Venda-se as Obrigações do Tesouro dos EUA!

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A exigência de Trump de anexação da Gronelândia pelos EUA provocou uma veemente condenação dos governos europeus. Trump respondeu com a ameaça de imposição de tarifas adicionais a países europeus. Em consequência, o Parlamento Europeu (PE) recusou ratificar o acordo comercial assinado entre a UE e os EUA no final do ano passado. A liderança americana vai continuar a manter uma postura conflituosa com os países europeus.

O presidente francês, E. Macron, propôs a aplicação do Instrumento Anticoerção (ACI) Europeu. Sem prejuízo da utilização deste instrumento (e/ou outras medidas), o que será eficaz em relação às ameaças de Trump é a utilização da dívida pública americana detida pelos países europeus.

A dívida pública dos EUA atingiu os 38 biliões de dólares (Bi$). No final do corrente ano fiscal, ultrapassará os 41Bi$. Em 2025, o Tesouro americano teve de emitir 9Bi$ em novas Obrigações do Tesouro (UST, Treasuries) para financiar o défice orçamental e pagar as vencidas nesse ano. Em 2026 terá de emitir 12Bi$. Quando Trump começou a ameaçar vários países com tarifas hiperbólicas, um dos países visados - o Japão (que detinha c. 1,1 biliões de dólares em títulos da dívida pública federal americana) - sem alarido, vendeu no mercado 72 mil milhões (mM$) de UST. A taxa de juro das Treasuries a dez anos subiu, então, de 3,9% para 4,3%. Meses mais tarde, a China (que detinha c. 800mM$ em UST), no pináculo da aplicação de tarifas absurdamente elevadas por Trump, vendeu no mercado parte dessas UST, no valor de 50mM$. A taxa de juro das Treasuries a dez anos subiu, então, de 4,3% para 4,5%.

A subida das taxas de juro das Treasuries aumenta os encargos com a dívida pública federal americana. Mas também torna mais difícil a redução das taxas de juro de referência determinadas pela Fed. Trump vem pressionando a Fed para reduzir essas taxas de juro de referência, para ajudar à reativação da atividade económica nos EUA. Sem os vultuosos investimentos feitos pelas empresas tecnológicas, a economia americana teria estagnado, ou crescido, 0,1%, em 2025. A Fed vem resistindo porque considera que a inflação ainda não reduziu o suficiente. Porém, sem esta redução nas taxas de juro, o Partido Republicano deverá perder as eleições intercalares no final deste ano.

Os países europeus devem fazer o que o Japão e a China já fizeram - vender boa parte das UST que detêm (3,6Bi$, c. 40% da dívida americana detida por Estados estrangeiros). Atenta a imprevisibilidade da política dos EUA e o aumento do risco, os maiores fundos de pensões da Suécia (8mM$) e dos Países Baixos (11mM$) já começaram a fazê-lo.

A venda pelos países europeus deve ser efetuada de forma concertada entre eles, e também com outros países titulares de UST. Para o querido líder americano tomar consciência das suas fragilidades e perceber que as guerras não se travam só com equipamento militar.

Consultor financeiro e business developer

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