Uma vacina contra as rivalidades geopolíticas

Boris Johnson convocou para hoje uma cimeira extraordinária virtual do G7. Justificou-a dizendo ser urgente encontrar um acordo que permita uma resposta global à covid-19, ou seja, o acesso de todos à imunização possível. Acrescentou que seria igualmente uma oportunidade para coordenar a procura de vacinas, de modo a evitar-se uma corrida desenfreada às poucas quantidades já disponíveis. A cimeira seria a ocasião para resolver a competição entre os Estados, que, se continuar, poderá levar a sérias fraturas políticas entre parceiros tradicionais, como se viu recentemente no aumento da tensão entre UE e o governo de Londres.

O Reino Unido ocupa a presidência do G7 em 2021. Daí a legitimidade da iniciativa de Johnson. Mas o primeiro-ministro pode ter outros objetivos bem para além da busca de uma resposta global à pandemia. O homem é um político habilidoso, com jeito para ações espetaculares. Vai tentar aproveitar ao máximo a oportunidade que a liderança do G7 lhe oferece para mostrar aos seus eleitores que tem uma estatura global capaz de marcar a agenda do grupo dos países mais desenvolvidos. Se isso se traduzir num incremento da cooperação internacional, que bem precisa de ser estimulada, só poderemos agradecer.

Receio, no entanto, que não consiga alcançar esse resultado. O tema da reunião é manifestamente prioritário, mas não se pode limitar aos países do G7.
É verdade que a Austrália, a Coreia do Sul e a Índia foram também convidadas a participar na cimeira. A Índia conta, em matéria de produção de vacinas. Mas o convite traduz, sobretudo, o interesse específico do Reino Unido em reforçar as suas relações com esses países e não a contribuição que eles possam dar para fazer chegar as vacinas aos lugares mais pobres e recuados do planeta. Reflete igualmente uma outra agenda política, que é partilhada por outros, especialmente por Joe Biden. A de barrar as ambições geopolíticas dos principais rivais dos Estados Unidos e dos seus aliados ocidentais. Só que fazer política internacional à custa de uma pandemia não me parece ser eticamente aceitável.

Na realidade, seria mais oportuno organizar uma reunião do G20 para tratar da harmonização da distribuição das vacinas e definir a contribuição de cada um para a realização desse objetivo.
O G20 tem o mérito de sentar à mesma mesa todos os países do G7 mais a China e a Rússia, entre outros. A coordenação com estes dois Estados é fundamental para um combate rápido, eficaz e generalizado contra o vírus. A intromissão de rivalidades hegemónicas não deveria ser admitida, quando se trata de responder a um problema que ameaça a saúde de todos, o progresso social e a estabilidade do futuro. Segundo estimativas do Banco Mundial, a pandemia já fez voltar à pobreza extrema um número dramático de pessoas - poderão ser à volta de 115 milhões. Acresce que a impossibilidade de acesso às vacinas por parte das populações dos países mais pobres provocará uma distorção mundial com consequências inimagináveis. Entre outros aspetos, as desigualdades internacionais ficariam ainda mais acentuadas, explosivas mesmo. O agravamento dos desequilíbrios entre regiões do globo é um dos maiores riscos que temos à nossa frente.

O G20 é atualmente presidido pela Itália. O executivo italiano, agora com Mario Draghi à cabeça, enfrenta imensos problemas internos. Não está em condições de exercer um papel de liderança na cena internacional, numa altura em que esta precisa de um gigante que a mobilize de modo incontestável. Draghi tem previsto realizar a 21 de maio, em Roma, uma cimeira global sobre a pandemia e questões afins. Maio é, contudo, daqui a uma eternidade, quando se precisa de decisões urgentes.

Entretanto, num espírito positivo, espero que a reunião de hoje do G7 permita reforçar a COVAX, o mecanismo criado pela OMS, em colaboração com várias organizações, para garantir aos países com poucos recursos financeiros e operacionais um acesso equitativo às vacinas contra a covid. Se isso acontecer, teremos de reconhecer que a iniciativa tomada por Boris Johnson terá tido algum mérito.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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