Num momento em que Portugal enfrenta desafios estruturais em matéria de segurança interna, fenómenos climáticos extremos cada vez mais frequentes e uma erosão crescente da confiança institucional, o novo ministro da Administração Interna terá de encarnar um verdadeiro desígnio nacional: garantir a segurança dos cidadãos e a resiliência do território com uma visão moderna, integrada e corajosa.À hora em que escrevo este texto ainda não é conhecido o nome do próximo titular da pasta da Administração Interna. Os prognósticos têm avançado que o primeiro-ministro procura um perfil operacional e político. Subentende-se que pode ser alguém que alie o conhecimento do funcionamento das estruturas de segurança e proteção civil à capacidade de negociação e leitura do momento político.Um perfil operacional pressupõe alguém que compreenda por dentro o que significa coordenar polícias, responder a uma crise, lidar com o sistema de proteção civil ou atuar em cenários de catástrofe. Trata-se de alguém com autoridade técnica, experiência e prestígio no setor – essencial esta característica – para que possa tomar decisões informadas e respeitadas pelas chefias e pelos profissionais no terreno.Já a dimensão política exige um ministro capaz de se mover com agilidade num contexto de exigência parlamentar, diálogo interministerial e comunicação com o país. Um titular da Administração Interna precisa de saber responder perante a Assembleia da República, negociar orçamentos, construir consensos e resistir à pressão mediática — sobretudo em momentos de elevada tensão, como uma vaga de incêndios, protestos nas ruas ou situações de violência pública.Ser ministro da Administração Interna hoje é aceitar um mandato exigente e transversal. Para o aceitar, quem tenha consciência da dimensão e do impacto deste cargo na vida de todos nós, deve ter carta branca e orçamento para reformar, reestruturar, reorganizar, sem se submeter a interesses corporativos.É liderar um sistema complexo e, por vezes, fragmentado, que envolve forças de segurança com culturas diferentes, estruturas de proteção civil com recursos assimétricos e um território cada vez mais vulnerável às consequências das alterações climáticas. O desafio é de liderança, mas também de estratégia, gestão e comunicação. Por isso, o desafio que se coloca ao primeiro-ministro não é apenas escolher alguém “competente” ou “forte”. É encontrar um nome que reúna essa rara simbiose: firmeza operacional e legitimidade política; autoridade técnica e sentido institucional; experiência de comando e visão de reforma.Já foram feitos vários diagnósticos por peritos e académicos sobre como tornar o modelo de segurança interna mais eficaz. No seu Governo, Pedro Passos Coelho falou em eliminar duplicações e promover a especialização na GNR e na PSP. Parece básico. Mas a verdade é que quando se sugere uma repartição de algumas valências e competências que acabariam com o conceito obsoleto da “polícia integral” (como é que com a falta de recursos que existe se pode ambicionar fazer tudo?) surgem as reações corporativas. As das fardas que não são as do interesse nacional. É tempo de redefinir as suas missões com clareza, reforçando, por exemplo, a GNR como força de âmbito nacional especializada em operações de grande escala, trânsito, proteção de infraestruturas críticas, articulação com as Forças Armadas na Proteção Civil, resposta rápida mais musculada. A PSP poderia consolidar-se como força de segurança urbana, com enfoque na prevenção, proximidade, investigação e intervenção de ordem pública em ambientes densamente povoados. O novo ministro terá de promover um pacto de funcionalidade entre estas forças, clarificando fronteiras de atuação, especializando unidades e descontinuando estruturas duplicadas como as existentes em operações especiais, investigação criminal ou unidades cinotécnicas.A valorização dos recursos humanos é igualmente crucial. Sem carreiras atrativas, remunerações condignas e perspetivas de progressão, será impossível atrair e reter talento para as forças de segurança. O ministro deve colocar este tema no centro das negociações com o Governo,No plano das migrações, as fronteiras externas da União Europeia e a criminalidade transnacional exigem um Estado preparado e estrategicamente articulado. A forma como foi conduzida a extinção do SEF gerou insegurança institucional, fragilizou a imagem do Estado e criou problemas de coordenação operacional que persistem. Seria importante repensar a decisão. Nunca foi sinal de fraqueza corrigir erros. Não quer com isso dizer o regresso do SEF, mas está mais que evidente que a vertente documental e de segurança não podiam ter sido separadas da forma como foram. E ao final de mais de duas semanas em que o país viu e sentiu como está tão vulnerável aos eventos climáticos extremos, será também evidente que Portugal de uma capacidade especializada para enfrentar os impactos crescentes das alterações climáticas. Incêndios, tempestades, cheias e deslizamentos de terras não são mais exceções: são ameaças recorrentes. Sendo a tutela da Proteção Civil, faz todo o sentido ser o MAI a promover esse caminho. Pode até seguir, sem preconceitos, a sugestão dada por Gouveia e Melo, de ser constituído uma espécie de quarto Ramos das Forças Armadas, um corpo nacional, profissionalizado e tecnologicamente equipado, dedicado à vigilância, prevenção e resposta a desastres naturais. Este corpo deve integrar competências dispersas hoje entre GNR, ICNF, Proteção Civil e Forças Armadas, garantindo comando único, especialização, doutrina própria e formação autónoma. Com um ethos operacional claro e alinhado com os melhores modelos internacionais (como a UME em Espanha), este corpo poderá ser uma âncora de resiliência nacional. Luís Montenegro pode ter aqui uma oportunidade única de mudar o paradigma. Pensar o sistema de segurança nacional a 10 anos, não apenas até ao próximo ciclo eleitoral. Esta é uma missão de serviço público puro, que exige integridade moral, competência técnica e autoridade serena. Com polícias melhor organizadas, com uma Proteção Civil verdadeiramente eficaz, quem sabe, no final da história, os argumentos para o crescimento do populismo se desarmem perante a confiança dos cidadãos. Não por apelos ideológicos, mas por respostas concretas. Vestir a farda de Portugal, nesta missão, é proteger, reformar, antecipar e servir com coragem.