"A escola é o sítio mais seguro para as crianças porque ali elas cumprem as regras"

Na Escola Escultor Francisco dos Santos, em Rio de Mouro, os alunos estão a voltar às aulas, com máscara e sem campainha. Apesar das novas regras, os professores estão confiantes: "Não há risco zero mas o esforço da escola é o máximo."

O que mais chama a atenção é o silêncio. Nada de gritarias, de risos, daquele burburinho tão característico dos recreios da escola. Quando o portão da Escola Escultor Francisco dos Santos, em Rio de Mouro, se abriu, às 09.30 desta terça-feira (15 de setembro), o pequeno grupo de alunos do 7.º ano entrou, ordeiramente e em fila indiana, sem nenhum alarido. Todos traziam a máscara na cara e, embora alguns ainda tivessem dificuldade em manter a distância dos colegas, nenhum deles protestou quando a dona Manuela lhes disse que tinham de desinfetar as mãos de cada vez que entrassem ou saíssem da escola. "Bom ano, meninos, já tinha saudades vossas", disse a funcionária.

O Agrupamento de Escolas Escultor Francisco dos Santos tem um total de 1400 alunos, dos quais 900 estão nesta escola. Para evitar ajuntamentos e para explicar com calma as novas regras a todos os alunos, a escola decidiu fazer a receção em dias diferentes: na segunda vieram os 9.º e 6.º anos, na terça os 7.º e 8.º, na quarta virão os alunos do 5.º ano. E dentro destes grupos ainda há desfasamento: uns às 09.30, outros às 10.00, uns às 14.30 e outros às 15.00. Por isso, neste regresso à escola após seis meses em casa, o ambiente é bastante tranquilo. Anormalmente tranquilo.

"Já ontem os senti muito assustados", admite Cristina Frazão, diretora do agrupamento. "Achei-os muito sérios e circunspectos. Geralmente chegam à escola e é uma alegria, uma galhofa. Mas eles estavam muito parados, apesar de terem sentido muita falta dos amigos. Eu disse-lhe que vamos ultrapassar isto, que é muito importante cumprir as regras, manterem-se seguros e manterem seguros os que estão à volta deles, mas que vamos ultrapassar isto juntos."

A escola fechou em março, como todas as outras. "Antes até do confinamento, após as férias do Carnaval, tivemos uma aluna que veio de Itália e eu pedi para a menina ficar de quarentena. Começámos logo a aligeirar todos os contactos com o exterior, parámos as competições desportivas e as visitas de estudo. E depois, quando o Governo tomou a decisão de encerrar as escolas, fechámos." Pouco depois, a escola já estava em formato online. Dentro do que foi possível, claro.

"A adaptação foi muito rápida, os nossos professores responderam muito bem e os alunos também", diz, satisfeita, a diretora. Tentou-se resolver todas as situações dos alunos que não tinham computador ou que não tinham impressora, mas, apesar de todos os esforços, Cristina Frazão sabe que nada substitui o ensino presencial: "Houve 20% das famílias que ficaram completamente arredadas", admite. "Esperemos que agora, através da anunciada entrega de computadores, consigamos a digitalização destas famílias, para que, se tiver de acontecer - espero sinceramente que não, ou se acontecer que seja só parcialmente -, todos estejam online."

Também por isso, desde o momento que a escola fechou, os professores estão a preparar-se para a reabertura: "Em áreas que têm alguma depressão socioeconómica, como é o caso desta, houve uma percentagem - pequena, mas houve - que nos escapou neste período de confinamento, e essas crianças preocupam-nos porque para elas a escola é o seu espaço seguro."

E vai continuar a ser, garante a diretora. "Os pais podem ficar descansados. A escola vai continuar a ser o lugar mais seguro para as crianças, porque aqui elas cumprem as regras. Quando saem pelo portão, a primeira coisa que fazem é tirar a máscara e juntar-se todos a conversar, isso nós já não podemos controlar. Mas aqui iremos fazer os possíveis para que todas as regras sejam cumpridas."

Algumas das regras agora obrigatórias já eram há muito aplicadas na escola por uma questão de funcionalidade, como por exemplo a "sala-residente" para cada turma e os caminhos de circulação no interior: "Eles já sabem por onde entrar e por onde sair - foi só fazer pequenos ajustes." Da mesma forma que foi preciso fazer alguns ajustes nos horários para conseguir encaixar as disciplinas o mais possível num só turno - da manhã ou da tarde.

Entre as novidades, o fim da campainha que indicava as horas de entrada e saída é a que tem mais impacte. "Como vamos ter horários desfasados, por exemplo de manhã uns entram às 08.00 e outros às 08.20, as horas do recreio e da saída também vão ser desfasadas, não dá para ter a campainha sempre a tocar", explica a professora. Isto exige uma maior atenção por parte dos alunos. Foi colocado um relógio em cada sala de aula e os professores aconselham os alunos a usar relógio no pulso (nesta escola, os telemóveis são proibidos, incluindo no recreio).

Mantêm-se os intervalos, de 15 e dez minutos: "Os meninos precisam de descansar e a sala também precisa de ser arejada. Não posso ter os alunos fechados numa sala uma manhã inteira", diz a diretora, mas com horários desfasados: "Assim, tentamos reduzir a pressão nos recreios - no pátio e na sala de alunos, no bar e na cantina." Além disso, os alunos são aconselhados a permanecer no grupo da turma. "Vamos tentar definir uma zona no pátio para cada turma. Não podemos andar atrás deles para verificar se isso acontece, vamos tentar que eles percebam que se ficarem em grupo protegem-se mais."

"Somos todos agentes de saúde pública", diz a professora Júlia ao 7.º A, insistindo muito na ideia de que "mais do que uma turma, somos uma equipa e temos de nos proteger uns aos outros". O objetivo é reduzir ao máximo os contactos entre os alunos de diferentes turmas para, no caso de ser detetada alguma infeção, poder mandar para casa apenas a turma em questão. Da mesma forma, estão por agora canceladas todas as atividades interturmas e interescolar, assim como as competições desportivas e as visitas de estudo. "Isto empobreceu o nosso projeto educativo, mas vamos acreditar que é só uma suspensão e que logo poderemos voltar às nossas atividades."

Outros pequenos ajustes: as reuniões com os pais serão digitais, todas as cadeiras com estofos de pano que existem na escola estão plastificadas, há traços nos corredores para assinalar a distância que é preciso manter, na cantina há a possibilidade de levar o almoço em takeaway, nas salas de aulas as carteiras estão mais afastadas (mas são carteiras duplas - 14 mesas por sala, 26 alunos por turma, "não há outra hipótese"), as portas e as janelas permanecem abertas - o que vai exigir, de facto, um esforço enorme para manter o silêncio e evitar as distrações.

Cada aluno recebe no primeiro dia um pacote com três máscaras reutilizáveis com o logótipo da escola. "A máscara anda sempre connosco, é essencial", explica a professora Carmen ao 7.º A. "Não podem tirá-la, nem mesmo no recreio." Os alunos ficam desolados. Por causa da máscara, a professora está sempre a pedir-lhes para falarem alto. E vai ser certamente mais difícil falar uns com outros. "Vamos adaptar-nos", diz-lhes a professora, otimista.

Outra regra muito importante: "Não podem partilhar os materiais. As canetas, as borrachas, cada um tem de ter o seu material. Aqui a única coisa que se partilha é a sabedoria. Não emprestar não é ser mau colega, é ser-se responsável", explica a professora Júlia à turma. Esta é, seguramente, uma das regras mais difíceis de assimilar. "Isto é o contrário de tudo o que lhes ensinámos", reconhece Cristina Frazão. "Então já não é para ser solidário? Não posso emprestar nada? Isto está a provocar uma convulsão emocional nos miúdos."

E, finalmente, quando termina o turno, três alunos da turma têm de ficar na sala a desinfetar as mesas e cadeiras, uma maneira de os responsabilizar e de garantir que as salas ficam minimamente higienizadas para o turno seguinte. Neste momento, a dona Ana assoma à porta da sala para ver se está tudo a correr bem. "Eu depois venho limpar melhor, que eles são um bocadinho trapalhões", diz a auxiliar, em voz baixa. "Mas é bom eles perceberem que temos de ter mais cuidado."

À porta da escola, à espera do seu filho, está Pedro Mota. Ansioso? "Um pouco, mas não é só por causa da escola, é por toda a situação", diz. "Acho que de todas as regras, a mais difícil de cumprir será o distanciamento. Mas acho importantes voltar à escola. É melhor regressar com máscara e com distanciamento do que continuar em casa."

A diretora Cristina Frazão também não tem dúvidas disso. Tem outras dúvidas. Como vai ser na quinta-feira quando a escola começar a sério e houver muito mais crianças no recinto? Como vai ser nos dias de chuva em que terão de fechar as janelas e os miúdos não poderão permanecer no pátio? Como vai ser quando tiver de mandar uma turma (ou duas ou três) para casa, de quarentena, durante dez dias? Há algumas perguntas ainda sem resposta.

Mas está serena e confiante, e espera que esse seja também o sentimento entre alunos e pais: "Não há risco zero, mas o esforço da escola é o máximo, sei que estamos a fazer tudo o que é possível e que não poderíamos fazer de maneira diferente."

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