Mark Zuckerberg é o fundador e CEO do Facebook.

Investigate Europe

Fraudes com máscaras inundam Facebook e Instagram

Em Portugal e por toda a Europa continuam a circular anúncios de empresas que vendem máscaras faciais e outros produtos médicos, que o Facebook diz ter banido, por explorarem o clima de medo criado pela pandemia do SARS-CoV-2

Apesar de ter sido anunciada há semanas uma proibição de publicidade a máscaras e outros produtos médicos relacionados com o covid-19, este tipo de anúncios continua a circular amplamente no Facebook e no Instagram, levantando questões sobre a capacidade de as plataformas protegerem os seus utilizadores de esquemas de fraude e especulação em plena pandemia.

No dia 6 de março, o Facebook anunciou "a proibição temporária de anúncios e listas comerciais, como as do Marketplace, que vendem máscaras de rosto médicas", com o objetivo de evitar a exploração de receios sobre a pandemia do coronavírus.

O Instagram (que é uma outra marca do mesmo grupo Facebook) também anunciou no Twitter a sua decisão: "Proibir anúncios que exploram esta situação."

Sobre esta sua nova política, o Facebook escreveu: "As nossas equipas estão a acompanhar de perto a situação do covid-19 e farão as atualizações necessárias às nossas políticas se virmos que há pessoas a tentar explorar esta emergência de saúde pública."

Contudo, mais de três semanas depois, esses anúncios continuam a circular, levantando questões sobre a capacidade do Facebook para os remover e identificar e bloquear os seus criadores, que pagam à plataforma norte-americana para promover as suas vendas.

Um duplo problema

Essencialmente os anúncios de máscaras faciais e outros materiais médicos colocam dois problemas relacionados.

Em primeiro lugar, promovem a exploração e a compra motivada pelo pânico, agravando a escassez de máscaras e outros produtos de que os profissionais de saúde necessitam, na linha da frente da batalha contra a pandemia.

Organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) têm sublinhado repetidamente que as máscaras de proteção facial médicas proporcionam poucos benefícios adicionais aos membros saudáveis do público que já tomam medidas de proteção, como o distanciamento social e a lavagem regular das mãos. Segundo a OMS, as máscaras só são recomendadas para os indivíduos que se ocupam de pessoas suspeitas de estarem infetadas pelo SARS-CoV-2 ou que apresentem eles próprios sintomas.

No entanto, em vários países, como Portugal nos últimos dias, tem sido recomendado o uso generalizado de máscaras pela população que se desloca a zonas onde o distanciamento de segurança é impossível (como supermercados). E isso só aumentou o "mercado" para este tipo de anunciantes.

Este conselho da OMS para que houvesse moderação na compra de máscaras (dada a sua escassez no mercado), porém, não impediu que muitos comprassem grandes quantidades. Já no final de fevereiro - mesmo antes do aumento terrível do número de casos confirmados de coronavírus na Europa e nos EUA - o cirurgião-geral norte-americano Jerome Adams implorou aos cidadãos que deixassem de comprar máscaras médicas, alertando-os para a escassez crítica que se fazia sentir.

Mais recentemente, o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) emitiu orientações atualizadas, recomendando agora a utilização generalizada de máscaras de pano simples pelo público. Contudo, mais uma vez, estas não se destinam a proteger o utente - o seu objetivo é ajudar a conter a propagação da doença por indivíduos infetados mas que podem não ter sintomas. Além disso, o CDC deixou explicitamente claro que "os revestimentos faciais de pano recomendados não são máscaras cirúrgicas ou respiradouros N-95. Esses são materiais essenciais que devem continuar a ser reservados aos profissionais de saúde, tal como recomendado pelas atuais orientações do CDC".

Mas para além da escassez de máscaras, muitos anúncios relacionados com o coronavírus nas redes sociais são problemáticos por uma razão diferente: são fraudes, puras e simples.

O receio generalizado causado pelo vírus, combinado com o número crescente de pessoas aconselhadas, ou forçadas, a "ficar em casa" em todo o mundo, já levou a um aumento do número de cibercriminosos que procuram explorar a situação.

Como observou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, num discurso vídeo de 24 de março, "infelizmente, os criminosos tiram partido desta situação". "Seguem-nos online e exploram as nossas preocupações com o coronavírus. O nosso medo torna-se a sua oportunidade de negócio. A quantidade de cibercriminalidade na UE tem aumentado. O número de medicamentos falsos, sprays de desinfeção ou curas milagrosas vendidos online é espantoso", concluiu a presidente da Comissão Europeia.

A Interpol também alertou para a crescente onda de fraudes online relacionadas com a pandemia do coronavírus, afirmando, em 13 de março, que já tinha "prestado assistência em cerca de 30 casos de fraude relacionados com o covid-19, com ligações à Ásia e à Europa, o que levou ao bloqueio de 18 contas bancárias e ao congelamento de mais de 730 mil dólares em transações suspeitas de fraude".

"Em vez de receberem as máscaras e os fornecimentos prometidos, as vítimas viram o seu dinheiro desaparecer nas mãos dos criminosos", escreveu a Interpol sobre estes esquemas de fraude online.

A campanha fraudulenta em Portugal

Ao longo das últimas semanas seguimos vários anúncios a máscaras e material médico que estão ativos no Facebook. Alguns desses espaços publicitários, comprados ao Facebook, eram rapidamente identificados e retirados pela empresa.
Mas muitos continuam ativos, como demonstram estes exemplos (não exaustivos).


Neles é visível a tentativa de fraude. Não só os preços são absolutamente exagerados, como as marcas que anunciam são suspeitas. Vários deles têm erros de escrita (o que revela poderem ter sido criados por software de disseminação de conteúdos).


E esse é um dos pontos principais deste problema: qualquer cidadão que pesquise no Google "máscaras covid" (por exemplo) torna-se uma vítima potencial destes esquemas de cibercrime. Porque a publicidade, no Facebook, não procura seduzir as pessoas a comprar. Os anúncios a máscaras chegam a quem as deseja, porque a rede social funciona assim, dirigindo a cada um de nós os produtos que sabe que procuramos, com a informação que tem sobre as nossas pesquisas e comportamentos online.

Não encontramos os anúncios, eles encontram-nos

Por isso, saber que produtos e serviços estão a ser anunciados no Facebook é complicado. No entanto, é possível "influenciar" os algoritmos do Facebook para que nos mostrem um anúncio. Isto pode ser feito através da pesquisa de material médico no Google e da visita a sites de saúde. Os cookies são então descarregados para o telefone ou o computador dos utilizadores, permitindo que as empresas que anunciam artigos médicos no Facebook encarem esse utilizador como um potencial comprador.

Quando os repórteres do Investigate Europe o fizeram em vários países europeus, o Facebook e o Instagram mostravam conteúdos patrocinados que violavam claramente a proibição da própria empresa de anúncios relacionados com o coronavírus. Além disso, muitos destes anúncios apresentavam sinais claros de fazerem parte de esquemas fraudulentos.

Por exemplo, um desses anúncios a máscaras de rosto médicas visto recentemente pelo Investigate Europe foi comprado por uma página no Facebook chamada Pautty.

Mesmo uma visita rápida revela que está muito longe de ser um vendedor estabelecido de equipamento médico. A imagem da empresa é reveladora: um casal em contraluz, em frente a uma lua gigante. A página diz que é especializada em "joias personalizadas de alta qualidade". Tem um total de quatro seguidores.

O anúncio e a página estão ambos ligados a um site (magicgifts.info) que vende máscaras de rosto médicas que parecem ter sido adicionadas apressadamente a uma loja virtual, juntamente com itens como a sua "lâmpada lunar personalizada" e "luz noturna fotográfica personalizada - leitor de música Bluetooth". As máscaras de rosto são anunciadas como proteção contra covid-19 e custam 49,93 dólares. Na página de encomenda por baixo do item uma contagem decrescente avisa, "Despacha-te! Restam 11". Quando o tempo acaba, começa tudo de novo.

A nossa pesquisa encontrou dezenas de sítios igualmente questionáveis - em várias línguas: inglês, alemão, italiano, polaco, grego e português - anunciando a venda de máscaras e outros produtos relacionados com o coronavírus através do Facebook e do Instagram. Nas suas letras miúdas (quando existem), muitos afirmam que os reembolsos só estão disponíveis para artigos que não estejam em saldo - mas todas elas estão em saldo... Outros sites oferecem "testemunhos" que são claramente fraudulentos, cheios de erros gramaticais e ligados a imagens dos seus supostos autores, que uma pesquisa rápida de imagens no Google revela terem sido retiradas de outros sites.

Talvez o mais condenável não seja o facto de os anúncios existirem, mas o quão descuidados são muitos deles, violando de forma flagrante as próprias proibições do Facebook.

Outro exemplo: um anúncio a máscaras de rosto ligado a uma página chamada GaowenWu Page, com uma imagem de perfil de uma palmeira e uma foto de capa de um desenho animado de anime. Na secção "sobre", afirma ser a página de um "apresentador de notícias".

O anúncio apresenta uma grande imagem de uma mulher usando uma máscara facial médica por baixo do texto: "Depressa! Máscara de proteção médica cirúrgica descartável em stock .50 Pcs por caixa. Estamos a ficar com pouco stock!!! Estamos a ficar com pouco stock!!!!!"

Para além da proibição das máscaras médicas no Facebook, decidida a 6 de março, estes anúncios violam também uma política anunciada anteriormente, no final de fevereiro, de "proibição de anúncios de produtos que se referem ao coronavírus de formas destinadas a criar pânico ou que implicam que os seus produtos garantem a cura ou impedem as pessoas de a contrair". Por exemplo, a publicidade a máscaras faciais que anuncia ter "produtos que são os únicos ainda disponíveis ou que afirmam que têm a garantia de impedir a propagação do vírus não serão autorizados a circular nas nossas plataformas". (sublinhado nosso).

A resposta do Facebook

Quando levantámos esta questão dos anúncios relacionados com o coronavírus no Facebook, um porta-voz da empresa responde-nos que a plataforma está "empenhada em impedir a exploração desta crise por quem quer obter ganhos financeiros" e que já tinha conseguido eliminar "milhões de anúncios e de listas comerciais".

"Embora este trabalho não tenha resultados perfeitos, continua a melhorar e criámos vários mecanismos de deteção automática para bloquear ou remover este material da nossa plataforma", afirmou o porta-voz.

Em 23 de março de 2020, o comissário responsável pela Justiça, Didier Reynders, escreveu a uma série de plataformas, meios de comunicação social e motores de busca para solicitar a sua cooperação na eliminação de burlas nas suas plataformas. Um funcionário da Comissão Europeia disse ao Investigate Europe que, desde a carta de Reynders, "o número de produtos anunciados tem tido uma redução muito significativa, até um milhão numa semana, no maior operador".

A pedido do Facebook, o Investigate Europe partilhou com a plataforma alguns dos anúncios problemáticos ativos quer no Facebook quer no Instagram, cujas imagens podem ser vistas abaixo. A empresa removeu-os rapidamente, mas neste momento muitos outros anúncios destes ainda podem ser vistos nas plataformas, levantando sérias questões quanto à verdadeira eficácia dos "mecanismos de deteção automática" do Facebook.

O problema é ainda mais opaco. Embora os jornalistas do Investigate Europe tenham conseguido obter anúncios de máscaras que lhes foram mostrados com uma facilidade assustadora, há pouca forma de saber exatamente quantos anúncios desse tipo circulam atualmente no Facebook, quantos cliques esses anúncios conseguiram - ou quanto dinheiro foi pago ao Facebook para os mostrar. Quando pedimos ao Facebook que nos revelasse uma estimativa das receitas obtidas pelos anúncios a máscaras, a empresa não nos respondeu.

Para tornar tudo ainda mais difícil, há poucas instâncias públicas a que possamos recorrer, para além da própria empresa americana, para monitorizar e combater este tipo de publicidade fraudulenta. Em resposta às nossas perguntas sobre o assunto, a Comissão Europeia e a Interpol recusaram-se ambas a fornecer estimativas quanto à dimensão deste mercado ilegal de anúncios.

"A Comissão não é uma agência de aplicação do direito do consumo. A aplicação (emissão de multas, etc.) continua a ser da competência das autoridades nacionais também nestes contextos", disse um funcionário da Comissão ao Investigate Europe.


Publicidade no Facebook e desinformação

Parece haver poucas hipóteses de que essas multas ou outras sanções sejam aplicadas ao Facebook. Até à data, a abordagem dos governos europeus e da Comissão Europeia tem sido a de esperar que os gigantes da internet façam o que está certo, tal como acordado ao abrigo do Código de Conduta da UE sobre Desinformação, de caráter voluntário.

No final de março, a vice-presidente da Comissão Europeia Věra Jourová reuniu-se com representantes das principais plataformas digitais signatárias do código (entre elas Facebook, Twitter, Google e Microsoft) para discutir a disseminação da desinformação relacionada com o surto de covid-19.

Na sequência dessa reunião, Jourová reconheceu que as plataformas adotaram medidas para remover anúncios relacionados com equipamento de proteção, como máscaras. Contudo, observou que "subsistem lacunas na aplicação integral destas novas políticas" e instou as plataformas a "oferecer mais provas de que as medidas que tomaram estão a funcionar bem".

Jurová observou também que, para além de bloquearem os anúncios, as empresas devem também garantir que não estão, de facto, a ajudar os criminosos, fornecendo-lhes informações que lhes permitam visar os utilizadores mais receosos e crédulos. "É crucial eliminar os incentivos financeiros à desinformação por clickbait e aos esquemas de exploração que continuam a ser um problema, nomeadamente para garantir que não se visem alvos baseados em informações sobre vulnerabilidades ou receios sobre a doença, mesmo que indiretamente."

Claro que isso é contraditório com o modelo de negócio de empresas como o Facebook e o Google, que construíram impérios bilionários precisamente porque criaram uma capacidade tecnológica de direcionar anúncios a cidadãos especificamente identificados pelas empresas anunciantes, com um grau de sofisticação sem precedentes. Mas para além de implorar que as grandes plataformas digitais se comportem de forma responsável, a Comissão Europeia tem poucas outras ferramentas à sua disposição. O Código de Conduta da UE em matéria de desinformação pode ser ousado nas suas aspirações, mas também não é vinculativo. Quando foi assinado em 2018, os críticos advertiram a Comissão de que a sua dependência de ações voluntárias e a ausência de sanções equivalia a dar carta-branca às principais plataformas digitais pelo seu papel na difusão da desinformação.

Esta política de "autorregulação", sem sanções para o incumprimento, não foi um acaso, mas surgiu, em parte, graças a uma intensa atividade de lobby por parte dos gigantes digitais. A investigação que realizámos em 2019 revelou que o Google e o Facebook mantiveram um intenso "braço-de-ferro" com os peritos da UE, com o objetivo de evitar o escrutínio dos seus modelos empresariais.

Um ano mais tarde, e apesar da urgência da pandemia, a Comissão continua relutante em adotar uma abordagem mais prática. A comissária Reynders utilizou uma linguagem forte, afirmando recentemente: "Não aceitaremos que os comerciantes joguem com os receios dos consumidores." Mas, até agora, continuou a apresentar os gigantes da internet como parte da solução. "Algumas plataformas, como a Amazon e o Facebook, tomaram voluntariamente medidas contra essa publicidade." A chave aqui é a utilização da palavra "voluntariamente".

Máscaras faciais e notícias falsas

Enquanto alguns podem encarar esta questão como um problema que pode ser solucionado através da criação de melhores sistemas de inteligência artificial, ou de uma moderação humana mais forte, para outros ela questiona o cerne do modelo de negócio das plataformas, um modelo que lhes permite lucrar bastante com a circulação da desinformação.

Monique Goyens, diretora-geral da Organização Europeia de Consumidores (BEUC), que reúne 45 grupos de consumidores europeus de 32 países, participou no grupo de alto nível que conduziu ao Código de Conduta sobre Desinformação, argumentando, na altura, que este não ia suficientemente longe. Afirma que a situação atual justifica a sua defesa de uma linha mais dura em relação aos gigantes digitais.

"A pandemia de covid-19 mostra os perigos da desinformação online. Os falsos conselhos podem pôr em risco a vida das pessoas", afirma Goyens, acrescentando que, embora os gigantes digitais tenham dado alguns passos positivos, "temos de ter presente que o combate à desinformação não pode ser dissociado da abordagem do modelo de negócio das plataformas, que se baseia no envolvimento dos utilizadores nos conteúdos". E como as notícias falsas viajam mais depressa do que as notícias reais, sem discutir a forma como os modelos de negócio da publicidade das plataformas estimam a desinformação online, não vamos resolver o problema da difusão da desinformação".

Este ponto foi retomado pela eurodeputada verde alemã, e antiga candidata à presidência da Comissão, Ska Keller. Em entrevista ao Investigate Europe, Ska Keller afirmou que o Facebook, em particular, deveria "pôr as cartas na mesa" e apelou à criação de "regras europeias de competição para limitar o poder das plataformas e a desinformação difundida através delas".

A existência de anúncios proibidos a máscaras médicas no Facebook acaba por lançar uma sombra profunda sobre esta questão mais vasta. Se o Facebook não pode filtrar algo tão claramente identificável como um anúncio de máscaras médicas no auge de uma pandemia, então que esperança podem oferecer os seus algoritmos e moderadores quando se trata do terreno muito mais complicado criado por campanhas de desinformação concertadas e sofisticadas?

Investigate Europe é um projeto iniciado em setembro de 2016 que junta jornalistas de oito países europeus.

Este trabalho foi financiado em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian. Investigate Europe tem o apoio das fundações Cariplo, Milão, Stiftung Hübner und Kennedy, Kassel, Fritt Ord, Oslo, Rudolf Augstein-Stiftung, Hamburgo, GLS, Alemanha, e Open Society Initiative for Europe, Barcelona.

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