Emigrantes perderam milhões com burla de promotores bancários no Minho

Entre os quatro detidos pela PJ, estão um autarca de uma freguesia de Ponte de Lima e o presidente da Associação Empresarial do mesmo concelho. Prometiam investimentos muito lucrativos mas ficava com o dinheiro.

Eram angariadores de clientes para o Deutsche Bank e prometiam que os investimentos iam ter retornos financeiros significativos. Mas isso não acontecia e, durante dez anos, fizeram várias vítimas, a maioria delas eram emigrantes idosos, com baixa escolaridade, que entregavam o dinheiro aliciados pela promessa de juros elevados. Após queixas de lesados, a Polícia Judiciária deteve agora quatro promotores imobiliários por terem burlado cerca de 80 clientes numa verba que vários milhões. Para já, com oito lesados identificados, os prejuízos ascendem a 1,6 milhões. Entre os detidos, estão o presidente de uma junta de freguesia de Ponte de Lima, eleito numa lista independente apoiada pelo CDS, e o presidente da Associação Empresarial de Ponte de Lima.

Ricardo Nuno Pimenta, autarca em Ribeira, e António Lima, dirigente associativo, estão detidos no âmbito desta investigação da secção de investigação criminal da PJ de Braga e já foram presentes a um juiz no Tribunal de Viana do Castelo. Com outros dois suspeitos, estão indiciados da autoria de crimes de burla qualificada, associação criminosa, falsificação de documentos e abuso de confiança.

António Gomes, coordenador da PJ de Braga, explicou ao DN que já foram identificadas oito vítimas, ascendendo o prejuízo a mais de 1,6 milhões de euros. "Mas o número de lesados pode atingir os 80, e o valor dos prejuízos também será maior, não significando que aumente na mesma proporção", disse o coordenador da PJ.

Os quatro detidos têm idades entre os 37 e os 55 anos e desenvolveram durante anos, na área do distrito de Viana do Castelo, "atividade de promoção bancária, a coberto da qual terão praticado os crimes". Em 2018 a atividade parou quando o banco rescindiu o contrato com estes promotores, que não são funcionários bancários, são pessoas com têm contrato com o banco para angariação de clientes. Nessa altura, o Deutsche Bank já tinha sido confrontado por alguns dos lesados que foram saber o que se passava com os seus investimentos. A resposta foi chocante: não há contas bancárias nem aplicações abertas em seu nome. Fizeram queixa e a investigação da PJ iniciou-se há oito meses.

Os detidos, aponta a PJ, aliciavam os clientes falsificavam os documentos do banco e muitas vezes apropriavam-se logo do dinheiro. Noutras situações aplicavam os investimentos dos emigrantes em produtos financeiros de alto risco. Muitas vezes recebiam dos clientes "dinheiro vivo", apesar de, como promotores bancários, estarem proibidos de o fazerem.

António Gomes escusou-se a confirmar os cargos dos dois detidos com funções políticas e associativas, sublinhando que não foi no exercício deles que os arguidos agiram e que, como tal, isso não é relevante para a investigação. "Não há qualquer ligação", disse ao DN o coordenador da PJ de Braga.

Os arguidos foram detidos na quarta-feira, na sequência de 13 buscas e no cumprimento de mandados de detenção emitidos pelo Ministério Público de Viana do Castelo. Nas buscas, foram apreendidas seis viaturas de gama alta, mil euros em dinheiro e muita prova documental e digital que está agora a ser analisada. A PJ prossegue com a investigação, para identificar o destino dado pelos arguidos ao dinheiro.

Em Ribeira, freguesia do concelho de Ponte de Lima, houve logo reação. "Há bastante tempo que o presidente da Junta de Freguesia não participa nos atos da junta, falta sistematicamente às assembleias de freguesia. É o secretário que dirige ou representa a junta em maior parte dos atos. Nunca está para responder às questões que colocamos. Penso que mais dia menos dia a junta vai acabar por cair", afirmou Jorge Silva, presidente da comissão política concelhia do PS de Ponte de Lima, que em declarações à Lusa admitiu que o executivo da junta possa cair.

A lista independente Rofen, encabeçada por Ricardo Nuno Pimenta, foi eleita nas autárquicas de 2017 com 61,19% dos votos, conquistando seis lugares no executivo de Ribeira, composto ainda por dois eleitos do PS e um do PSD.

O socialista Jorge Silva não se mostrou surpreendido com a detenção do presidente da Junta. "Para nós não é novidade. É um caso que teve agora esta dimensão, com a detenção, mas há já bastante tempo que ouvíamos dizer que isso iria ocorrer", disse o líder do PS.

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