Coronavírus. Histórias de quem já não recebe um tostão

Uma esteticista, um consultor imobiliário, uma psicóloga, um taxista e uma mulher-a-dias contam como o coronavírus lhes trocou as voltas à vida e deixaram de receber. Porque trabalham à hora, à comissão ou a recibos verdes.

A crise sanitária do novo coronavírus ameaça tornar-se uma crise económica. Já ninguém tem dúvidas disso e os governantes e responsáveis pelas instituições financeiras têm vindo a preparar os cidadãos para os tempos que se avizinham. O primeiro-ministro, António Costa, já lhe chamou "tsunami" e disse que "trará dor". Há, contudo, quem já esteja a sofrer com a falta do dinheiro que todos os dias lhe caía no bolso - quem trabalha à comissão ou quem trabalha a horas. Mas também aqueles que se veem impedidos de prestar serviços porque não há procura, o estabelecimento fechou, ou porque deixaram de ter condições para isso.

Contamos a história de cinco pessoas - uma esteticista, um consultor imobiliário, uma psicóloga, um taxista e uma mulher-a-dias - que já não estão a ganhar nada. Alguns pediram para ser identificados com outros nomes. As razões para preferirem o anonimato são diversas, mas a preocupação em relação ao futuro é comum. E uma das frases que mais repetem é: "Se não trabalhar não ganho."

Nem todas estas pessoas com quem falámos fogem aos impostos. E é preciso lembrar que o governo aprovou já medidas para os trabalhadores independentes nesta crise do covid-19 - os recibos verdes que registem uma forte redução da sua atividade de forma repentina podem pedir um apoio mensal à Segurança Social de 438,81 euros. E os trabalhadores independentes que tiverem de dar apoio à família ou aos filhos menores de 12 anos que estão em casa devido ao encerramento das escolas beneficiam de outra ajuda - vão receber um terço da média de rendimentos. Todos aqueles com quem falámos consideram estes apoios insuficientes.

Paula, esteticista: "Estou literalmente a viver às custas da minha mãe"

Paula é esteticista e trabalha num espaço que não é seu - por cada depilação, fotodepilação, pedicure ou verniz de gel que faz tem de devolver 25% à colega que está à frente do gabinete de estética. Paga os materiais à sua conta e no final da semana não lhe resta muito - 120 euros nas piores semanas, 200 nas melhores, como as de verão.

Desde dia 16 que está em casa com os dois filhos - as crianças têm problemas, como atraso no crescimento e distúrbios de comportamento. Portanto, há 12 dias que não recebe um único tostão. "Estou literalmente a viver às custas da minha mãe, estou na casa dela desde que me separei."

Paula diz que não tinha outra forma, não ganha para pagar uma casa para si e para os miúdos de 4 e 6 anos. "Tenho muitos gastos com os meus filhos. Agora a Segurança Social passou a pagar na totalidade a terapia da fala da minha filha, mas tenho também as consultas de psicomotricidade que custam 45 euros por semana, e as da terapia da fala do meu filho que são mais 25 euros semanais." O ex-marido paga uma pensão de alimentos de 200 euros aos dois filhos e metade das despesas médicas.

Até já pensou procurar outro trabalho que lhe desse um rendimento melhor -"nem que fosse o salário mínimo, pelo menos era certo" - mas precisa de horários mais flexíveis porque tem de andar com as crianças sempre de um lado para o outro.
A sua grande ajuda é a mãe, que trabalha nas limpezas e tem a reforma do falecido marido. Mas também a mãe está agora com menos trabalho, embora uma das senhoras garanta que lhe vai pagar, mesmo sem ela ir trabalhar.

"Não consigo uma casa para mim e para os meus filhos, não consigo nada."

Antes de começar a crise provocada pelo coronavírus - foi apenas há duas semanas mas parece que foi há tanto tempo -, era Paula que comprava os lanches para os filhos, pagava à empresa de telecomunicações e uma ou outra coisa para casa.
"Agora estou sem ganhar um tostão e estamos todos em casa, sempre a comer. A minha mãe é que compra tudo. Comemos o que ela traz."

O lamento vem com a voz embargada, por se sentir dependente, por sentir que queria fazer mais e não pode: "Não é fácil! Às vezes tenho vontade de desaparecer, mas tenho de tentar arribar por eles. Tenho pensado o que vai ser da minha vida. Não consigo uma casa para mim e para os meus filhos, não consigo nada."

João, consultor imobiliário: "Se não fizer esta escritura, não tenho rendimento para os próximos tempos"


João Miguel trabalha numa loja Remax há pouco menos de um ano como consultor imobiliário e ainda não teve tempo para constituir uma boa carteira de clientes. Se vender casas, tem o rendimento garantido; se não vender, as coisas complicam-se: "Se não vender, não ganho." E é isso que está a acontecer nesta altura em que, diz, "o setor parou completamente".
As lojas estão fechadas e João está em isolamento em casa. A sua esperança é de que consiga fechar o negócio que já estava em andamento antes da crise sanitária do coronavírus, que ameaça tornar-se uma crise económica, lhe virou a ele, e a meio mundo, a vida de pernas para o ar.

João tinha o negócio de um T1 já com contrato de promessa de compra e venda, com tudo encaminhado para a realização escritura. É nisso que aposta todas as fichas para ter algum rendimento no próximo mês. Acontece, porém, que os compradores são brasileiros, do Rio de Janeiro, e agora estão impedidos de vir a Portugal.

As diligências para que o negócio não se perca foram todas tomadas, mas há muita burocracia pelo meio: é preciso uma procuração dos compradores para que o representante deles em Portugal possa assinar a escritura. Até aqui tudo bem, mas o problema é que essa procuração tem de ir ao Brasil e voltar fisicamente - ou seja, não pode ser enviada por meios eletrónicos e isso já acarreta demoras numa situação normal, quanto mais quando o mundo para por causa de uma pandemia.

Quanto tempo levará? Uma semana, um mês?, questiona-se João, que não tem outra fonte de rendimento. A sorte é que a mulher trabalha por conta de outrem e o salário tem sido certo, mas não é suficiente para pagar a prestação e todas as despesas da casa e dos dois filhos adolescentes, um deles já na universidade.

"Se não fizer esta escritura, não tenho rendimento para os próximos tempos. Os 1200 euros que ia ganhar davam para um mês, mês e meio."

Os negócios até pareciam estar bem encaminhados, não fosse o covid-19 cruzar-se no meio. "Tinha dois clientes compradores que me disseram que preferiam esperar porque não sabem o que vai acontecer."

O futuro do mercado imobiliário está agora em suspenso. "Não se sabe se os preços vão baixar. As pessoas também não sabem o dia de amanhã e se vão ter emprego e rendimentos, e isso leva a que agora não queiram comprar", acrescenta o consultor imobiliário. A perspetiva de algumas vendas realizáveis passará por quem já vendeu a sua casa e tem mesmo de comprar outra, para não ficar na rua.

"A seguir ao primeiro-ministro ter anunciado o fecho das escolas, tivemos logo pessoas a cancelar o CPCV."

O mercado reagiu de imediato assim que António Costa se dirigiu pela primeira vez ao país, na quinta-feira, 12 de março. "Na sexta-feira de manhã, a seguir ao primeiro-ministro ter anunciado o encerramento das escolas, tivemos logo pessoas a cancelar o contrato de promessa de compra e venda. Eu ainda tive uma visita a um imóvel nessa tarde, mas a pessoa nem apresentou proposta."

"Estou preocupado porque não vejo da parte do governo apoios a pessoas no meu caso. Recebi um e-mail da Segurança Social a explicar as medidas tomadas, mas não me insiro em nenhuma. Tenho filhos com mais de 12 anos e um elemento do agregado tem trabalho fixo. Só que um salário não chega para tudo, a vida e as despesas não param. Se fôssemos os dois neste sistema, não sei como poderia ser."

As incógnitas sobre o futuro são muitas e João já começou a procurar outras coisas para fazer, algo que lhe possa trazer algum rendimento. "Não tenho nada a perder, mas está tudo muito complicado. Até os meus colegas que já têm a máquina montada e com boas faturações estão apreensivos. Imagine pessoas como eu que ainda estão a aprender."

As fichas estão todas apostadas na venda do imóvel ao cliente brasileiro. Depois se verá o que o futuro trará. "A incerteza é muito grande."

Manuel, taxista: "Se não for trabalhar, acabo por ser dispensado"


Desde o dia 17 de março que Manuel, 42 anos, não se senta ao volante de um táxi. Decidiu-se por fazer os 14 dias de isolamento voluntário, mesmo sabendo isso iria representar uma quebra no seu rendimento - o único que tem desde que é taxista há 15 anos.

Trabalha à comissão e estando em casa sabe que não vai receber nada por esses dias. "Se não trabalho, não ganho um tostão." Mas o princípio social, e sanitário, impôs-se nesta altura em que grande parte do país está em quarentena ou em teletrabalho. E também porque tem um filho pequenino e quer garantir a sua segurança.

"Há colegas meus que chegam a estar parados três horas na praça."

Dos taxistas que trabalham para o seu patrão, foi o único a decidir ficar em isolamento, mas garante que a sua decisão foi "bem aceite" pela empresa.

O problema de Manuel é que se o estado de emergência se prolongar - e o Presidente da República já admitiu que pode estender-se até 16 de abril -, não poderá ficar resguardado em casa e terá mesmo de voltar ao volante do táxi. "É inviável não trabalhar tanto tempo. Se não for, acabo por ser dispensado."

Até conseguiria aguentar-se um mês parado - "mais do que isso começa a ser apertado" -, mas o receio de ser dispensado pelo patrão leva-o a pensar regressar ao fim das duas semanas de isolamento.

Corridas até sabe que não terá muitas. Os colegas que ainda estão a laborar dão-lhe conta de como é reduzida a procura por parte dos clientes. "Há uma queda acentuada de 75% e não de 60%, como diz a Antral. Há colegas meus que chegam a estar parados três horas na praça. Quem está a trabalhar também trabalha pouco ou quase nada. Um deles disse-me que das oito da manhã às 19.30 fez dez serviços, quando o normal é 30/35."

Sara, psicóloga: "A minha filha tem 9 anos e já me perguntou se vamos ter dinheiro para pagar as contas"


O ramo da psicologia em que Sara trabalha no privado não lhe permite dar consultas por videoconferência, como estão a fazer muitos dos seus colegas. É psicóloga clínica infantil e sabe quão difícil é ter crianças de 6 e 7 anos em frente a um ecrã, garantir um espaço calmo, sem interrupções dos irmãos ou mesmo dos pais.

Trabalha em duas clínicas privadas e desde que iniciou o isolamento também deixou de ganhar. Uma situação que se agrava porque também o marido é trabalhador por conta própria - tem uma empresa de segurança, mas deixou de haver procura para a instalação de alarmes e nem os fornecedores estão a receber material.

"Os dois espaços onde trabalho fecharam e não temos a certeza de quando podemos retomar as nossas rotinas", diz, acrescentando a grande incerteza de como vai ser daqui para a frente porque teme que as famílias deixem de ter recursos para pagar consultas no privado.

"Descontamos todos os meses e quando precisamos não há resposta da segurança social."

Sara não se esquece de que a Segurança Social irá suportar uma parte do seu rendimento, com os 438 euros mensais destinados aos chamados recibos verdes. Mas também diz que esse valor não se aproxima do seu rendimento, nem sequer dá para pagar a casa. "Descontamos todos os meses e quando precisamos não há resposta da Segurança Social e do governo. Descontamos bastante e, quando é para receber, recebemos todos por igual."

A possibilidade de pagar os impostos nos próximos três meses não vê como uma excelente solução. "Não é uma ajuda, é o adiar de uma dívida."

E porque ouvem as conversas dos pais, as preocupações acabam por se estender às crianças. "A minha filha tem 9 anos e já me perguntou se vamos ter dinheiro para pagar as contas, se vamos conseguir manter aquilo que temos? Disse-lhe que não se preocupasse, que esta é uma preocupação dos adultos, mas até os nossos filhos começam a perceber que esta situação não vai ser tão curta quanto isso."

Jessica, empregada doméstica: "Se eu não for trabalhar, ninguém tem o compromisso de me pagar"


Jessica Alves, 38 anos, há sete anos que vive em Portugal. É a segunda vez que emigra para o nosso país, depois de ter cá passado quase quatro anos e ter decidido regressar ao Brasil. Não resultou e voltou, sempre a trabalhar a dias, a ganhar à hora. E sem fazer descontos.

Neste mês, diz, vai aguentar-se porque ainda mantém cerca de metade das casas e as senhoras que a dispensaram garantiram que iriam pagar-lhe. Mas se o estado de emergência se mantiver, conseguirá manter esse rendimento? "Estou preocupada, mas tenho que esperar. Se eu não for trabalhar, ninguém tem o compromisso de me pagar."

"Ou a gente fica ou vai para o Brasil, mas lá pode ser a mesma coisa ou pior."

Nesta altura, na casa de Jessica ela é a única que ainda vai recebendo alguma coisa. O marido e o filho, que distribuem publicidade, já estão parados. E também eles ganham ao dia. O marido na semana passada ainda conseguiu ir dois dias, a 40 euros cada, mas agora já não tem o que distribuir nem tem previsão de quando poderá voltar. "Agora ninguém quer gastar dinheiro com publicidade."

As contas é que não esperam. Jessica é imigrante e está cá para poder poupar algum, para construir uma vida melhor na sua terra. Só tem receio de que essa reserva se esgote. "Vamos ver o que vai dar. Ou a gente fica ou vai para o Brasil, mas lá pode ser a mesma coisa ou pior. A nossa situação aqui até está estabilizada, já estamos cá há muito tempo, mas para quem chegou agora é bem pior... tudo fechou."

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