"Ronaldo e Mourinho nunca mais caem em esquemas criminosos"

Em entrevista à TSF, a eurodeputada socialista afirma que Portugal "não escapa" aos "esquemas criminosos", que no futebol nacional podem até ser "mais perversos", e espera que as autoridades aproveitem os conhecimentos de Rui Pinto, o rosto do Football Leaks

A eurodeputada lamenta que até agora "as autoridades portuguesas não tenham mexido uma palha", para recuperar "milhões" de euros, que escapam pelos "esquemas" do futebol. Ana Gomes admite, porém, que "alguma coisa possa mudar", depois das autoridades húngaras terem entregado Rui Pinto à Polícia Judiciária.

"Espero, e vi com satisfação, que desde que Rui Pinto chegou a Portugal, as autoridades tributárias e outras, começaram a interessar-se e a querer exatamente utilizar os conhecimentos dele, como fizeram as autoridades alemãs, francesas, belgas e espanholas para ir recuperar ativos", afirmou a deputada, nesta entrevista à TSF, considerando que para as investigações o trabalho realizado no âmbito do Football Leaks deu um contributo importante.

A deputada socialista afirma que o assunto foi alvo de escrutínio no Parlamento Europeu, até no âmbito de um relatório sobre crimes fiscais, aprovado ontem em Estrasburgo, no qual também foram abordados os ditos "esquemas" no futebol. No entanto, "quando nós fizemos as audições sobre o Football Leaks, ainda não se sabia que o Rui Pinto era um dos "whistleblowers" [denunciantes]", lamentou, congratulando-se, ao mesmo tempo, por hoje haver "um renovado interesse em Portugal, nessa matéria".

Por essa razão, Ana Gomes pretende manter um "papel ativo na política" mas também desenvolver um trabalho pela transparência "a partir da sociedade civil", quando deixar o Parlamento Europeu. E espera que em Portugal também seja possível realizar as investigações "devidas", tal como tem sucedido noutras jurisdições.

"Vemos outras autoridades, designadamente as espanholas, a recuperar dinheiro de impostos do Ronaldo, Mourinho, e de outros desportistas do futebol, na ordem de milhões de euros, que foram nesses esquemas sonegados ao fisco, e não temos conhecimento de que as nossas autoridades tenham mexido uma palha".

Ana Gomes sugere que a "descoberta" dos vários casos terá um efeito de dissuasão de práticas que "não são exclusivas do futebol português". "É um fenómeno global e, portanto, tem que ser atacado".

"Tenho a certeza que Ronaldo, o Mourinho e outros nunca mais vão cair nas mãos dos conselheiros que os fizeram entrar nestes esquemas criminosos", afirmou a deputada, para quem a "preocupação com a promiscuidade nos negócios do futebol" vem dos tempos de diplomata, na Indonésia.

"Quando vim para a atividade política, estava na Indonésia, via a RTPi e achava que estava a haver demasiado futebol na discussão pública. E, desde então agravou-se", lamentou Ana Gomes, considerando que "através dos media, isto acaba por se tornar num verdadeiro ópio do povo".

Paraísos fiscais e o exemplo da Madeira

Num tom crítico, dirigido aos regimes que permitem os chamados "crimes fiscais", a eurodeputada Ana Gomes considera que "faz sentido" referir a zona franca da Madeira, no âmbito de um relatório Parlamento Europeu que trata de casos de fuga ao fisco.

Em entrevista à TSF, em Estrasburgo, a eurodeputada socialista fala de jurisdições em que estão em causa "a evasão, fraude fiscal, crimes de branqueamento de capitais [ou de financiamento do terrorismo]", os quais é "preciso combater", começando por "admitir que existem", até no espaço europeu.

"Se queremos combater os paraísos fiscais, temos obviamente de admitir que os temos na União Europeia e de os combater na União Europeia", defendeu Ana Gomes, sublinhando que "a mesma coisa se aplica a Portugal", onde "infelizmente" considera haver um "paraíso fiscal".

"Se queremos combater os paraísos fiscais, a nível global, obviamente temos que olhar para o que se passa a nível europeu e também temos que olhar para o que se passa em nossa casa. E, infelizmente, temos um pequeno paraíso fiscal, que se chama Madeira", disse a deputada, para quem a zona franca "não reverte a favor da população da Madeira".

"Porque quem esteve a ganhar dinheiro nestes últimos 30 anos foram as pessoas ligadas ao grupo Pestana, que está por trás da sociedade de desenvolvimento na Madeira. E, de facto, o povo da madeira não viu benefícios nenhuns", afirmou.

"Foi o Orçamento do Estado português que - e bem - entrou para financiar a Madeira. Não tenho problema nenhum com isso. Tenho problema se a Madeira ganha dinheiro à custa de um esquema criminoso, seja ele criminalidade fiscal, seja outro tipo de criminalidade", afirmou.

Nesta entrevista, Ana Gomes questiona, em forma de alerta, "quantas vezes" a criminalidade fiscal e financeira não é "utilizada para esconder outro tipo de grande criminalidade, incluindo o financiamento do terrorismo".

A eurodeputada socialista encerra este ano o seu terceiro mandato no Parlamento Europeu. Foi eleita, pela primeira vez, em 2004. Nesta legislatura é vice-presidente da Comissão Especial sobre os Crimes Financeiros e a Elisão e a Evasão Fiscais. Membro da Comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos; da Subcomissão da Segurança e da Defesa, da Delegação para as Relações com os Estados Unidos e da Delegação à Assembleia Parlamentar da União para o Mediterrâneo.

* Correspondente do DN e da TSF em Bruxelas

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