Casa, comida gratuita e muito mais. A solidariedade dos portugueses não tem preço

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Médicos heróis: portugueses agradecem com casas, comida e muito mais

O combate ao coronavírus elevou os profissionais de saúde a estatuto de heróis... Guerreiros que trabalham horas e horas sem cessar e que, muitas vezes, não têm um local para descansar entre um turno e outro. A resposta dos portugueses não se fez esperar.

As reservas foram canceladas e os apartamentos ficaram livres, sem turistas para os ocupar. Fazia então sentido ter casas vazias quando tantos profissionais de saúde, na linha da frente no combate ao novo coronavírus, precisam delas para descansar? Quando tantos querem evitar regressar às suas próprias habitações para protegerem as suas famílias do contágio? Não seria um imperativo moral, uma atitude solidária, abrir as portas a quem está a dar tudo para salvar vidas?

Uma empresa que gere 25 apartamentos de alojamento local tem agora 12 ocupados por profissionais da saúde - médicos, enfermeiros, mas também administrativos. Ao todo são 32 pessoas que estão alojadas nestas casas na zona centro do Porto. Nas primeiras 24 horas em que anunciou que estava de portas abertas, a Porto Path teve 70 candidatos. Agora tem uma lista de espera com mais de 160 pessoas.

Este é apenas um exemplo de cedência de alojamento gratuito, sem despesas de água ou luz, em manifesta solidariedade com quem, em turnos contínuos, batalha contra o covid-19 - há mesmo páginas no Facebook cujos administradores só aceitam pessoal da saúde e proprietários. A esta juntam-se tantas outras ações, como o fornecimento de alimentos, acolhimento dos animais de estimação, plataformas de apoio e até angariação de verbas para comprar equipamento médico.

Quando se deparou com tanta gente a solicitar-lhe casa, a Path Porto decidiu estabelecer uma metodologia. "O nosso critério de seleção dos candidatos foi colocar nos apartamentos os profissionais que têm pessoas de risco em casa. Foi um critério para salvaguardar e privilegiar as suas famílias", explica Pedro Santos, gestor de operações.

Este foi o critério, tinha de haver algum. Porque entre os mais de 160 que até esta sexta-feira pediram abrigo estão profissionais que só precisavam de umas horas diárias para descansar, outros que vivem longe e perdem duas e três horas nos transportes, outros que precisam de casa para um mês...

Além do cancelamento praticamente a 100% das reservas - e também conscientes de que não surgirão outras nesta altura -, os responsáveis da empresa decidiram bloquear o calendário nas plataformas em que trabalham até meados de maio. O prejuízo é grande, mas se ele é mais do que certo, porque não usar os tempos que se vivem para ser solidário com quem está a ajudar os outros? "Temos de ter uma missão comunitária, há uma obrigação de abrir os apartamentos a quem precisa. O dono da empresa, Rui Cardoso, esteve a ver o que podia ser feito para gerir esta crise e teve esta ideia de entrar na onda solidária", diz Pedro Santos.

É apenas um exemplo, já se disse, de casas oferecidas aos profissionais de saúde - além do alojamento local, também imobiliárias e hotéis estão a disponibilizar abrigo. Como não tem mais apartamentos para ceder, a título pessoal, Pedro Santos está agora a contactar imobiliárias para saber de apartamentos que tenham vazios e possam ser disponibilizados. A solidariedade é isto: quando um país se vê virado de pernas para o ar, trancado em casa, a saber que há profissionais que estão a dar tudo, a correr riscos, há quem queira homenageá-los... Nem que seja com palmas à janela.

Nas redes sociais multiplicam-se grupos de apoio aos profissionais de saúde, a ceder casas, comida ou tão-só a agradecer-lhes. O projeto Acolhe um Herói é um deles e nasce do desabafo, do cansaço de um médico."Obrigado pelas palmas, mas não tenho onde dormir."

Ricardo Paiágua, um dos fundadores, conta: "Um amigo, profissional de saúde, pediu-me para dormir em minha casa, daí pensei, devia haver um projeto que fizesse o match com quem pode acolher um herói e quem precisa de ser acolhido. Há várias pessoas que disponibilizam as casas, mas ninguém tem uma plataforma onde faça esta gestão." E assim nasceu esta plataforma online. Quem tiver casas próximo de hospitais e está solidário pode inscrever-se, mas quem não tem e ainda assim quer ajudar pode doar camas, mantas, pijamas. Toda a ajuda é bem-vinda.

"Somos animais profundamente sociais e quando um grupo se sente ameaçado cerra fileiras e entreajuda-se."

Como se explica esta onda de solidariedade? "Somos animais profundamente sociais e quando um grupo se sente ameaçado cerra fileiras e entreajuda-se. A história está cheia de exemplos desses: em situações de guerra, calamidades, catástrofes naturais e ataques terroristas, põe-se de lado as diferenças e o egoísmo pessoal", explica Miguel Tecedeiro, professor de Psicologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), dando como exemplo os inúmeros movimentos solidários que surgiram na II Guerra Mundial ou, mais próximos e mais recentes, com os incêndios de Pedrógão e de outubro de 2017.

A ajuda aos profissionais de saúde estende-se também à área da alimentação. Há cadeias de restaurantes a unir-se para distribuir gratuitamente as refeições a quem está a trabalhar nos hospitais. Uma forma de homenagear estes "heróis" que lutam contra o covid-19. Por exemplo, a Food for Heroes (comida para heróis) junta seis cadeias de restaurantes que se disponibilizaram a fornecer refeições gratuitas a profissionais da área da saúde - Aruki, Chickinho, Grupo Non Basta, Home Sweet Sushi, Sushi @home e The Burguer Guy.

"Em tempos difíceis não há concorrência, há solidariedade e cooperação", lê-se no comunicado da Food for Heroes", que, cada dia, fará a entrega a um hospital diferente. "Sabemos que este é um período de grande esforço e dificuldade e que muitos nem tempo têm para se alimentar e recuperar forças. Assim, decidimos dar o nosso pequeno contributo, preparando e entregando refeições destas seis empresas nos hospitais que o solicitarem."As startups ao serviço da comunidade."

Há muitas outras iniciativas para ajudar os profissionais de saúde, e os portugueses em geral, a ultrapassar o desafio imposto pela pandemia. É o caso do movimento #Tec4covid-19, uma plataforma que junta startups tecnológicas portuguesas das mais variadas áreas de atividade e mais de 2500 voluntários, especialistas em várias áreas. Nasceu de conversas cruzadas entre fundadores de startups e em apenas 48 horas reunia uma equipa de mais de 600 pessoas de 120 empresas, que foi crescendo.

"Dos grandes obstáculos nasce a força e a vontade de os superar - uma força maior do que a soma das partes que desafia a criatividade, a disponibilidade e a solidariedade. Os portugueses, quando chamados a lutar por si e pelos seus, nunca desapontaram e, perante um novo inimigo comum, as soluções urgem e os esforços unem-se", diz o manifesto do movimento.

O alojamento para profissionais de saúde é uma das valências oferecidas, pedindo-se a quem dispõe de um hotel ou de alojamento local que se inscreva para oferecer os seus préstimos. Com uma chamada de atenção: "Somos todos voluntários, não há fees cobradas neste processo e não há qualquer fim comercial. Neste momento, somos uns pelos outros."

Outras valências oferecidas são um serviço nacional de entregas entre familiares e amigos durante o tempo de isolamento; informação para encontrar a loja mais próxima, com menor ocupação; informação sobre efeitos do covid-19 nos animais e diretório de serviços de petsitting; acesso a informação técnica dada por médicos sobre o coronavírus; prestação de cuidados primários de saúde através de uma app que oferece videoconsultas, onde os interessados devem fazer os agendamentos, entre outras.

O movimento #Tech4Covid19 tem igualmente em curso uma campanha de angariação de fundos cuja finalidade é comprar equipamento médico - nomeadamente máscaras, luvas e batas - para estabelecimentos que revelem necessidade. Segundo a Ordem dos Médicos, 20% dos infetados com o novo coronavírus em Portugal são médicos.

"Não temos avós e isso dá vontade de adotar outros"

Há quem recorra a formas mais tradicionais, sem tecnologias, para disponibilizar os seus préstimos: um simples papel colado na entrada do prédio para dizer estamos aqui para o que precisarem. Joana Guerreiro (37 anos) e o namorado Tiago Batista (36) sabem que no prédio onde vivem, em São Domingos de Benfica, existem várias senhoras idosas, viúvas, que vivem sozinhas. Porque os tempos são de entreajuda, e sobretudo porque os mais velhos são aconselhados a não sair de casa, o casal fixou um papel com o número de telefone a voluntariar-se para fazer compras ou ir à farmácia a quem não pode sair ou não tem familiares que ajudem. Mas também fizeram questão de escrever que estão disponíveis "para quem tem problemas de saúde", ou seja, "deixar claro que a solidariedade se estende a todos, não é só para os velhotes, mas para quem esteja doente".

A folha de papel está estrategicamente colada junto ao interruptor da luz - "mesmo que não saiam de casa, vão buscar o correio e veem", diz Joana. Ainda não tiveram pedidos de ajuda no prédio. Mas como têm passado a palavra de que estão disponíveis para estender a ajuda fora de portas, um amigo que foi operado já lhes pediu que fossem comprar areia para os gatos da mãe.

Antes da pandemia de covid-19, Joana já estava sensibilizada para o isolamento e a falta de apoio que os idosos sofrem. Em todos os prédios de Lisboa por onde viveu o fenómeno repetiu-se: grande parte dos moradores eram pessoas mais velhas e ela aprendeu que precisam de ajuda. "Quando há cinco anos viemos viver para este prédio, demos o nosso número de telemóvel para o caso de necessitarem de alguma coisa. O espírito de vizinhança já existia."

"Não temos avós e isso dá vontade de adotar outros", diz Joana, como que a explicar a preocupação que sempre teve com os mais velhos.

Joana, que é consultora de comunicação, faz voluntariado no Hospital de Santa Maria uma vez por semana - agora está suspenso porque a situação sanitária do país assim o obriga. "No hospital, há velhotes que durante semanas e semanas não têm uma visita. É deprimente."

Por isso, como cidadã, "e perante à gravidade da situação que estamos a viver", não foi capaz de ficar de braços cruzados.

Quando a ameaça se dissipar "voltaremos a ser mais autocentrados"

Tudo o que seja ajudar proativamente ganha outra relevância nestes tempos incertos. "Faz-nos sentir uns aos outros que não estamos sozinhos, reforça o sentimento de coesão e entreajuda", afirma o psicólogo Miguel Tecedeiro.

Até os gestos mais simples como ir à janela bater palmas aos profissionais de saúde tem o seu impacto. "Fazem saber a quem está nos hospitais a fazer turnos consecutivos que o seu esforço está a ser reconhecido e valorizado pela sociedade. E são um alimento vital muito importante para manter a motivação das equipas que estão sujeitas a um stress elevado e muito cansaço físico", acrescenta.

E quando esta ameaça se dissipar? "Retomaremos as rotinas, voltaremos a ser mais autocentrados."

Até que outra realidade negra se imponha. E aí voltaremos a cerrar fileiras e a ser altruístas e solidários novamente.

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