Como um hospital se transforma para receber doentes com covid

Hospital de Santa Maria

Como um hospital se transforma para receber doentes com covid

A pandemia revolucionou os hospitais que tiveram de se adaptar para dar resposta a doentes com cuidados específicos de isolamento. No Santa Maria, unidades de várias especialidades deram lugar a espaços covid-19. Mas isso tem obrigado a muitas obras, sem muito tempo para as realizar. Este texto foi publicado originalmente no dia 29 de julho e faz parte de um lote de trabalhos relacionados com a covid-19 que o DN está a republicar.

O elevador cheio de pessoas com máscaras deixa-nos no quarto andar onde se vive uma azáfama diferente daquela que é habitual num hospital. As cadeiras da sala de espera que antecede a entrada na cirurgia vascular estão cheias de pó, entra-se no corredor e há escadotes, cabos elétricos, calhas, operários que andam de um lado para o outro, atarefados em transformar o serviço numa unidade de cuidados intensivos exclusiva para doentes com covid-19. É preciso instalar equipamento para transformar os quartos em pressão negativa, criar áreas onde os médicos e enfermeiros se vestem para entrar na zona vermelha... São eles que estão na linha da frente no combate à pandemia, mas para que possam lutar por vidas, antes entram em ação autênticas brigadas de operários, de eletricistas a serralheiros.

A pandemia obrigou o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a transformar-se para responder às necessidades específicas e de isolamento de infetados com o novo coronavírus. A primeira mudança no maior hospital do país começa logo pela entrada - a receção central foi transformada em "covidário" e agora o caminho faz-se pelas rampas laterais. Do lado direito da fachada estão as duas tendas que acolhem os casos suspeitos de covid, os que chegam de ambulância ou pelo próprio pé. Lá dentro há transformações precisas, as que são possíveis em tempo recorde para garantir condições se o número de casos do novo coronavírus aumentar e se as situações forem de maior gravidade.

O objetivo de tantas obras de adaptação é, numa primeira fase, criar 80 camas nos cuidados intensivos e 120 numa segunda - apesar de há uma semana os números se terem tornado animadores ao estabilizarem em cerca de duas dezenas de doentes nos cuidados intensivos e outras três dezenas de internados, o hospital tem de estar preparado para dar resposta. O plano aponta ainda para que estejam disponíveis 300 camas em enfermarias - agora são 60 e só cerca de metade estão ocupadas.

E para isso há que transformar-se e readaptar-se. Há unidades - como a de cirurgia vascular, otorrino, medicina - que passaram a ser destinadas apenas a infetados com o novo coronavírus. Isto é possível porque com a pandemia as cirurgias e os internamentos noutras áreas reduziram drasticamente e foram reagendadas para datas posteriores - esta diminuição segue em linha com a menor procura das urgências hospitalares.

Na linha da frente para combater a pandemia está o pessoal da saúde, mas nos bastidores, a garantir que as infraestruturas estão aptas para acolher e tratar doentes, entram em cena outras profissões: eletricistas, pintores, pedreiros, serralheiros, informáticos...

Nuno Jorge dirige o serviço de instalações e equipamentos e tanto ele como a sua equipa têm andado numa roda-viva. Os primeiros dias foram os mais complicados, o número de casos que chegaram ao Santa Maria faziam temer o pior e foi preciso trabalhar com afinco. Com as condicionantes de se estar num hospital e não se poder fazer barulho à noite, explica.

As dificuldades para comprar material

"Andamos com a corda no pescoço. Fomos postos à prova profissional e psicologicamente. Desde que foi declarado o estado de emergência, com tudo fechado, tem sido difícil comprar material", conta o engenheiro Nuno Jorge.

Vanessa Amaral, que também integra aquele serviço, acrescenta as dificuldades para comprar equipamento médico. "A procura é mundial, não somos só nós que precisamos de adquirir."

E como a necessidade aguça o engenho, há material obsoleto que está a ser recuperado, ventiladores que já estavam "mortos" estão agora a ser ressuscitados. Por isso, também nas oficinas a azáfama é grande - há máquinas e mais máquinas empilhadas que podem ganhar nova vida... para ajudar a salvar outras vidas. Até já houve trocas com outro hospital que tinha um aparelho para recuperar, mas que tinha falta de peças.

Nunca os serviços de instalação e equipamentos viveu uma labuta desta natureza. "Tivemos a gripe A e o ébola, mas nessas duas situações tivemos tempo para fazer as alterações e não tínhamos o estado de emergência, o que nos permitia ir ao mercado e ter tudo o que precisávamos de comprar. Desta vez não houve tempo, foi uma grande pressão para garantir os cuidados adequados aos doentes e a segurança dos profissionais de saúde", diz Nuno Jorge.

Como se transformam os quartos?

Além da quantidade imensa de tomadas que é preciso instalar nas cabeceiras - onde estão também as entradas de gases medicinais, como o oxigénio, e a saída de excreções - é também necessário colocar computadores para que os médicos e enfermeiros possam aceder à ficha técnica do doente sem terem de sair do quarto.

São ainda colocadas câmaras de videovigilância para que os infetados sejam monitorizados a toda hora. E há também que instalar a máquina que gera a pressão negativa, cujo isolamento acústico - e quando o tempo é tão apertado - resulta num desafio para os técnicos.

Depois de os quartos de cuidados intensivos estarem prontos, é preciso fazer um ensaio final: garantir que a pressão negativa está a funcionar em pleno, que de lá de dentro não sai ar contaminado. Exatamente o contrário dos quartos onde estão imunodeprimidos, já que nesses casos o que não pode acontecer é entrar contaminação.

Um contentor para TAC e outro para a morgue

Na parte de fora, do lado oposto às tendas, está a ser transformado um contentor que passará a ser a sala de TAC - pretende-se que os doentes que derem entrada na zona covid não tenham de se deslocar pelo hospital.

A pandemia tem ceifado muitas vidas, quase 700 mortos no nosso país, e também é preciso acautelar que a morgue tem condições para acolher os corpos. Na casa mortuária do Santa Maria já está preparado um contentor refrigerado para o caso de faltarem câmaras frigoríficas se os crematórios não derem vazão aos funerais.

Tratar dos vivos é, contudo, a prioridade absoluta, com a criação das condições para que se curem.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG