos enfermeiros porque pode "transparecer uma sensação de insegurança" numa altura em que se impõe serenidade.

Marta Temido comentava desta forma aos jornalistas as declarações dos bastonários da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, e da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, em que admitiam a possibilidade de doentes poderem morrer na sequência da greve cirúrgica dos enfermeiros que já adiou cerca de 5.000 cirurgias programadas.

"Às vezes, na forma como as pessoas se exprimem há um excesso verbal que pode transparecer uma sensação de insegurança que poderá não ser real e que muitas vezes se destina até a causar uma sensação de efeito que certamente não é aquele que as pessoas pretendem, porque ultrapassa aquilo que é o objetivo de uma greve", disse Marta Temido à margem da sessão de encerramento das comemorações dos 20 anos da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD).

O objetivo de uma greve "é a defesa de direitos dos trabalhadores relativamente aos quais poderemos não estar exatamente de acordo sobre a forma de os repor, de os alargar, mas há sobretudo uma serenidade que eu acho que se impõe", sustentou a ministra.

Marta Temido disse ainda que quer acreditar que, neste momento, com esta "situação bastante preocupante" que o país tem "em mãos, todos os atores fazem aquilo que é a sua função e cumprem aquilo que são as suas responsabilidades".

"Às ordens profissionais, às associações públicas profissionais, incubem antes de mais nada salvaguardar os direitos dos utentes e, portanto, tenho a certeza de que se estiverem em causa riscos deontológicos - e em termos deontológicos a primeira obrigação de um profissional de saúde é sempre o seu doente - as ordens profissionais garantirão que os doentes não são colocados em risco", vincou.

A ministra da Saúde sublinhou ainda que "o Ministério da Saúde não está impávido e sereno" relativamente a esta greve.

"Está sereno, mas não está impávido, está a trabalhar com quem no terreno resolve os problemas que são os hospitais e os seus conselhos de administração e tenho a certeza de que as ordens profissionais estão a fazer tudo o que lhes compete para fazer isso mesmo", salientou.

Os enfermeiros têm apresentado queixas constantes sobre a falta de valorização da sua profissão e sobre as dificuldades das condições de trabalho no Serviço Nacional de Saúde, pretendendo uma carreira, progressões que não têm há 13 anos, bem como a consagração da categoria de enfermeiro especialista.

A paralisação foi convocada pela Associação Sindical Portuguesa de Enfermeiros (ASPE) e pelo Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (Sindepor), embora inicialmente o protesto tenha partido de um movimento de enfermeiros que lançou um fundo aberto ao público que recolheu mais de 360 mil euros para compensar os colegas que aderissem à paralisação.

A greve cirúrgica dos enfermeiros, que termina em 31 de dezembro, está a decorrer nos blocos operatórios do Centro Hospitalar Universitário de S. João (Porto), no Centro Hospitalar Universitário do Porto, no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e no Centro Hospitalar de Setúbal. No entanto, os enfermeiros já se movimentam para prolongar a greve.

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