Expetativa e esperança no regresso dos clientes em tempos de pandemia

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Expetativa e esperança no regresso dos clientes em tempos de pandemia

No dia em que os restaurantes puderam reabrir, o DN foi conhecer os preparativos finais minutos antes da abertura das portas. Das medidas de segurança à (muita) esperança que tudo volte o mais rapidamente ao que era antes da covid-19. Mesmo que seja num novo normal.

Esta segunda-feira, 18 de maio, marcou o primeiro dia de abertura de restaurantes. Contudo, não convenceu muitos dos restaurantes de fine dining a abrir. Foram alguns os que protelaram a abertura para o final da semana, como o "100 Maneiras" do chef Ljubomir Stanisic, ou para a próxima semana, como o "Gambrinus", ou mesmo para o início de junho - como vai ser o caso do "Bairro do Avillez" do chef José Avillez.

Mas há quem se tenha chegado à frente. O JNcQOI Ásia da Avenida da Liberdade, agora deserta de turistas, foi um desses locais. Minutos antes da abertura, prevista para as 12 horas, o chef António Bóia, sempre de máscara colocada, recebeu o Diário de Notícias para explicar o que se alterou num dos restaurantes mais frequentados da avenida lisboeta.

E se na cozinha a mudança foi pouca - uma vez que já trabalhavam de máscara e com desinfetante em alguns locais - é nas salas que se vai notar a diferença da ida a um restaurante de luxo em tempos do novo coronavírus. "O cliente vai chegar e as mesas não estarão postas", explica o chef António Bóia responsável pelas cozinhas dos restaurantes JNcQOI (Ásia e Avenida).

Aliás, o cliente nem sequer vai abrir a porta do restaurante, um empregado estará lá de propósito para o fazer. E ainda na entrada, dois dispositivos com álcool gel para desinfetar as mãos. No caso de o cliente não trazer máscara, o restaurante fornece.

O único local onde é permitido os clientes estarem sem máscara é mesmo à mesa. "Numa eventual deslocação ao WC o cliente tem de ir de máscara. Enquanto está na mesa a máscara será guardada por nós num recipiente próprio", explica António Bóia.

De resto, serão os procedimentos trazidos pelo novo normal a que a covid-19 obriga, entre outras: mesa desinfetada, talheres desinfetados, guardanapos embalados e distância dos empregados e das outras mesas. O restaurante diminui a capacidade em 70% e distância entre mesas é de quase três metros.

Na visita pelo amplo espaço do restaurante, que tem esplanada, a pergunta é óbvia, se hoje abre o Ásia porque não reabre no mesmo dia o mais conhecido JNcQOI Avenida, junto ao teatro Tivoli? "Vai abrir no dia 26, próxima terça-feira. É aqui onde estamos que produzimos o grosso do que é servido nos dois restaurantes e como há mais espaço decidimos dar prioridade ao Ásia para diluir melhor os clientes e reajustar algumas das medidas que temos estudado nas últimas semanas", explica o chef.

Viver semana a semana

Noutro local da cidade, na Estefânia, vive-se a azáfama da reabertura do restaurante Horta dos Brunos. Ainda antes da entrada no local, o jornalista e fotógrafo veem os seus sapatos borrifados com desinfetante. Depois de 15 dias a testar o serviço de take away, o chef Pedro Filipe não descura pormenores e apronta-se para abrir o seu restaurante agora com menos mesas - de 42 lugares passou para 20.

Num corre-corre digno de quem abre pela primeira vez, a equipa apronta-se, o chef prepara as montras de produtos frescos e ajeita algumas das inúmeras - e caras - garrafas de vinho e whiskey que tem em exposição.

Sempre de máscara, senta-se a correr numa das mesas, despida de artefactos e ainda ofegante - a máscara assim o mostra - para contar o que mudou no seu restaurante. Apesar das mudanças, a carta não foi mexida e as regras de higienização pouco mudaram do que era o habitual pré-covid-19. "Quem era limpo continua a ser limpo", ri-se com os olhos. "Adaptámo-nos às novas medidas, mas espero que não seja por muito tempo". Sem turnos mas com reservas, o chef acredita que nas primeiras semanas os clientes vão voltar para socializar e estar em família. Acredita ainda que a nova realidade vai correr bem e não vai durar muito. "Sou um otimista, e por agora é viver semana a semana".

O regresso dos amigos

Na zona ocidental de Lisboa, quase à sombra da Ponte 25 de Abril, o Solar dos Nunes em Alcântara tem tudo preparado para abrir aos clientes a porta, ladeada de recomendações do Guia Michelin. Contudo, prefere fazê-lo apenas na próxima quarta-feira. O dono e anfitrião, José António Nunes preferiu esse caminho. "As primeiras 48 horas da abertura desta tipologia de restaurantes serão muito importantes para saber o que está bem e o que está mal. Podíamos ter aberto já hoje, mas quero aguardar para fazer os ajustes necessários. Não quero falhar, tem que estar tudo bem feito".

A casa, fundada há 32 anos pelo pai e mãe de José António, tem reputação além-fronteiras. As paredes, com inúmeros recortes de jornais e fotografias de celebridades, tem agora a companhia de menos mesas que o habitual. De 85 lugares passaram para 50, e apesar de não parecer despido ou muito diferente, o espaço vazio trazido pelas medidas preventivas à pandemia da covid-19 causam estranheza no proprietário. " Vai ser uma aventura, quer queiramos quer não e vamos ter que nos adaptar".

Apesar de tudo, diz-se confiante no trabalho feito na preparação. Numa mesa, sentado ao lado da equipa do DN, aponta para os vários empregados que trabalham como se o restaurante fosse abrir dali a cinco minutos: "tiveram várias formações e fizemos o trabalho de casa, enviámos informação para todos, temos uma empresa de consultoria a ajudar. Vamos abrir com segurança e o cliente vai sentir-se seguro".

Otimismo no prato do dia

Nos três restaurantes de Lisboa as incertezas quanto ao futuro são muitas, mas a confiança é notória e parece não faltar na ementa do dia-a-dia.

O chef Pedro Filipe acredita que esta é uma fase que vai passar depressa. "Não sou pessimista, acho que se tomarmos todas as precaução isto vai passar rapidamente. Claro que em termos de negócio isto vai cortar as pernas a muitos, mas não podemos pensar muito nisso". E acrescenta, otimista mais uma vez: "até podem existir ajustamentos que ajudem o negócio no futuro. Se já não viajamos sem fazer reservas e marcações, porque não passar a fazer o mesmo com os restaurantes, isso vai ajudar na gestão."

No Solar dos Nunes o maior desejo é mesmo ver o regressos dos clientes, que para José António Nunes são amigos. E nem a perspetiva de falta de turistas o assusta. "O turismo, que foi o maior combustível da economia nos últimos dois anos, vai por água abaixo". O Solar, segundo o anfitrião, tem apenas 25% de turistas como clientes, e isso não o preocupa. "O mais importante é o regresso do português que festeja aqui o seu aniversário e faz aqui o seu almoço de negócios". E remata quase emocionado enquanto olha para o quadro do pai numa das paredes: "os portugueses têm uma forma de ser muito aguerrida. Dizem que o pico do vírus pode vir no inverno, vamos acreditar que não, vamos defender e blindar este canto da Europa que é cobiçado por muitos".

Na Avenida da Liberdade o chef António Bóia explica que é a quarta crise que passa. "Depois de 1993, e do 11 de setembro, veio a crise de 2008. E agora esta, que é diferente, porque mexe com os nossos hábitos e mexe connosco emocionalmente. Mas temos de pensar positivo e seguir em frente, o que o cliente tem de ganhar é confiança". Com os olhos postos no staff e na futura chegada dos clientes, sublinha: "Digo sem qualquer dúvida que, com estas medidas e com estas preocupações, é neste momento mais seguro comer nos restaurantes do que em casa".

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